NOSSO MONSTRO

abril 10, 2011 at 19:52 (Ensaios & Reflexões)

Dentro de nós existe um monstro que vive tentado escapar, mas impusemos amarras a ele. Suas formas e aparências são diárias: manifestam-se na inveja, no ressentimento, no sexo bruto. E também nas risadas, gulodices e trapaças cotidianas, o subconsciente tem olhos inquietos e desejos vorazes. Em dois mil anos, o cristianismo nos ensinara a reprimir a criatura, reconhecendo que ela nos vem desde o nascimento. O pecado nos habita, irremediável, e nós sabemos ocultá-lo, pelo menos na maior parte do tempo. Vivemos a reter o emergir monstruoso.

Mas o monstro ruge em nós, seres largados numa imensidão sem sentido ou plenitude, um vasto mundo de condenados à própria liberdade. De vez em quando, a moral falha e culmina-se em desprezos crueldades. Nesses casos, a ética ocidental, tão respeitada, prova-se questão de ponto de vista, um sermão ignorável, ainda que tenha qualquer coisa de heroico.

Civilização, cultura, bons costumes: tentamos ocultar a verdade que nos é intragável: instintos dominam a nossa existência, e os reprimimos por medo. Um falso sentimento de preservação da espécie aponta sua espada contra a besta interior. O espírito da classe média invade as entranhas do monstro e o pinta de bípede escrupuloso diante de uma mesa de jantar.

Temos a capacidade intrínseca de agir como domadores de circo. Por toda a cidade, erguemos tendas coloridas e confortáveis, decoramos o ambiente, aprendemos a nos sentar lado a lado, organizadamente. Os cobradores são meticulosos na entrada, dividem os bilhetes numerados e contam os cheques. Agora, é de bom tom que todos, público e artistas, estralemos o chicote sobre as costas da fera anfíbia, que não devemos aceitar em nós.

Tão belos trapézios! Tão doces pipocas! A criatura tem que se ajoelhar diante das crianças, que riem grotescamente do palhaço, que se desmancha em lágrimas, cansado de saber que o riso também é uma forma de brutalidade.

Kafka viu-se metamorfoseado em um inseto, o que levou muita gente no mundo a se compreender melhor. Alguns autores de hoje, figurantes no topo das listas mercantis, vendem vampiros como heróis.  A juventude que os lê — e sonha em ser seus personagens — deveria saber que as criaturas descritas são invencíveis demais, superiores demais. Além de tudo, representam ideais inalcançáveis. O monstro humano é mais frágil, mais inseto. Embora vil e furioso, envelhece, definha e morre.

Pense nas vezes em que o ciúme vem a público, quando um casal se humilha. O homem chega e vê a mulher falando com outro no bar. Esquenta a cabeça e vai em direção a ela, furioso, condenatório. Logo três caras que estão na outra mesa reparam no começo de briga; o resto do recinto não demora a perceber que a confusão vai começar. Neste momento, o homem enfurecido já não pensa no que diz e grita como um animal raivoso. O monstro dá as caras.

Os casais vizinhos, certos de que suas criaturas próprias estão por ora adormecidas, fazem cara de que aquilo, a fúria alheia, não lhes diz respeito. A moça bonita disfarça teclando um telefone móvel, daqueles mais multifuncionais. O seu acompanhante, depois de averiguar a bunda da mulher que briga, lamenta com um estalo de lábios o incidente infeliz. Mas ele compreende, sabe que o monstro está ali, e o aceita, achando tudo razoavelmente tragável.

A fera nos observa, educada e atenta, cada mal entendido é uma desculpa, uma válvula que nos permite libertá-la parcialmente. E vamos vivendo, numa tentativa constante de domar o bicho pessoal, com pretendidas boas maneiras, gentilezas e autoengano. Hora ou outra, porém, redescobrimos que o monstro em nós é de uma natureza incurável.

