AMIGOS CHATOS (Lydia Davis)

fevereiro 11, 2011 at 5:30 (Literatura)

↓ Por Lydia Davis

Só conhecemos quatro pessoas chatas. O resto de nossos amigos nós achamos muito interessantes. Porém, a maioria dos amigos que achamos interessantes nos acha chatos: os mais interessantes nos acham os mais chatos. Dos poucos que ficam numa posição intermediária, com os quais existem interesses recíprocos, nós desconfiamos: temos a sensação de que a qualquer momento eles podem se tornar interessantes demais para nós, ou nós, interessantes demais para eles.

© Retirado da revista piauí 47

Link permanente 1 Comentário

CARTA AO RESPEITÁVEL AMIGO

dezembro 24, 2010 at 22:31 (Literatura)

Respeitável amigo,

Tu que és uma muralha viva, erguida com o cimento da inteireza do ser, acabada por busto imponente e fala concisa; tu, que ao nascer do dia e durante a noite és o mesmo, inalterável, sólido; tu que afirmas, não dizes; desbravas, não descobres; tu que manténs permanentemente acesa a luz da Razão: É para ti esta carta natalina.

Eu bem sei e admiro o fato de que você se desfez dos sentimentos mais mundanos para elevar-se ao peso moral de que é digno todo homem. Transformou-se em samurai, além de ter-se posto feito um muro protetor sobre a beleza de uma mulher, que o segue, lhe serve e o sorve. Ama-o, enfim. Nos diálogos, é imbatível e convicto, um respeitabilíssimo amigo.

Incontestável, confia no dinheiro e em tudo que a liquidez possa proporcionar a um homem e sua mulher. É crente do mundo em que vivemos, acredita na terra de onde brotamos. Digo-lhe que essa terra é um berço sob o risco constante de se tornar uma má realidade; no que você me responde que esse berço é um berço de ouro muito seguro e acabado. Retruco-lhe que o berço é um leito de morte; e você diz a mim que sou cego, um cão limitado a seus próprios olfato e afobação.

Meu respeitável amigo, eu não pretendo com essas palavras ofender certezas nem erigir emoções ruins. Escrevo-lhe apenas para lhe dizer quão sincera é minha admiração por seus monumentais alicerces do espírito. Você acertou quando apontou a distância entre nossas integridades, na qual, disse depois, caberia um mar. Há, pois, um mar de noções divergentes, incompatíveis e fatais, na diferença entre nós; ondas contrapostas de pensamentos que se chocam, pensamentos tão originais, mas que distam entre si, certos de que são absolutos.

Quando sou levado a concordar com você, é porque ajo contrário a mim mesmo. Felizmente, a contrariedade é-me uma presença pacífica. Além do mais, há verdade e sabedoria nas coisas que você diz, exceto quando o assunto é o modo de vida em que cabemos. Nesse ponto somos Hitler e Stalin discutindo. Dois orgulhosos autoritários cheios de pretensão e imaturidade, ouso dizer. Você acusará a parte da imaturidade, mas insisto que sim, carregamo-a conosco – e não sou somente eu o imaturo, como você também acusará depois, irritado, sem mover as sobrancelhas. Cem anos não é suficiente para um homem amadurecer completamente, e tanto melhor, porque a fruta madura é a primeira a apodrecer.

Venho, por fim, comentar o que pretendia, antes que os outros comentários sejam demais e tomem o espaço do principal. Faço-lhe este importante apontamento na forma de uma pergunta:

Como pode você, amigo de respeito, das elevadas alturas intelectuais em que se santificou íntegro e soberano, como pode dizer, ao som de uma boa música, ao lado de boas mulheres e de uma enorme e fabulosa fotografia enquadrada, que homem não dança?

Vou falar-lhe sem rodeios, amigo respeitável, para que você guarde esse conselho como um presente de Natal, menos pretensioso do que os seus concorrentes, é certo, mas mais verdadeiro que a embalagem rasgada dos agrados familiares. O conteúdo dessa prenda que lhe dou é a sua própria embalagem, sem ornamentos ou outros disfarces para o interior do objeto. Aqui vão forma e conteúdo, unos: o homem que não dança vende por orgulho sua capacidade de mudar as coisas.

