BOLETIM DE OCORRÊNCIA

dezembro 8, 2011 at 1:03 (Crônica, Jornalismo)

Homem de boné tenta assaltar mulher que desce de táxi na frente do prédio onde mora. A vítima carrega duas bolsas, uma com um laptop e a outra com seus pertences, um aparelho celular de última geração e as chaves de casa. Ela espera, do lado de fora do carro, o motorista preencher sua nota promissória, quando das sombras surge o bandido, que a agarra e puxa uma das bolsas com força. O celular cai na guia da rua, e a vítima começa a gritar: “não, não, não!” Tomba e se protege. Assustado, o taxista dá a ré e atropela a mulher na altura do ombro, fugindo para trás. O homem armado usa a coronha do revólver para ferí-la na cabeça. Bate, bate e bate mais. Também dá joelhada. E ela berra: “Não, não, me larga!”, encolhida entre a calçada e o asfalto, de porte físico magro, baixo e delicado. Olhos azuis.

Na cozinha e no banheiro, na TV durante mais um episódio de Fina Estampa, a vizinhança ouve os gritos e permanece num torpor que dura dez segundos. Dez segundos de gritos desesperados. Finalmente, um homem que passa de carro para e grita: “Ladrão! Ladrão!”, e estaciona de qualquer jeito. O alarme soa pesado. O bandido olha para ele, mas não atira. Logo surge mais um homem, da casa vizinha ao prédio, e o criminoso sai correndo com a arma em punho, ainda sem atirar. Quando o primeiro homem desce do carro e vai socorrer a vítima, ela tenta acertá-lo com murro e chute. Ele pede calma, mas se afasta. O segundo homem se aproxima e pensa em recolhê-la, mas atém-se porque há machucados demais no corpo dela, a nível de não se conseguir identificar os pontos feridos. A cabeça certamente está aberta. Será que o desgraçado atirou? Ninguém ouviu nada, mas vai que… Tortamente, a mulher se levanta com a ajuda do segundo homem, que a consola do jeito que pode — “você está em casa… está em casa agora…” —, indicando o caminho para dentro de sua própria residência, ao passo em que um aglomerado de vizinhos desconhecidos se forma na frente dela.

Miriam está em choque. O sangue recobre suas costas, mancha a camiseta branca, borra a tatuagem embaixo da nuca. O cabelo, ensopado e viscoso, esconde o rosto que chora sem controle, os cortes profundos no cocuruto nublam a mente, que trabalha para assimilar o ocorrido: “ele me espancou… ele me espancou muito…”, repete, soluçando. Diz que o sujeito tentou pegar seu celular. “O celular…” Preocupa-se com isso, pede para que alguém o limpe e confira se está funcionando. Trazem dois sacos de gelo e colocam na cabeça e no pulso machucado da vítima. Ela pede água com açúcar, bastante açúcar, e enquanto alguém segura o celular para ela, procura na agenda o número de uma amiga que mora perto. Há pelo menos duas contusões preocupantes no lado esquerdo de sua cabeça. É importante saber se ela consegue raciocinar. Parece que sim, pois faz questão de reconhecer: “Estou em estado de choque”. E, com um esforço, olha para as pessoas que a ajudam e dá um sorriso de compaixão.

— Obrigada, obrigada por me acolher…, diz. Sua amiga atende ao telefone. “Oi… eu tava chegando em casa… um homem me bateu…”. A voz do outro lado da linha faz com que Miriam volte a chorar, e ela fala tremulamente que está na casa do lado da sua. Desaba mais uma vez, recompõem-se. Sua amiga já vem. Parece não sentir dor nenhuma, a despeito da mão inchada e do escorrimento incessante, que enfrenta o gelo. As oscilações de humor, entre o autocontrole e o desespero, vão diminuindo, e Miriam chega a rir da própria desgraça. Aponta para o ombro esquerdo e comenta: “Essa mancha é porque o táxi me atropelou… Ele fugiu, ficou assustado…”. Há uma larga faixa cinza sobre parte do seu busto. Ela ri nervosa e longamente ao final da frase. Depois contorce o rosto e chora mais, um choro seco e curto.