↑ Foto de Olívia Fuchs

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RECUPERADORAS DE CRÉDITO RENEGOCIAM DÍVIDAS

março 20, 2011 at 15:08 (Jornalismo)

O endividamento e a inadimplência cresceram. Certas empresas comemoram.

O endividamento dos brasileiros cresceu 59,4% de janeiro a fevereiro, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). As empresas de recuperação de crédito, que prestam o serviço de renegociar dívidas para outras companhias, costumam intensificar o seu trabalho nessa época do ano.

E, hoje, o cenário é favorável para essas empresas, visto que a inadimplência subiu 25,4% no primeiro bimestre, na comparação com o mesmo período de 2010, segundo o indicador do Serasa Experian – instituição onde os “nomes sujos” são consultados.

Nas negociações com devedores, as recuperadoras de crédito chegam a oferecer 60% de desconto. Se a dívida estiver rolando a mais de cinco anos, podem barganhar 80%. “As pessoas que pagam em dia, se souberem disso, vão ficar zangadas”, disse o presidente da Cobrart, uma companhia carioca do ramo, Luiz Felizardo Barroso.

Dr. Felizardo, o presidente da Cobrart

“Mas para receber o desconto é preciso ser inadimplente, muitas vezes com nome no Serasa”, continuou. O advogado atende a varejistas, como a Leader Magazine, e a instituições financeiras, a exemplo do Itaú Unibanco.

As formas de negociação variam na Cobrart, vão desde o envio de SMS’s até o de cartas, mas a principal abordagem é feita por telefone. O forte da empresa é um call center do qual os funcionários ligam para os endividados, cobrando-os com o oferecimento de vantagens no pagamento.

“A maior dificuldade é localizar as pessoas, principalmente as das classes C, D e E, que se mudam com frequência”, afirmou Felizardo. Mas ele garante que, depois de localizadas, as duas partes sempre chegam a um acordo.

A localização de endereços também é o principal problema para o analista financeiro Omar Malheiro, que dirige a recuperadora de crédito ATN Capital, empresa que contabiliza dois milhões de CPFs na carteira de cobrança.

“O consumidor, hoje, tem uma pessoa que trabalha na solução do problema. O cobrador é antes um consultor”, endossou Malheiro. Estabelecida no Rio de Janeiro, a ATN Capital presta serviços a bancos, universidades, varejistas e à Light, companhia responsável pela manutenção da energia elétrica naquele estado.

Alta e queda no consumo

“A safra [de consumidores] que está vindo agora, em função das compras de natal, é a maior do ano”, contou o diretor-executivo da recuperadora de crédito. “As empresas, principalmente as grandes, recorrem aos serviços terceirizados de recebíveis, que trabalham com call centers”, explicou. (Neste caso, o termo recebível equivale à recuperação de crédito.)

A atividade comercial caiu 7,2% em fevereiro, na comparação com janeiro, de acordo com o Serasa. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) registrou queda de 1,8% no índice que mede a intenção de consumir das famílias brasileiras. O esfriamento do consumo se deve, principalmente, ao superaquecimento consumista-natalino registrado em dezembro de 2010, mês celebrado pelo mercado como o melhor da década.

De ano em ano, comemorando os últimos quatorze natais, a ATN Capital já recuperou R$250 milhões para as empresas a que presta serviços, por meio da realização de “centenas de milhares de acordos” com consumidores endividados, segundo o diretor-executivo da recuperadora de crédito.

Dívidas de longa data

“Quanto mais tempo de dívida, maior o desconto”, afirmou Malheiros. “Mas a dívida vai sendo corrigida ao longo dos meses”, alertou, referindo-se às taxas de juros e outras complicações da inadimplência.

Tanto a Cobrart quanto a ATN Capital fazem cobranças em nome da Leader Magazine, uma rede de lojas fluminense. Segundo Malheiros, as empresas geralmente recorrem a mais de uma recuperadora de crédito para obter o dinheiro que lhe devem.

