RECEITA PRA LER UM LIVRO

janeiro 17, 2012 at 0:42 (Poesia)

Para se ler bem um livro
Não basta lê-lo, e só
É preciso carregá-lo
para lá e pra cá

Caminhar com ele,
cativá-lo amigo
E nessa amizade,
surrá-lo bem

Terá daí um livro apropriado
Capa arrebentada,
orelhas, marcador
Inteiro revirado

Se o conteúdo for bom e
a procedência, livre das massas
(podendo haver exceções)
a leitura faz efeito

Come-se um livro, porém
as escolas não aprenderam a ensinar,
Não basta enfiá-lo goela abaixo,
professor

É preciso saboreá-lo as idéias
Absorver a tinta, cortar-se no papel
Não folheá-lo à exaustão
Acima de tudo, desaparecer
[na leitura de então

Para o bem ou
para o mau —
García Márquez ou
Dostoiévisk, coisa e tal.

Mas lembre-se, leitor
muito importante!
Os livros indiferentes
não foram feitos para ajudar a gente.

P.S. REMÉDIO CONTRA A FOFOCA
Não fale nada que o falado não possa ouvir.

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MENSAGEM AO POVO PORTUGUÊS

janeiro 6, 2012 at 3:45 (Poesia)

Casa de Amália Rodrigues, em Lisboa

(aplausos)

Apresentador português: … pedem agora a Vinicius umas palavras finais de saudação:

Poeta brasileiro: Bom, me pedem pra dizer as impressões que eu levo de Portugal. As impressões são as mais carinhosas possíveis. Um povo do qual eu descendo e no qual eu tenho minhas raízes mergulhadas e que eu queria conhecer algum dia, porque… Eu sou um homem meio sem pátria, minha pátria é a humanidade — mas de toda maneira, eu queria conhecer o povo português, queria entrar em contato com ele. Um povo com tremendo anseio de viver, de aparecer, de reaparecer na História. Esse povo heróico, que viveu tantas coisas lindas. Um povo que deu um poeta como Luis Camões. Todo cancioneiro português antigo — eu conheço tão bem —, do qual eu me embebi e do qual eu sofri uma grande influência… e então, a impressão que eu levo desse povo, do meu contato com ele, com os intelectuais, com os poetas, com as pessoas, é uma impressão ao mesmo tempo de beleza e de tristeza. Engraçado, porque o contato foi o mais amoroso possível — e esse é o único contato que me interessa. Mas ao mesmo tempo uma impressão de tristeza, de ver esse povo tão formalizado ainda, né. Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar, perder uma série de formalismos que ele conserva. De maneira que o que eu posso dizer sobre o povo português, neste momento, aos meus amigos portugueses, a esses que me trataram com tanto carinho, tiveram tanta atenção comigo — inclusive, uma atenção da qual eu não me acho merecedor, porque ainda também não descobri o meu caminho: Despir-se do seu formalismo!, este é o grande problema do povo português — pra mim, do que eu pude verificar aqui. Integrar-se na Grande Vida!, num negócio que eu também não sei bem como explicar, mas que acho que é fundamental para o ser humano: comunicar-se cada vez mais… Amar-se, amar-se!, sem problemas. Sofrendo muito… o sofrimento faz parte do jogo, não tem importância. Nós somos praticamente cem milhões de seres humanos falando uma língua comum. E a nossa poesia é comum, de uma certa maneira, nós temos os mesmos problemas, a mesma tristeza intrínseca, que é uma tristeza de conhecer o nosso semelhante de uma maneira que outros povos não conhecem. Temos a mesma doçura pra viver, uma certa necessidade de se comunicar — que outros povos não têm —, nós somos os últimos povos que amam e que cantam, não é? E que escrevem uma poesia direita, que tenta dizer qualquer coisa. A minha única mensagem que eu deixo a vocês aqui hoje, na casa da minha querida amiga Amália Rodrigues, essa tremenda cantora, cuja voz eu amo e que pra mim realmente transmite o que seria, digamos assim, um Portugal verdadeiro, a única coisa que eu teria a dizer a vocês é o seguinte: Rompam as cadeias! Vivam! Amem! Amem-se! Rompam as tradições! Rompam os preconceitos! E aí eu tenho a impressão que cada um vai ser… Pode!, pode se tornar mais feliz. Eu acho que o grande problema do ser humano é a felicidade, cada um deve procurar a sua felicidade, e ao procurar a sua felicidade, procura normalmente a felicidade do seu semelhante, não é?

Não sei se eu disse muita bobagem, é?! (ri seco) Mas agora eu quero ir pra minha casa porque amanhã…

(Amália ri com compaixão)

(aplausos)

Apresentador português: Isto foi apenas uma síntese, uma síntese naturalmente precária, para o espaço breve dos discos. De quanto se cantou, de quanto se disse, de quanto ficou gravado, numa noite em casa de Amália com a presença de Vinicius. Um encontro informal de pessoas da mesma família, e que vale, justamente, por esse caráter de informalidade.