Certa vez, uma sábia socióloga baiana se referiu a uma colega de academia, que, durante o governo militar, dizia: “Não participo dessa revolução se não puder dançar”. Ela não é um homem, portanto – você permitirá –, poderia dançar à vontade. Porém, é prudente notar uma verdade. Se dançássemos mais, homens e mulheres, obrigaríamos o mundo a nos oferecer mais música, e menos paralisia.

Minha família acaba de chegar para a ceia de Natal. Aproveite  o jantar e mande lembranças aos pais!

Seu amigo,

C.

Link permanente Deixe um comentário

COMO UM GATO

julho 16, 2010 at 6:38 (Fotografia, Literatura)

Sonhei com um lugar enorme e antigo, cheio de escadarias entrecortando paredes feitas de pedra. Em todos os lados do primeiro andar, abriam-se janelas e portas, que deixavam entrar uma claridade matinal, alva e suave. No centro do saguão, repousava um imóvel. Era uma estante de livros esculpida em madeira escura, com prateleiras apoiadas em colunas grossas, da mesma matéria-prima mistamente colorida, de ébano e marfim. Formavam uma estrutura imperiosa, sólida e soberana. Não me lembro se se enfileiravam livros no imóvel. O centro do salão era inteiramente ocupado por esse cubo maciço. Todo o lugar provocava a sensação de se estar em uma universidade centenária, repleta de realidades indizíveis, certamente superiores.

A visita parecia o retorno a um local que já havia sido adentrado antes, por mim, em memórias inexistentes. Meu desejo era o de subir os lances de escada. Eu procurava algo no interior do monumento, felinamente. Queria explorar, percorrer astuto os aposentos e jardins, encontrar a essência da edificação mágica, que ainda recendia o frescor da aurora.

Empertigava-me o pensamento de que aquele poderia ser um momento eterno. Alguém havia me pedido para buscar algo ali. E lá havia ido eu, obstinado, como se conhecesse o local, ao mesmo tempo ávido de curiosidade para desvelá-lo, como um explorador.

Sorrateiro e ágil, movia-me feito um gato. A nostalgia tomava-me conta: era um lar.  Percorria-o cheio de  disposição e destreza,  entendendo que pesquisava na casa o conhecimento absoluto, o repouso do ser. Um sonho, em uma biblioteca flutuante invadida pela luz do sol. Explorei-a a quatro patas, mas minha memória já não alcança seus detalhes. Acordei, e da cena só lembra-me-ia à noite seguinte. O sonho acabava.

¤ Foto de Olívia Fuchs

Link permanente 1 Comentário

DEPOIMENTO DE UM JOVEM PAULISTANO

abril 27, 2010 at 4:12 (Análise & Crítica, Literatura)

Do que  seria se uma iluminação celeste tirasse toda a sinceridade de um jovem médio-classista paulistano e transcrevesse em uma carta, que ao fim virasse protesto, com toda a fúria dos apartamentos:

Pensamos o futuro com o planejamento de um arquiteto e a cautelosa sede de um investidor. Ganhos devem ser reinvestidos e a carreira tem de ser progressiva, ascendente. Blocos de tempo dividem nossa vida da seguinte maneira: uma década de formação básica e média, meia década de ensino superior e finalmente uma catártica entrada no mercado profissional, que provavelmente nos leve ao lugar ao sol, onde o conforto nos deixará repousar, capitalistas.

É-nos ensinado a comprar carros, televisão e todas aquelas espécies de aconchego de que tanto tratam como se fossem necessidades. Nos fins de semana, carregar sacolas em iluminados corredores de vitrines, que mais parecem uma clausura a quem atenta, e freqüentar lugares exclusivistas, nos quais nos mostramos elegantes e impecáveis.

Não espanta que assim vamos nós, assistindo e aprendendo o que se passa na grande Rede Globo deste País. Às vezes dizem que somos alienados, o que é uma grande bobagem. Eles ainda vão nos ver chocalhando um diploma no rosto deles, como um distintivo. Afinal, não estudamos em colégio público. Pagamos bem para aprender nos melhores lugares, e com tradição. Os alunos das escolas municipais e estaduais, sim, é que estão ferrados. Esses vão ter que batalhar muito para adentrar em uma digna universidade, enquanto nós iremos aproveitá-las para bebedeiras hercúleas e sacanagem.