Retomada a parte mais imediata da consciência, Miriam conta aos poucos o que presenciou, na seguinte ordem:

Voltava do Aeroporto de Guarulhos, recém-chegada de uma viagem de negócios. Voltaria para a Europa em dois dias. No instante que precedeu o assalto, suspeitou de um carro escuro parado na esquina, com gente dentro, mas recusou a sugestão do taxista para que desembarcasse na garagem do prédio. “Essa região é perigosa, dona”, ele disse, mas não adiantou. Do automóvel suspeito, saltou um homem de boné, enquanto a passageira descia do táxi. Era, mais precisamente, um moleque de 16 a 20 anos, com possíveis antecedentes criminais. A cidadã tentou resistir ao assalto, impedindo que o criminoso levasse suas propriedades. Ele reagiu brutalmente, acertando repetidas vezes a cabeça dela, o que provocou marcas profundas. Quando caiu, gritando muito, ela machucou o pulso — entre outros ferimentos que não conseguia identificar, embora soubesse que estavam ali, no dorso ou nas pernas. Potencial homicida, o criminoso continuou a violentá-la mesmo no chão, num estado de ira. Foi embora somente quando avistou dois homens, não levou nada consigo.

No local do crime, vizinhos que nunca se viram no cotidiano falavam abertamente do desastre. O primeiro homem a socorrer a vítima desculpava-se porque tinha operado o joelho recentemente. Estava manco, portanto não pudera ajudar a moça com mais presteza. Uma senhora de cabelos brancos sugeria que os bandidos tinham seguido o táxi desde o aeroporto até a casa da passageira, no que seria um modus operandi comum; um guarda de moto, jovem e esguio, contratado pela vizinhança há poucos meses para cuidar da questão da segurança, tema recorrente na região, sorria amarelo e contava uma versão:

— Vi o moleque entrando num carro e segui o carro, mas essa moto é fraca —, ele explicou a alguns vizinhos, indicando as falhas de seu veículo, fornecido por uma empresa. Que carro era? “Um Vectra”. Anotou a placa? “Não deu”. “Ela tava vindo do aeroporto?”, questionou, sem saber que concordava com a tese da velha senhora. (Será o diabo que há uma modalidade de assalto assim em São Paulo? Perseguição calculista, do aeroporto internacional à casa da vítima, seguida de ataque violento, em busca de alguns euros não-trocados.)

Um dos vizinhos sugeriu uma medida radical: “Isso daqui”, exclamou, desenhando o quarteirão com os braços, “tem que ser um quadrado fechado! Com seguranças armados”, completou, apontando o que poderiam ser pontos estratégicos para uma vigília medieval. Os seguranças de moto, agentes terceiros de alguma firma de segurança, com veículos impotentes e desarmados, não bastavam para esse senhor. “Tem um quarteirão de polícia a quatro quadras daqui…”, lamentou outro vizinho, e deu um suspiro indignado o suficiente para representar toda a capital paulista. Os vereadores poderiam ser representantes de tipos específicos de sentimento social, de modo que haveria o candidato da indignação, o da vigilância extrema e o da raiva — e que este último existisse para ser solucionado na Assembleia, por um vereador da igualdade, ou executado em praça pública, pelo eleito da vingança social. O morador do joelho recém-operado culpou a presença de um shopping-metrô pela ameaça que hoje ronda sua casa. “Moro aqui desde os doze anos. Desde que instalaram esse shopping, a molecada começou a roubar”, determinou, referindo-se aos moleques que geralmente ficam do lado de fora das lojas.

Num momento de respiro, abatidos pela situação, os vizinhos todos se entreolharam. Esperavam a polícia chegar, e Miriam saiu da casa em que se recuperava para subir a seu apartamento, ao lado da amiga e muito sangrenta e encolhida. As pessoas olharam curiosas, perguntaram se estava tudo bem, disseram palavras de consolo, como “fica com Deus”. Ela insistiu que sim, estava bem, e foi ao sétimo andar, para limpar os ferimentos na cabeça e procurar outros machucados no espelho. A amiga seguiu junto, muito séria e inconformada. O pequeno aglomerado lamentou, lamentou sinceramente o estado da vítima, e alguns reclamaram da demora da polícia. A merda estava feita, era preciso registrá-la. Por sorte de Deus ou do Acaso estava tudo bem. “Essa aí nasceu de novo”, ouviu-se no meio do burburinho minguante, “ele tinha tudo pra atirar…”, cogitou-se. Com alívio.