“Os bancos gostam de emprestar, mas não de cobrar. ‘Cada macaco no seu galho!’”, zombou Luiz Felizardo Barroso, o presidente da Cobrart. Cliente sua, a Leader Magazine estabeleceu em contrato que as cobranças devem ser feitas somente a partir do quinto mês de dívida de um consumidor.

Depois de fechado um acordo entre a empresa e o devedor, por meio da recuperadora de crédito, a intermediária envia um boleto para o inadimplente. Nada pessoal. Felizardo leva em consideração a seguinte ideia: depois de renegociada a dívida com o cliente, o propósito é torná-lo fiel à companhia credora, ou seja, a empresa com a qual ele se enroscou.

 

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março 11, 2011 at 16:14 (Notas)

Um morador de rua, a frente da sua carroça, falava e gesticulava sozinho, em um fim de tarde qualquer. Debaixo do viaduto onde vive, à vista de um supermercado, o desabrigado afirmava:

— Ele morreu, mas não foi morte. Foi herói!

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DIÁRIO NOTURNO

março 11, 2011 at 1:05 (Crônica)

I

5h30 da manhã, a cidade dorme às vésperas do despertar. Não há razão para se dormir, com tantas ideias desorganizadas que percorrem em jorro a minha cabeça. Sou todo escrita. Se me desprendesse agora desse lápis e do caderno, provavelmente cairia em danação. Sou todo desleixo, e se dissesse que irei me disciplinar, estaria mentindo.

A internet é dispersiva, atrapalha desde o pensamento mais simples até as conclusões avassaladoras. Devo evitá-la. Evito o mundo virtual, esfera envolvente, mas posso – e me parece bastante razoável – ligar o som, que também é oferecido pelo computador (que vive ligado). Escolho Tom Jobim e desligo a tela. Nesse meio tempo de escolha, perco a tranqüilidade proporcionada pelas linhas em constante preenchimento. Tom Jobim não compensa: calo-o com um clique. Tenho 3.525 músicas, tem coisa aí que nunca escutei. Chego ao fim da lista ainda sem saber o que ouvir. Boto The Doors, minha cabeça zonzeia. O efeito passa vagarosamente, o sono evolui com dificuldade e recuadas apavorantes. Valeria a pena tentar dormir agora? Antes, o último cigarro.

E fim.

II

Ainda não.

Quase desequilibro na escada ao descer para buscar fogo. Mesmo sem álcool o meu corpo vacila para os lados. Da janela do quarto, vê-se uma Kombi misteriosa adentrar lentamente a garagem da casa vizinha, em frente. Toda noite, o vizinho desconhecido entra no casebre velho e abandonado – parece que para descarregar algo -, deixa o veículo branco e vai embora. Ele cuida para que não faça barulhos, mas às vezes é desastrado. Parte desta vez em um carro que estava estacionado na rua, logo ao lado da casa. O silêncio retoma o ar, os cachorros estão calmos hoje. Espero o cigarro queimar na ponta de uma piteira preta. Vai amanhecer em breve e o domingo virá. Trago derradeiramente, deixando o quarto enevoado. O tabagista precisa se deitar.

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SONHEI QUE TINHA SEDE

março 2, 2011 at 14:43 (Crônica)

Um intenso e impressionante desejo de beber água me assaltava. Felizmente, rios do líquido saíam de uma misteriosa cavidade escura. Era muito grande a minha sorte por existir aquela fonte inesgotável da bebida, pois eu sentia uma insaciável e voraz sede.

Mas, quando comecei a beber freneticamente a água que jorrava do buraco, percebi que aquela sede era diferente de uma aflição comum. Não era ela uma sede qualquer. Acontecia que, ao contrário de uma situação normal que pede alívio, aquela vontade de beber não terminava, o que causava uma agonia feroz. Por isso bebi e continuei bebendo o que saía da fonte dadivosa que rompia do muro.