19 de dezembro de 1968

 © Transcrito do disco Amália & Vinicius (1970) — faixa 19, “Mensagem”       

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POÉTICA

junho 1, 2011 at 1:41 (Poesia)

I

Por duas vezes na vida

Fiz poesia

Na primeira, era criança

Da última, já morria

II

Condenai-vos, irmãos

Aqueles que dentre nós

Pensam na vida como

Na fome pensa um cão

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A DEFESA DO POETA

fevereiro 26, 2011 at 23:44 (Poesia)

↓ Por Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prêmio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma imprudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

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POEMA DE NATAL

dezembro 24, 2010 at 18:36 (Poesia)

↓ De Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

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(I)MATERIAL

novembro 26, 2010 at 21:38 (Poesia)

↓ Por Yuri Silva

Ganhei um ipod
sorri e só.
– Obrigado…
A vida ausente de som ganhou um sopro
à ventania do silencio interior.
Música, carne, néctar tardio, Dionísio, rio, rio, rio…
Diante de tal dignidade
perdido em esta nano imensidao
perdi o ipod.
E pode melhor final?

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COMO SEMENTES

setembro 27, 2010 at 22:38 (Poesia)

↓ Por Olívia Fuchs

Os pensamentos são como sementes
que germinam em nossa mente,
e quando menos percebemos eles
se tornam cada vez mais enraizados,
mais difíceis de serem retirados.

Para o bem e para o mal.
Uma idéia pode ser uma semente aliada,
que quando cresce se torna
uma grande árvore frondosa.
Cheia de frutos do conhecimento.

Mas também pode ser uma erva daninha,
cheia de espinhos. E como toda
erva daninha, nasce e prolifera fácil.

Por isso é necessário ter a consciência
de regar os pensamentos positivos
e podar as ervas daninhas de nossa imaginação.

Porque, só assim, as sementes genuínas
poderão se transformar em árvores sólidas
que perpetuarão pela eternidade,
gerando novos frutos.

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O FARDO DE MARCOS BAHIA

setembro 14, 2010 at 15:15 (Fotografia, Poesia)

Pega seu carro, Marcos
Leva-o para passear
Pesa seu carro, Marcos?
Atulhe-o, vá reciclarQue dizem os outros carros?
Eles gritam: acelere, Marcos!
Que fazem todos automóveis?
Buzinam! E você aí, imóvel

Que faz Marcos Bahia,
Quando quer ultrapassar?
Força o gogó, assovia,
Faz panelaço sem par

De onde vem, Bahia?
Por que tanto caminha,
Quais seus destinos?
E aonde vai com tudo isso aí nas suas costas?Pesado fardo é carregado
No interior do seu carro
Na superfície dos ombros
Entre a madeira e a carne

É caro seu carro, Marcos
Feito a casa do caracol
Que, apesar de protegê-lo
Do Sol, torna-o lento

Nas costas, inalienável,
Vai o carro a carregar
Sua grana, sua vida, seu pão
Material de reciclar

Diga-me sério, Marcos
Quanto de lata, plástico,
Vidro e castigo, você
É capaz de carregar?

¤ Foto de Olívia Fuchs

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AMOR DE ESQUERDA

junho 16, 2010 at 17:36 (Fotografia, Poesia)

O nosso amor é comunista
Embora alguns comentem
Felizes da vida capitalista
Que sou um indivíduo tolo

Que indivíduo esperto que
Namora, sabe a hora de se
Segurar e guardar para si
A riqueza que lhe é direito

Como Werther, de Goethe,
Acusa: se o amor não se dá
Por inteiro, e valores sociais
Vão primeiro, é incompleto

Tanto sofrimento no jovem
Que com a mulher enriquece
O coração novo de homem,
E não pensa em enriquecer

Ela dá-me o espírito
Eu lhe dou o material
Recebo dela o cimento
E ela ganha minha cal

Adoro lhe ceder palavras
Enquanto ouço suas lições
E em um ritual sinérgico
Fazemos nossa comunhão

Quando vou à fábrica
É ela quem me dá pão
Ela me beija enfática
Eu lhe agarro as mãos

São generosos e igualitários
Os meios de produção
Somos dois bons operários
Do amor, nosso patrão

Ninguém acumula lucro
Ninguém tira mais valia
Vivemos nosso sistema
Em sincera companhia

A companhia do comum
Onde, quando perdem,
Perdem todos, e quando
Ganham, vencem os dois

Do comunismo, aí fica
A experiência mais vivaz:
Um relacionamento,
A sociedade dos casais

Dizem que o regime
Foi utópico e falhou
Mas posso dizer-me
Leninista ou sonhador

Conosco,
O comunismo
Funcionou.

¤ Foto de Olívia Fuchs

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‘ANTIAMERICANISMO’

fevereiro 8, 2010 at 2:02 (Poesia)

Está fora de moda ser ‘antiamericanista’
Agora vale somente ser antichavista
(Se for ‘de esquerda’, merece uma crítica!)
Criticar a Bolívia, o povo, terroristas

De vez em quando, nas mesas de jantar
É bom tom maldizer Cuba, e seu militar
Até um eventual elogio à China comunista
[vai bem
Mas é feio contestar a América nortista

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