A polícia finalmente veio em duas viaturas, no momento em que a vítima se arrumava em casa. Quatro policiais desembarcaram e fincaram posições diante da vizinhança, indiferentes à comoção pública e sem muitas palavras. Ouviram os relatos, apenas. Do interior de uma das viaturas, a rádio-patrulha falava de um carro suspeito visto numa adjacência próxima e que havia entrado na maior avenida das redondezas. O policial aumentou o volume de propósito. Dois vizinhos revezaram-se para contar suas versões —aquele que era da opinião do condomínio fechado e o outro que levantava suspeitas sobre os frequentadores do shopping-metrô. A maior parte das pessoas não fez questão de cumprimentar os homens da lei, exceto por um rapaz que chegou depois de todos dando as mãos aos fardados.

Vista da esquina, a presença da polícia era prática, quase técnica. A solução para as inseguranças do bairro — e essa era uma ideia que se formava, sem que ninguém prestasse atenção nisso — devia vir de cada um dos moradores. Cada um por si. Essa noção crescia na medida em que eles se dissipavam e retornavam sozinhos às televisões e aos afazeres domésticos, com a questão da segurança reavivada na cabeça. E agora, laminar os muros? Gradear as janelas? Fazer mais o quê, depois de já ter contratado os motoqueiros? Parecia que bastava, mas um deles foi incapaz de impedir a violência contra uma moradora e sequer anotou a placa do carro do fugitivo.

Com uma toalha amarrada em volta da cabeça e roupa nova, limpa do sangue, Miriam atravessou a portaria ao lado de sua amiga e elas entraram num carro, dirigido pelo marido da segunda mulher. Os três ainda ouviram as últimas considerações dos vizinhos preocupados. Uma dona de casa checou se a vítima carregava o cartão do plano de saúde. Ela disse que sim. O motorista fez um sinal positivo com a cabeça e ligou o automóvel, sem dizer nada. Estava obstinado para chegar ao hospital. Ninguém quis fazer um boletim de ocorrência, nem a polícia insistiu. O homem do joelho operado desculpou-se de novo, desta vez diretamente para a vítima. Disse que não tinha ajudado mais porque sua perna não estava boa.

¤ Foto por Olívia Fuchs

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ELIANE BRUM E SEU JORNALISMO

junho 1, 2011 at 2:07 (Crônica, Jornalismo)

As lições de uma repórter em ascensão literária

Gaúcha, lá de Ijuí, a moça morena e ansiosa que sobe ao palco tornara-se uma jornalista respeitável e muito respeitada, nas últimas duas décadas. Quem a vê em discurso não imagina que Eliane Brum já passou dos quarenta. A postura e o fôlego da escritora de não-ficção, convidada para falar do ofício num congresso, fazem-na parecer mais jovem.

Quando se entregou ao jornalismo, tinha 26. Trabalhava para o jornal Zero Hora, publicação conhecida no Brasil inteiro, mas circulante apenas no Rio Grande do Sul. Linguagem rica e diferenciada, principalmente nas capas — pelo que se diz em São Paulo —, a ousadia do jornal foi levada a cabo por Eliane B., que do diário partiu para a revista Época, onde escrevia histórias diversas, todas jornalísticas. Entretanto, histórias repletas de literatura, como se fossem de ficção, mas fieis à realidade: sem invenções, como se faz nas reportagens.

“Eu sou o que me chamarem”, diz ela, em resposta ao mediador do debate, que perguntou se Eliane B. se considera uma jornalista-escritora. O rótulo foi usado pelos organizadores do encontro para intitulá-lo. Os jornalistas(-escritores) Juca Kfouri e Moacir Japiassu completam a meia-lua no palco, sentados em poltronas giratórias. Certa Mega Brasil, que promoveu o evento, conseguiu atrair grandes nomes da profissão. Somente Ziraldo não viera, no primeiro dos dois dias de palestras. O auditório está meio cheio nesta manhã de quinta-feira, 26 de maio, e Eliane B. parece muito ansiosa. Ela finca o salto-alto no chão e faz movimentos repetitivos, com força. Sob o calcanhar dela, o chão deve ranger.

Entrementes na carreira, Eliane B. publicou três livros. O quarto deve sair no final de junho, se acontecer como ela diz. Chamar-se-á “Uma duas”, sobre a relação de uma mãe com sua filha — a autora não dá muitos detalhes. “A vida é caos. Minha busca é pelo entendimento de como as pessoas lidam com ela”, afirma. Quando entrevista alguém, a repórter não costuma fazer muitas perguntas. Tem prestado atenção nisso. Acha que fazer perguntas é “uma forma de controle”.