Encontrava-me em apuros. Sequioso, absurdamente sequioso, me empanturrava do líquido e continuava agonizando, agora também afogado pelo excesso de água que engolia. Sentia sede e respirava com dificuldade, o sonho desaguara num pesadelo cruel. Inicialmente, a sede parecia ser uma coisa ótima, pois eu a mataria e então acordaria em paz. Porém, era uma armadilha, que me fez afogar graças a tanta água que bebi por vontade própria.

Pensei que a sede passaria quando eu enfim despertasse – outro engano. Tudo não poderia passar de um sonho ruim, complexas e bizarras representações  do meu mundo inconsciente. Embora continuasse sedento e afogado, mantive a calma e tentei respirar um pouco, sozinho no escuro daquele cenário indefinível, semelhante a uma pequena caverna sufocante.

Quando finalmente acordei, abri os olhos com dificuldade e tentei enxergar o que acontecia à minha volta; mas algo permanecia fora do normal. A sede insistia. Já desperto, eu continuava aflito, com aquela irresistível necessidade de me encharcar de água. Morria aos poucos de sede, lentamente, vítima de uma constante tortura provocada por um impiedoso instinto básico.

(05/08/08)

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CABEÇA ERGUIDA, CIDADÃOS!

março 2, 2011 at 13:49 (Jornalismo)

© Reportagem publicada na revista piauí_53, em fevereiro

Por volta das 8h30 de uma quinta-feira de dezembro, num trem da linha norte-sul do metrô paulistano, entupido de gente, as lições de cidadania no transporte público veiculadas pela TV Minuto não atraem os passageiros. Contudo, pescoços se espicham quando, nos oito monitores do vagão, surge uma jovem cabisbaixa, andando tristemente por uma avenida qualquer.

O cenário é cinzento, assim como o estado de espírito da moça. Ela mal percebe que esbarra nos outros. Vista de perfil, de olhos fixos no chão, queixo enterrado no peito, a coitada parece um L invertido, lembra um ponto de interrogação. Nesse instante, a legenda adverte: Andar olhando para baixo lesa a coluna. Surge um homem de jaleco branco sobre terno e gravata. Afetuoso, ele contorna os ombros da mulher com o braço direito e, com a mão esquerda, levanta-lhe delicadamente o queixo, para então apontar a direção em que ela deve olhar – é para lá, para a frente. Ande com a cabeça erguida, exorta a legenda. A moça retoma seu caminho, agora com passos firmes, pescoço reto e o sorriso confiante dos que enxergam o horizonte. Alguns passageiros em pé esticam a coluna; outros, sentados feito sacos de batata, também se endireitam. Já sem o jaleco, mas sempre sorrindo com benevolência, o homem aparece sozinho na tela, enquanto a legenda informa que ele é fisioterapeuta, mestre, PhD e presidente do Crefito-SP. Tudo isso em exatos trinta segundos.

[Continuação]

↑ Ilustração de Andrés Sandoval

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A DEFESA DO POETA

fevereiro 26, 2011 at 23:44 (Poesia)

↓ Por Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prêmio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma imprudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

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AMIGOS CHATOS (Lydia Davis)

fevereiro 11, 2011 at 5:30 (Literatura)

↓ Por Lydia Davis

Só conhecemos quatro pessoas chatas. O resto de nossos amigos nós achamos muito interessantes. Porém, a maioria dos amigos que achamos interessantes nos acha chatos: os mais interessantes nos acham os mais chatos. Dos poucos que ficam numa posição intermediária, com os quais existem interesses recíprocos, nós desconfiamos: temos a sensação de que a qualquer momento eles podem se tornar interessantes demais para nós, ou nós, interessantes demais para eles.