Falando em faculdades, é válido dizer, a fim de expôr um conhecimento maior sobre nós, que repudiamos o sistema de cotas imposto pelo governo brasileiro. Cotas são injustas, em primeiro lugar porque legitimam o preconceito, como todos sabem entre nós. Depois, ainda tiram o nosso mérito de pessoas que muito se aplicaram nos cursinhos. Estudamos tanto, e nossos pais tiveram que pagar tão caro pelos nossos estudos. Por quais motivos obscuros quem estuda “de graça” não tem que ralar para entrar na universidade? Ora, não somos todos iguais? Direitos iguais! O governo deve esconder algo aí.

Vamos propôr uma greve contra o sistema de cotas, ele é artificioso e se deve a motivos indecifráveis. Pensando bem, devemos estabelecer outras lutas além dessa. Porque só o MST pode protestar? Nós também temos o direito de botar esse Brasil abaixo. Destruíram terras da Cutrales, esses sacanas, não? Justamente essas terras, que devem ser do avô do nosso companheiro Zeca Cutrales. Pobre Zequinha, tão bicho-do-mato, tão Chico Bento! Esse era o apelido dele, Chico Bento! De Zeca a Chico, nós sempre pensamos que ele transava com cabras. Mas por já termos feito uma visita à fazenda que é do pai dele, no Mato Grosso, vimos mesmo que o cara era radical: ele caçava veados! Havia dezenas de chifres em uma saleta ao lado do banheiro de mármore daquela casa de engenho.

Mas talvez protestar pelo campo não valha a pena. Até mesmo porque o Zeca encheu a cara de ecstasy e matou um amigo nosso em um espetacular acidente de carro, com direito a capotagem e efeitos especiais. Só faltou dublê. Zeca Cutrales hoje vive sem nariz, motivo pelo qual o chamamos de Nasaless. Foi uma brincadeirinha de mau gosto, confessamos, ácida como laranja imatura.

Casos particulares à parte, era de protesto que falávamos. Devemos brigar pela cidade! Alguns favelados estão dominando o pedaço lá no Itaim, está perigoso para as meninas irem ao cinema. Essa gente levanta muita suspeição, usando chinelos no asfalto! Tentamos ligar para a polícia algumas vezes, mas só dava ocupado. Talvez devêssemos todos enfrentá-los. Podemos usar os carros como armas, do jeito que fazemos nas ultrapassagens entre faixas de trânsito. Conheço dois ou três colegas que possuem verdadeiros tanques de guerra. Tancson e Hiluxo para cima da pobreza! Vamos acabar com ela! Pois não é esse o objetivo último de todos os governantes?

Na dúvida do que mais reclamar, façamos como os nossos pais. Acusemos, nós, a Venezuela e o seu medíocre presidente, o tal do Chávez – Chaves, para mim, sempre foi motivo de riso –, de não cooperarem com a ordem mundial. Mascaremos, nós, as grandes corporações e seus fabulosos empresários, que estão sempre tão sorridentes nos jornais. Esqueçamo-nos da África por completo e da ausência do Estado nas favelas, pois são pequenezas que devem ser varridas para baixo do tapete, como as empregadas domésticas o fazem – essas molengas mal agradecidas!

Após tanta luta, chega o fim do ano, quando fazemos encher os apartamentos de presentes e as mesas, de animais. São dias de festa, afinal, e o País merece comemorar em paz, seja aqui ou em Miami, como manda a tradição. Enquanto a Rede Globo filma celebridades vestidas de branco e o povão assiste e comemora, nós imitamos os artistas “globais”, porque podemos. Ou é a televisão que nos imita? Tanto melhor se for assim.

Abestalhados, vemos as festas nas lentes da Grande Mídia brasileira. Carnaval é o ápice: toda aquela bunda morena rebolando. Toda aquela careza dos sambódromos. Às vezes, ouvimos dizer que essa é uma festa popular. Popular? Os populares que peçam os seus empréstimos! Aquilo é festa de grã-fino, cheia de desfiles “top”, para a elite apreciar. Só entra pobre se for para desfilar sob o nosso olhar inclinado, mirado do alto de nossos camarotes. Se a Mangueira é uma favela não sabemos, mas que é uma bela árvore podemos provar com fotos. E beija-flor é um pássaro bonito, enquanto as favelas são horrendas. É importante que haja esse discernimento, para não pensarem que os nomes das escolas de samba sejam dados vulgarmente.