Eliane B. é do tipo de jornalista que atenta para o gestual das pessoas. Os gestos, para ela, valem tanto quanto as palavras. Em sessões de entrevista, a repórter usa dois gravadores e um bloco. “Eu sou uma ‘escutadeira’ do outro”, explica. E diz que sofre para escrever, mas não tanto quanto os outros dois convidados do evento afirmam sofrer.

Quem a ouve deduz que Eliane B., quando vai fazer uma entrevista, fica calada diante da pessoa, com muita atenção e silêncio. Deve falar somente quando é indispensável e economizar os próprios gestos. Certa vez, uma “fonte” achou que a vida da jornalista era ouvir suas histórias. Em boa parte, a vida de Eliane B. é escutar os outros, como ela mesma diz. Mas de modo severo, como se respondesse agora àquela “fonte”, a repórter pontua que tem família e vida pessoal.

Acostumada a fazer longas reportagens, em formato de revista ou livro, Eliane B. dedica semanas e meses às pessoas sobre quem escreve. Nesses períodos, “esvazia-se”, como diz, para ser preenchida pela realidade que observa. “Antes de ir para o papel, a reportagem se escreve dentro de mim”, afirma.

Filha de professores e pertencente à segunda geração alfabetizada da família, Eliane B. um dia quis escrever sobre as conseqüências de um movimento comunista, a Coluna Prestes. Fez um livro sobre o “povo do caminho”, gente que se interpôs à jornada de Luís Carlos Prestes, na década de ’20. Mais especificamente, trata-se de um livro-reportagem baseado em histórias de cidadãos que viram suas províncias serem invadidas pelo grupo nômade e ideológico de Prestes. Estupro e violência marcaram a caminhada daqueles soldados, como atesta Eliane B., que reportou os acontecimentos quando ainda trabalhava para o jornal Zero Hora. O editor chefe do diário, naquele tempo, era Augusto Nunes.

Parcialmente cheio, o auditório do Centro de Convenções Rebouças —onde estamos — dá risadas, quando Eliane B. conta: “Ele me pediu para escrever sobre a Família Real. Eu disse: Desculpe, Augusto, mas meu sonho é escrever sobre a Coluna Prestes”. O editor, presente na platéia, a encorajou. Daí resultou “Coluna Prestes – O avesso da lenda”, publicado em 1994.

Antes das 11h30, Eliane B. continua a pressionar e girar o salto-alto contra o chão. Por um momento, ela para. Deixa os pés suspensos enquanto relata seu primeiro sucesso na vida de repórter. Juca Kfouri, Moacir Japiassu e o resto dos presentes (estudantes, a maior parte) escutam-na com atenção.

Ainda na universidade, Eliane B. escrevera uma matéria sobre filas (assim, “filas”), que fora levada a um concurso. Na bancada de avaliação, havia jornalistas e publicitários. Os jornalistas julgavam que o texto era literário, enquanto os publicitários diziam que se tratava de uma reportagem. “Como tinham mais publicitários que jornalistas, eu venci”, concluiu a moça. Mais uma vez, igual acontece em jornais e revistas, a publicidade sustentou o jornalismo.

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DIÁRIO NOTURNO

março 11, 2011 at 1:05 (Crônica)

I

5h30 da manhã, a cidade dorme às vésperas do despertar. Não há razão para se dormir, com tantas ideias desorganizadas que percorrem em jorro a minha cabeça. Sou todo escrita. Se me desprendesse agora desse lápis e do caderno, provavelmente cairia em danação. Sou todo desleixo, e se dissesse que irei me disciplinar, estaria mentindo.

A internet é dispersiva, atrapalha desde o pensamento mais simples até as conclusões avassaladoras. Devo evitá-la. Evito o mundo virtual, esfera envolvente, mas posso – e me parece bastante razoável – ligar o som, que também é oferecido pelo computador (que vive ligado). Escolho Tom Jobim e desligo a tela. Nesse meio tempo de escolha, perco a tranqüilidade proporcionada pelas linhas em constante preenchimento. Tom Jobim não compensa: calo-o com um clique. Tenho 3.525 músicas, tem coisa aí que nunca escutei. Chego ao fim da lista ainda sem saber o que ouvir. Boto The Doors, minha cabeça zonzeia. O efeito passa vagarosamente, o sono evolui com dificuldade e recuadas apavorantes. Valeria a pena tentar dormir agora? Antes, o último cigarro.