© Retirado da revista piauí 47

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HOJE TEM FESTA EM CASA

janeiro 23, 2011 at 16:40 (Jornalismo)

Baladas paulistanas apostam em fachada caseira e estrutura residencial para atrair jovens, que não precisam mais esperar seus pais viajarem para dançar na sala

A Casa 92 é uma balada. Não é sem efeito que ela se localiza no número 92 de uma rua no Largo da Batata, região tradicional de Pinheiros, na zona oeste da capital de São Paulo. Uma vez lá, quem a freqüenta deve mesmo sentir-se em casa. Dançam na sala, comem e bebem na cozinha e, sem o silêncio típico das residências à noite, conversam em grupo na varanda. O ambiente é intimista e se parece com o de festas realizadas em lares onde vivem jovens da classe média alta paulistana, durante a ausência dos pais.

“A casa era de imigrantes japoneses que mudaram para o bairro na década de 1950. Eles vendiam batatas, o marido faleceu no ano passado e a mulher botou a casa para alugar. Nós a alugamos e depois descobrimos que, por coincidência, o avô de um dos meus sócios foi quem havia a construído”, contou o idealizador do projeto, Fernando Sommer, 47.

Em novembro de 2009, ele teve a idéia de transformar a residência em um clube noturno “diferenciado”, algo como uma casa-balada. Para participar da empreitada, associou-se a Fernando Autran e Caio Simões. O trio de sócios inaugurou o espaço em abril deste ano, cabendo a Sommer – formado em arquitetura e marketing –, cuidar da gestão de imagem, curadoria e divulgação do projeto.

Passados dez meses da inauguração, segundo o empresário, a Casa 92 é atualmente freqüentada por um público de 500 a 600 jovens por noite de quinta-feira, sexta ou sábado. “A única coisa que impede a entrada é a lotação”, afirmou.

Os freqüentadores dispõem de uma mansão dividida em 12 ambientes: os aposentos foram decorados por arquitetos e artistas convidados. Há lugar de visitas, bar externo e até lareira. Uma chef elaborou o cardápio da cozinha, que é decorada de modo a lembrar um aposento da primeira metade do século 20.

“Eu quis fazer algo que se aproximasse do cliente, com bons serviços e empatia no atendimento, uma coisa mais humana e simpática”, explicou Sommer. Para ele, as pessoas se sentem à vontade na casa-balada porque o local oferece a sensação de igualdade e familiaridade.

O empresário rejeita o tratamento impessoal, comum às baladas paulistanas médio-altas. “Não tem área VIP, não tem pulseirinha: Todo mundo é considerado igual na Casa 92. As meninas deixam as bolsas no sofá e vão dançar, quando voltam, as bolsas ainda estão lá. As pessoas se sentem confortáveis e seguras.”

A estudante Renata Rafael, que se gradua em Comunicação Social, foi atraída pelo conforto. “Nessas baladas que parecem casas você pode se movimentar mais, por causa de todos os ambientes. É aberto, tem um clima mais familiar”, disse ela. “Em uma balada normal, parece que você está dentro de uma caixa fechada”, criticou.

Além de ir à Casa 92, a universitária também freqüenta outro lugar com estilo semelhante, o Neu Club, que está no bairro residencial de Água Branca, na região da Barra Funda, também na zona oeste de São Paulo. Apesar da fachada caseira e do movimento à la festa em casa, um segurança atestou na entrada do lugar: “Isso é uma balada, com alvará de balada”.

Mas adentrado o espaço, o que se vê é um corredor externo cheio de jovens. Nos fundos, funciona um bar sob a varanda na laje. Na área interna, a pista de dança é a sala de estar de uma antiga residência, decorada com lustres coloniais, quadros e uma escada de madeira velha. Apesar dos aspectos, Neu (lê-se “nói”) significa “novo” em alemão.

A balada foi aberta pelo jornalista Dagoberto Donato, em companhia de sócios, após ele ter adquirido experiência na administração de outro clube noturno, também considerado “alternativo” – o Milo Garage, em Higienópolis, na região central da cidade.