Está aí outro protesto: vamos comprovar que tais escolas nada tem a haver com as favelas do Rio ou de São Paulo. Carnaval é festa de luxo, que permite a entrada somente de pessoas boas como nós. Essa data está reservada para a lista de eventos indispensáveis de nossa galera: shows, peças da Brodway e, agora é claro, copa do mundo. Finalmente poder-se-á freqüentar os jogos sem enfrentar uma horda de selvagens pobretões. Os esportes também deveriam ficar reservados a quem melhor sabe assisti-los, os possuidores da tela de LCD. Isso, embora as Casas Baianas estejam fazendo um trabalho horrendo quanto à massificação das tecnologias.

Mais dois problema a serem enfrentados por nossa condição social, as Casas Baianas e o povo que lhe dá nome. São Paulo virou uma verdadeira procissão dessa gente. Maldita Revolução de 32 que falhou, deixando que essa cidade sustentasse o País inteiro. Não fosse esse pequeno problema sobre nossas costas, e a capital paulista seria o autêntico Primeiro Mundo: um mar de condomínios neoclássicos, shopping centers para as mulheres, bons hotéis e bordéis e uma frota de carros luxuosos.

Meu bom Deus, luxo não vem de luxúria? Disseram-nos tanto que esse era um pecado capital. Talvez também devêssemos ler Calvino.

Link permanente Deixe um comentário

CARTAS DE DESPEDIDA

março 28, 2010 at 19:12 (Filosofia, Literatura)

O que diria um homem estando obrigado a escrever sob a iminência da morte? A causa dessa fatalidade não importa, posto que haja sumariamente a obrigatoriedade desse homem deixar à humanidade suas últimas palavras.

Ele por-se-ia a redigir uma carta para e sobre os seus companheiros; breves características de si mesmo; ou um retrato filosófico de seu contexto social? A escolha que fizesse iria determiná-lo.

Um indivíduo que fala de seus parentes e amigos, às vésperas do falecimento, prova-se de um coleguismo afetivo exemplar, ao deixar tomar-lhe a compaixão em vez de quaisquer pensamentos amesquinhados. Dir-se-ia que é sujeito fiel às suas companhias, capaz de ignorar-se a si sob um pretexto de amizade. Esse provaria uma atitude digna de grandes pactuantes sociais. Escreveria a despedida em tom político.

Caso fosse egoísta, ditaria em seu último recado um resumo da sua vida. “Fui contente, mas falhei no amor ao próximo”, poria, em uma síndrome de honestidade só possível em momentos anteriores à partida sem retorno. Tipo comum, o ameaçado não se preocuparia sequer em deixar frases à mulher que o deixara poucos anos antes. No máximo, prestaria tributos à mãe, fazendo-a triste e aliviada por ir embora de cá.

Ambos, o humanista e o individualista, não apresentariam surpresas em seu testamento informal, pois se ateriam a remeter-se com a vida de pessoas próximas ou com a sua própria, sem maiores digressões. Demasiadamente previsíveis, seriam.

De fato, o terceiro tipo de homem que beira a morte e põe-se a escrever é quem permitiria à humanidade que ela visse o seu verdadeiro valor. Austero, criticaria primeiro as mazelas de seu tempo, não deixando de citar a sua própria culpa no contexto social em que viveu inserido. Escreveria com letras grandes, em frente e verso, as críticas que tanto gritou e que foram nada senão ignoradas.

Tipo solitário, esse homem. Não se preocuparia por nem um segundo em referir-se a si, a não ser na assinatura final. Daria satisfações aos próximos, sim, dizendo que a eles viveu e que somente por eles sorriu. Seu memorando não registraria arrependimentos, desgosto ou infelicidade, pelo contrário se mostraria alegre em ser a lembrança última de uma existência.

Ele tiraria conclusões rápidas sobre do que pode tratar-se a vida. Rabiscaria, entre linhas: “é breve”; “é incompreensível”; “é nada além que uma volta em um carrousel desconfortável”. De mão cansada, no parágrafo final, redigiria com finalidade e letras tortas que “somente viveu quem viu na disparidade imensurável entre os seres a semelhança inconfundível dos olhares, complacentes e cheios de dor”.