E fim.

II

Ainda não.

Quase desequilibro na escada ao descer para buscar fogo. Mesmo sem álcool o meu corpo vacila para os lados. Da janela do quarto, vê-se uma Kombi misteriosa adentrar lentamente a garagem da casa vizinha, em frente. Toda noite, o vizinho desconhecido entra no casebre velho e abandonado – parece que para descarregar algo -, deixa o veículo branco e vai embora. Ele cuida para que não faça barulhos, mas às vezes é desastrado. Parte desta vez em um carro que estava estacionado na rua, logo ao lado da casa. O silêncio retoma o ar, os cachorros estão calmos hoje. Espero o cigarro queimar na ponta de uma piteira preta. Vai amanhecer em breve e o domingo virá. Trago derradeiramente, deixando o quarto enevoado. O tabagista precisa se deitar.

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SONHEI QUE TINHA SEDE

março 2, 2011 at 14:43 (Crônica)

Um intenso e impressionante desejo de beber água me assaltava. Felizmente, rios do líquido saíam de uma misteriosa cavidade escura. Era muito grande a minha sorte por existir aquela fonte inesgotável da bebida, pois eu sentia uma insaciável e voraz sede.

Mas, quando comecei a beber freneticamente a água que jorrava do buraco, percebi que aquela sede era diferente de uma aflição comum. Não era ela uma sede qualquer. Acontecia que, ao contrário de uma situação normal que pede alívio, aquela vontade de beber não terminava, o que causava uma agonia feroz. Por isso bebi e continuei bebendo o que saía da fonte dadivosa que rompia do muro.

Encontrava-me em apuros. Sequioso, absurdamente sequioso, me empanturrava do líquido e continuava agonizando, agora também afogado pelo excesso de água que engolia. Sentia sede e respirava com dificuldade, o sonho desaguara num pesadelo cruel. Inicialmente, a sede parecia ser uma coisa ótima, pois eu a mataria e então acordaria em paz. Porém, era uma armadilha, que me fez afogar graças a tanta água que bebi por vontade própria.

Pensei que a sede passaria quando eu enfim despertasse – outro engano. Tudo não poderia passar de um sonho ruim, complexas e bizarras representações  do meu mundo inconsciente. Embora continuasse sedento e afogado, mantive a calma e tentei respirar um pouco, sozinho no escuro daquele cenário indefinível, semelhante a uma pequena caverna sufocante.

Quando finalmente acordei, abri os olhos com dificuldade e tentei enxergar o que acontecia à minha volta; mas algo permanecia fora do normal. A sede insistia. Já desperto, eu continuava aflito, com aquela irresistível necessidade de me encharcar de água. Morria aos poucos de sede, lentamente, vítima de uma constante tortura provocada por um impiedoso instinto básico.

(05/08/08)

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O MINGUAR DA AUDIÊNCIA

janeiro 15, 2011 at 3:14 (Crônica, Jornalismo)

O auditório da Faculdade de Tecnologia (Fatec), na Avenida Tiradentes, estava repleto de comerciantes descontentes, no fim de tarde desta sexta-feira chuvosa. Eles se manifestavam contra o projeto Nova Luz, idealizado pela Prefeitura de São Paulo e cuja implantação ameaça seus negócios. Vindos da Santa Ifigênia, uma área comercial que gira ao redor da rua homônima, os manifestantes tinham acabado de sair de uma passeata contra a execução do projeto. Alguns deles levavam consigo apitos e narizes de palhaço.

As quatro empresas do consórcio Nova Luz e a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Urbano esperavam que pouca gente fosse aparecer. Portanto, reservaram um auditório com espaço para 300 pessoas. Infelizmente para eles, a passeata dos comerciantes, marcada para o mesmo dia, tivera êxito a algumas quadras dali. Após horas de comoção pública, o protesto seguira em direção à Fatec e boa parte da manifestação não pôde entrar.

De portões fechados, às 19h, entraram no evento somente aqueles que chegaram até o horário combinado. Talvez 50 ou cem pessoas tenham ficado para fora, criando uma atmosfera de indignação. Afinal, a audiência devia ser pública.