“Parece um ambiente privativo, onde todo mundo aparenta se conhecer, mesmo que não se conheça. É mais intimista”, caracterizou o estudante de Publicidade e Propaganda, Ítalo Balbino, que freqüenta a Neu Club desde a inauguração, em 2008.

O universitário realçou a importância do diálogo em lugares como esse. Nas baladas convencionais, as conversas ficam em segundo plano, em conseqüência da música alta. Segundo ele, o estilo residencial “favorece o diálogo, porque em uma casa-balada a sensação não é o DJ, o som ou a iluminação, mas sim as pessoas”.

Tanto na Neu Club quanto na Casa 92, a música varia de MPB e pop mundial até black e rap, entre vertentes menos comuns. No caso do segundo clube, a música eletrônica é banida pelos proprietários. Para quem faz parte da onda eletrônica, uma sugestão de casa-balada é a Freaks House, que funciona no Ipiranga, na zona sul da capital.

No espaço – uma mansão antiga e desgastada –, DJs tocam exclusivamente e-music – da pesada. A música repercute por aposentos intrincados, como um porão pouco iluminado e uma varanda elevada de difícil acesso – a escada que leva ao piso superior externo é interrompida por um buraco. Na “casa maluca”, como os freqüentadores a chamam, o público dançante costuma gritar coisas como “Quero parar, mas não consigo!” e “Vai, vai, vai que vai!”.

¤ 1 -Olhar do fotógrafo Igor Leão sobre a Casa 92
¤ 2 – A cozinha da balada remonta a meados do século passado

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O MINGUAR DA AUDIÊNCIA

janeiro 15, 2011 at 3:14 (Crônica, Jornalismo)

O auditório da Faculdade de Tecnologia (Fatec), na Avenida Tiradentes, estava repleto de comerciantes descontentes, no fim de tarde desta sexta-feira chuvosa. Eles se manifestavam contra o projeto Nova Luz, idealizado pela Prefeitura de São Paulo e cuja implantação ameaça seus negócios. Vindos da Santa Ifigênia, uma área comercial que gira ao redor da rua homônima, os manifestantes tinham acabado de sair de uma passeata contra a execução do projeto. Alguns deles levavam consigo apitos e narizes de palhaço.

As quatro empresas do consórcio Nova Luz e a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Urbano esperavam que pouca gente fosse aparecer. Portanto, reservaram um auditório com espaço para 300 pessoas. Infelizmente para eles, a passeata dos comerciantes, marcada para o mesmo dia, tivera êxito a algumas quadras dali. Após horas de comoção pública, o protesto seguira em direção à Fatec e boa parte da manifestação não pôde entrar.

De portões fechados, às 19h, entraram no evento somente aqueles que chegaram até o horário combinado. Talvez 50 ou cem pessoas tenham ficado para fora, criando uma atmosfera de indignação. Afinal, a audiência devia ser pública.

Eis o motivo da importância e paixão do evento: O discurso oficial diz que o projeto Nova Luz irá revitalizar 45 quarteirões da zona central de São Paulo, inclusive em boa parte da Santa Ifigênia, cujos comerciantes torcem o nariz para o discurso oficial. Para eles, a razão do projeto é atender a interesses de empreiteiras – o que justifica o cartaz que estava pendurado no portão de entrada da Fatec, no qual se lia: “Não à especulação imobiliária”.

Logo no início do encontro, entre os supostos especuladores e o batalhão de vendedores agitados pelo medo de perderem suas lojas, o clima era de animosidade, por parte do segundo time. Como é futebol a vida brasileira, principalmente numa sexta-feira de Nosso Senhor, os comerciantes ressoavam rimas, em coletivo, por toda a sala, um auditório já abarrotado e quente da Fatec.