Link permanente 2 Comentários

O ENTRAVE

fevereiro 16, 2010 at 16:32 (Literatura)

Preocupado pelo vício, ânsia que não satisfazia há horas a fim de preservar moral perante seus tios que vinham lhe tratando feito um desajustado nos momentos de sala, o rapaz estaciona na parte reservada a clientes de uma loja de conveniências, em um posto de combustíveis renomado da região. O caminho que percorrera até ali, uma avenida longa e espaçosa, pertubara-o com tráfego intenso de veículos quase todos iguaizinhos ao seu, com exceção dos abomináveis ônibus superlotados que reservavam um corredor apenas para si.

O rapaz retira a chave do contato, aproveita para recolher e desfazer-se do saquinho de lixo que repousa sobre o câmbio, desembarca e tranca a porta. Ao entrar no comércio gelado, suspira em uma clara tentativa de amenizar seu vício (que arfava nos pulmões, nesta sexta hora de descaso forçado). Um vendendor, sempre incomodado pela secura nas suas fossas nasais, consequência inevitável do ar condicionado que enche o lugar de frio, atende o rapaz sorrindo como é de costume.

– Posso ajudar?, cumprimentou, sem saber que era esta a exata milésima vez em que fazia a memíssima pergunta a um cliente que entrava no comércio, seu local de trabalho nos últimos três anos de vida assexuada.

– Quero um maço de cigarros, por favor, pediu o rapaz meio educado, meio impaciente. A duradoura abstinência do produto provocava-lhe as entranhas. Ele aprendera com dor na infância a desconfiar das simpatias de um vendedor, portanto evitava o olhar do outro, também jovem de idade – em uma cidade conhecida por seus aposentados de 25 anos, gente rica e vagal.

A loja de conveniências comercializava quase de tudo que era supérfluo. Lembrancinhas da metrópole, estatuetas de marfim roubado de elefantes africanos, balas e chicletes das mais variadas formas e cores para atrair crianças, livretos religiosos, uma rara e caríssima garrafa de rum, entre outras bebidas, quinquilharias diversas e fumo. “Aqui se compra”, propunha o lema do local, estancado em cartaz ao lado do balcão de pagamento; era um estabelecimento de respeito e cidadania notórios aos padrões do centro urbano a que pertencia, e bastava ter dinheiro para possuir o que ali era inutilmente oferecido. O rapaz que buscava cigarros tinha notas nas mãos, prontas a serem trocadas por alívio tragável, mas o lojista resolve levantar suspeita sobre ele.

– É maior de idade?, indagou.

– Tenho vinte anos, responde-lhe o rapaz. E foi ter as mãos nos bolsos, quando notou ao apalpar as fendas de sua calça jeans surrada que havia se esquecido da carteira no carro. O automóvel, lá fora, reluzia fervente sob o impiedoso sol do verão.

Desconfiado, o balconista fantasiava em silêncio que começava ali um embate entre egos. Desde muito novo a feiúra de suas espinhas, fiéis e inseparáveis companheiras, o haviam ensinado a odiar garotos robustos de idade aproximada da sua. Tendo em vista que em uma briga sempre há vencedores e perdedores, e ele já havia perdido demais mulheres para colegas que fumavam na esquina do colégio, o lojista decide agir sem compaixão com o rapaz que naquele momento pedia algo que somente ele poderia lhe dar.

– Pode me mostrar seu documento?, impôs ao fumante.

Sob óculos escuros e marrons de aros grossos, os olhos do jovem cliente enfurecem-se em loucura abstênica.

– Está aqui meu documento, afirmou rispidamente o rapaz, e mostrando a chave do carro, que no estacionamento concentrava a temperatura de café bem servido, ainda mais abafado por causa das janelas fechadas.

– Uma chave?, tensionou o atendente.

– Sim, claro!, irritou-se o atendido, “e eu, um motorista. Gente que dirige depois de ter completado dezoito anos”.

A partir da reação movida a orgulho do cliente, a questão deixara de ser o singular gesto da compra de cigarros por um fumante, e seu posterior alívio, para se tornar uma verdadeira batalha entre diferentes ideias e paradigmas. De um lado, um comerciante honesto e dedicado em seu ofício de vender, exercendo uma suposta cidadania ao impedir um garoto suspeito de não ter atingido a maioridade exigida para fumar de cometer o delito. A opôr, um jovem empenhado em seu desejo de comprar fumo para que aliviasse enfim a tormenta psicológica em que se metera, fruta de um hábito cultivado nos seus últimos cinco anos de vida. O rapaz poderia simplesmente buscar a carteira de identidade no carro, que ardia crescentemente no estacionamento, para comprovar o que tentava com a chave. No entanto, era inadimissível para ele que a barba sua, esperada por tanto tempo e tratada com esmero, e a chave do veículo não provassem com efeito o que muitas vezes omitiu durante a compra de bebidas e cigarros.

Os olhos do motorista moviam-se rapidamente, sua fala soava seca e ácida como a castanha de um caju no instante da colheita, quando ele reafirmou, sob o olhar evitado do balconista:

– Sou maior de idade. Agora, por favor, pode me vender o cigarro? Preciso fumar, que faz bem à paciência.

– Por que não mostra o documento?, insistiu o vendedor.

– Porque está no carro. Veja bem, como motorista eu não posso ser menor de idade, argumentou o rapaz tentando manter a calma.

– Então, devo pedir que o busque, ignorou o lojista, acostumado de ser enganado pelas pessoas. Seu colega de trabalho, um baixo e gordo que observava a tudo aflito, passara a se sentir fortemente incomodado pela situação. Ele nunca imaginou que aquele funcionário que o acompanhava nas escalas noturnas em fins de semana pudesse ser tão intransigente, e interveio:

– Venda logo, meu caro, é apenas tabaco. Seu tom era político: “o cliente poderia comprar em qualquer posto. Além do mais, ele carrega a chave do carro, é ‘de maior'”.

Mas o implicante continuou com sua insistência sem cura:

– Pegue, por gentileza, o documento no carro, e lhe venderei o cigarro.

A essa altura, a dependência de nicotina e a educação do interrogado haviam chegado ao limite, e ele então fez a maior ameaça que podia no contexto de um duelo comercial.

– Se não quiser me vender, tudo bem, eu paro no próximo posto.

Com medo de que o conflito fosse acordado assim, com tamanha simplicidade, eis que o vendedor alfineta seu adversário:

– Seria contra a lei vender tal produto a adolescentes, disse.

O sangue pedinte de nicotina do rapaz ferve em suas têmporas; falta-lhe autocontrole.

– Adolescente?!, explodiu, “eu não sou um adolescente. Quer saber, enfie onde quiser seu cigarro. Vou embora!”. E já se virava para partir quando, assustado com a reação violenta do rapaz e imaginando o habitual e repressivo olhar do gerente da loja, um meia-idade austero que posicionava bíblias de bolso em uma prateleira rotativa, o lojista retoma o tom profissional.

– Peço desculpas, senhor, falou.

Seu colega de trabalho, suado em função da gordura acumulada no corpo, apesar do frio condicionado do ambiente, ainda levaria anos para compreender a importância ética que envolve o comércio do tabaco. Mais experiente e melhor vendedor, talvez em função do pai dono de padaria bem sucedida, o funcionário implicante prosseguiu:

– É necessário que você mostre a identidade, ou infelizmente não poderei lhe dar o que quer.

Do alto de seu balcão, o vendedor dirigia-se ao cliente com a solenidade típica de um patriota. O cliente, apesar da vontade de fumar que era grande, desistiu afinal de enfrentar a resistência de seu oponente. Entregou-se:

– Pois bem, vou buscar o documento no carro.

Com essas palavras, admitiu a derrota. Desinflou o busto, colocou os óculos de sol que havia tirado durante os últimos momentos de confronto, usou uma mão no bolso e outra para abrir a porta de vidro, e saiu de ombros caídos em direção ao automóvel. Ao atravessar a saída, sentiu desalento e um chocante calor que constrastava com o frio da loja. Entrou no carro, e deu partida. O lojista, contente de ter vencido o rapaz, jamais tornaria a vê-lo.