“A Santa unida jamais será vencida”, trovoavam eles, classicamente. “A Santa é nossa”, resumiam. Por fim, sendo que todo filho tem um pai, os comerciantes voltaram-se contra o atual patriarca da capital paulista: “Não é mole, não! O Kassab quer roubar o nosso pão!”. Apesar das manifestações endereçadas, os gritantes não gostaram quando um deles perdeu a educação. Num intervalo da berraria, uma voz de homem aproveitou o breve silêncio, depois de o coro calar, para dar a sua opinião íntima sobre o prefeito: “Êi, Kas-sa-bi, vai tomar no cú!”, gritou. Mas ninguém gostou disso, e todos calaram mais ainda, porque havia certa cidadania no ar, uma consciência social em desenvolvimento.

As portas de acesso do auditório permaneciam completamente cheias, inviáveis como o resto do aposento. Um telão sobre o palco revelava a amplitude que a coisa havia tomado. Alguns comerciantes mais eufóricos passavam gritando pelas duas entradas da sala: “Tem gente lá fora ainda!”; “É uma audiência pública, gente!”; “Cadê a imprensa, cadê?!”. Uma fotógrafa foi retirada da sala por um senhor manifestante. Já grisalho, ele demonstrou a fúria de um militante da extrema-esquerda ao puxá-la e levá-la para os portões da faculdade, onde ela deveria fotografar a situação dos que ficaram do outro lado do portão. Mais do que registrar sorrisos, a portadora da máquina precisava aderir à causa.

Foi por essa altura, após 40 minutos de omissão dos organizadores da audiência pública, que se começou a falar em cancelamento. A ideia surgiu tímida, veio da boca de algum visionário reservado. Bastou que se espalhasse pela plateia para se tornar uma possibilidade. Em pouco tempo, era mote generalizado: “Cancela! Cancela!”, repetia a maioria dos presentes. Cada nova cantoria era reforçada por uma retaguarda de apitos e gritos indistinguíveis. E o novo canto determinava: Se ninguém entra, todos saem e o papo fica para outro dia. Assim esquentava o auditório da Fatec, em temperatura e emoções, com a diferença que o clamor popular tem subidas e descidas, enquanto o calor de transpirar só sobe.

A quase 40ºC e vítimas de uma insistente omissão dos realizadores da audiência pública, os convivas, apertados nas cadeiras e cantos do auditório, provavam-se inofensivos. Talvez essa aparência do coletivo tenha estimulado o secretário municipal do Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, a finalmente dar as caras no palco.

O nomeado para os assuntos urbanísticos da cidade sentou-se atrás de um balcão – no qual, esperávamos, sentar-se-iam também outros representantes do projeto Nova Luz – e pôs-se a falar ao microfone. Na mesma hora, ao meu lado, um manifestante tatuado rescendendo à cachaça comentou: “E a gente ainda tem que vê a cara do fio da puta que ta enganando nóis”.

Em seguida, o secretário pronunciou-se: “As audiências públicas são feitas quando os projetos estão quase finalizados […], mas para este projeto decidimos fazer uma no meio do processo”. À fala dele, o público reagiu com modos impacientes – um homem nas fileiras do meio deu pulos e gesticulou violentamente com o braço. Nervoso, talvez irritado, Bucalem explicou a todos que a Polícia Militar considerava inadequadas as condições de segurança do evento, levando os organizadores à decisão de cancelá-lo.

Ninguém ou quase ninguém dali trabalhou durante o período vespertino desta sexta-feira. Houvessem trabalhado, de qualquer maneira, teria sido nos arredores da Rua Santa Ifigênia, a cerca de apenas um quilômetro da Fatec. Em função disso, todos demonstraram satisfação pelo cancelamento da audiência pública, não se importando com o fato de que um dia terão de ir a outro lugar para dialogar com os representantes do projeto municipal.

As audiências públicas não foram feitas para sextas-feiras. Ao pôr do Sol, os vendedores da Santa Ifigênia desejavam apenas voltar para casa, onde poderiam assistir à televisão, comer, beber e (quem sabe?) fazer sexo. Mais importante do que isso, para eles, será acordar no sábado sabendo que na segunda-feira o comércio continua.

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