À noite, a televisão noticiava a morte de uma garoto que se envolvera em um violento acidente de automóvel. O veículo colidira com um ônibus durante uma ultrapassagem perigosa, em impotante avenida da cidade. O motorista, menor de idade, completaria dezoito anos dali dois meses, e deixava em desespero uma mãe superprotetora e um pai encrencado – como haveria de explicar que permitia seu filho dirigir? O que não sabiam os repórteres nem a família do falecido é que o rapaz conduzia o carro ansioso e sem o mínimo de prudêcia, quando decidiu cortar ousadamente o tráfego na frente de um ônibus a fim de parar no posto de combustíveis que avistara no outro lado da via, para comprar cigarros e suprir a carência de nicotina em seu sangue, misto de necessidade e desejo que sempre o deixava aflito.

Link permanente Deixe um comentário

A CRIANÇA

dezembro 24, 2009 at 20:49 (Literatura)

Murmurando palavras que não consigo distinguir, ela me olha. Delicada, ingênua e brincalhona. A menina tem dentes-de-leite brancos como o açúcar; faltam-lhe dois ou três, sob o lábio que ri alegre na luz forte do sol. É divertidíssima quando emana a voz para citar palavras de natureza singela. Sua pele é mais clara que o ébano e mais escura do que o marfim; o cabelo é crespo, tem cores de castanha e permite que a orelhinha fique exposta a qualquer puxão que sua mãe possa lhe dar.

Age com muita pureza a pequena criatura que me ganha amor. Notável é que ela me olha como se eu fosse um irmão. Sorrio também enquanto ela pula, ri, grita e me abraça, agradando-me a alma. Tento arrancar risadas, para manter em orquestração a música que sai de sua voz miúda. A fala, muitas vezes inaudível, é uma autêntica expressão melódica, das mais encantadoras dentre os sons possíveis em liberdade artística, sem instrumentos ou ferramentas musicais. Fico a ouvir e observar, enquanto ela faz incompreensíveis arranjos harmônicos com sua fala risonha.

Uma criança. Não há nada mais doce do que uma criança. Nenhuma realidade reluz tanta graça quanto faz a infância.            

(Lembranças de uma construção de Um Teto Para Meu País, em meados de 2008)                                    

Link permanente Deixe um comentário

A VIZINHANÇA DISTANTE

setembro 5, 2009 at 1:11 (Literatura)

Há medo e desconfiança naquela calma rua daquele torto bairro.

Preocupações neurológicas, quase neurastênicas, e intranqüilidades desenvolvidas a base de notícias trágicas de terror, dadas repetitivamente e sem cessar, em formatos televisivos, radiofônicos e impressos, regem os modos de viver daquele logradouro.

Ainda que fruto das desigualdades sociais, a paranóia dos avizinhados não se atém apenas à eterna luta de classes, que se espatifa em crimes vis veiculados através de meios jornalísticos venenosos. As grossas paredes das residências enfileiracercasdas também protegem seus habitantes de quaisquer contatos, espirituais ou físicos, entre eles mesmos, e de todos os inconvenientes silenciosos que isso viria a ocasionar.

Proprietários habitam dócil e quietamente as casas do corredor público que se estende por toda uma distância, entrecortada por medos discretos e contenções que evitam as dúvidas inerentes à condição humana. Pois há medo de conhecer ao próximo e medo de não ter medo naquela vizinhança. E também há medo de fazer barulho e medo de escutar.

Um terrível sentimento de auto preservação predomina ali, com certo inefável calor humano alojado que, se libertado, traria união aos locados próximos. Então, seria  a vida mais digna no lajeado. Caso o frio da TV, agasalhado pelas moles almofadas dos sofás, não fosse mais confortável que o calor das portas e portões das casas. Se os recortes de entrada e saída das residências servissem para a comunicação real que, ao contrário da massiva, irreal,  alentaria nas conversas parceiras os habitantes daquela via de solidões. Assim agissem os contidos dos cubículos, e a vida seria mais generosa, desprendida e solidária.    

Porém, tudo segue em paz nos quadrantes disformes daquele paralelismo, onde coexistem indivíduos medrosos. As calçadas desniveladas e o asfalto esburacado dividem, entre baratas e automóveis, a passagem. Transeuntes sem rosto passam desatentos, sem enxergar os lares que os rodeiam, dentro dos quais vivem trancados seres à sua imagem e semelhança.

Link permanente Deixe um comentário