Eis o motivo da importância e paixão do evento: O discurso oficial diz que o projeto Nova Luz irá revitalizar 45 quarteirões da zona central de São Paulo, inclusive em boa parte da Santa Ifigênia, cujos comerciantes torcem o nariz para o discurso oficial. Para eles, a razão do projeto é atender a interesses de empreiteiras – o que justifica o cartaz que estava pendurado no portão de entrada da Fatec, no qual se lia: “Não à especulação imobiliária”.

Logo no início do encontro, entre os supostos especuladores e o batalhão de vendedores agitados pelo medo de perderem suas lojas, o clima era de animosidade, por parte do segundo time. Como é futebol a vida brasileira, principalmente numa sexta-feira de Nosso Senhor, os comerciantes ressoavam rimas, em coletivo, por toda a sala, um auditório já abarrotado e quente da Fatec.

“A Santa unida jamais será vencida”, trovoavam eles, classicamente. “A Santa é nossa”, resumiam. Por fim, sendo que todo filho tem um pai, os comerciantes voltaram-se contra o atual patriarca da capital paulista: “Não é mole, não! O Kassab quer roubar o nosso pão!”. Apesar das manifestações endereçadas, os gritantes não gostaram quando um deles perdeu a educação. Num intervalo da berraria, uma voz de homem aproveitou o breve silêncio, depois de o coro calar, para dar a sua opinião íntima sobre o prefeito: “Êi, Kas-sa-bi, vai tomar no cú!”, gritou. Mas ninguém gostou disso, e todos calaram mais ainda, porque havia certa cidadania no ar, uma consciência social em desenvolvimento.

As portas de acesso do auditório permaneciam completamente cheias, inviáveis como o resto do aposento. Um telão sobre o palco revelava a amplitude que a coisa havia tomado. Alguns comerciantes mais eufóricos passavam gritando pelas duas entradas da sala: “Tem gente lá fora ainda!”; “É uma audiência pública, gente!”; “Cadê a imprensa, cadê?!”. Uma fotógrafa foi retirada da sala por um senhor manifestante. Já grisalho, ele demonstrou a fúria de um militante da extrema-esquerda ao puxá-la e levá-la para os portões da faculdade, onde ela deveria fotografar a situação dos que ficaram do outro lado do portão. Mais do que registrar sorrisos, a portadora da máquina precisava aderir à causa.

Foi por essa altura, após 40 minutos de omissão dos organizadores da audiência pública, que se começou a falar em cancelamento. A ideia surgiu tímida, veio da boca de algum visionário reservado. Bastou que se espalhasse pela plateia para se tornar uma possibilidade. Em pouco tempo, era mote generalizado: “Cancela! Cancela!”, repetia a maioria dos presentes. Cada nova cantoria era reforçada por uma retaguarda de apitos e gritos indistinguíveis. E o novo canto determinava: Se ninguém entra, todos saem e o papo fica para outro dia. Assim esquentava o auditório da Fatec, em temperatura e emoções, com a diferença que o clamor popular tem subidas e descidas, enquanto o calor de transpirar só sobe.

A quase 40ºC e vítimas de uma insistente omissão dos realizadores da audiência pública, os convivas, apertados nas cadeiras e cantos do auditório, provavam-se inofensivos. Talvez essa aparência do coletivo tenha estimulado o secretário municipal do Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, a finalmente dar as caras no palco.

O nomeado para os assuntos urbanísticos da cidade sentou-se atrás de um balcão – no qual, esperávamos, sentar-se-iam também outros representantes do projeto Nova Luz – e pôs-se a falar ao microfone. Na mesma hora, ao meu lado, um manifestante tatuado rescendendo à cachaça comentou: “E a gente ainda tem que vê a cara do fio da puta que ta enganando nóis”.

Em seguida, o secretário pronunciou-se: “As audiências públicas são feitas quando os projetos estão quase finalizados […], mas para este projeto decidimos fazer uma no meio do processo”. À fala dele, o público reagiu com modos impacientes – um homem nas fileiras do meio deu pulos e gesticulou violentamente com o braço. Nervoso, talvez irritado, Bucalem explicou a todos que a Polícia Militar considerava inadequadas as condições de segurança do evento, levando os organizadores à decisão de cancelá-lo.

Ninguém ou quase ninguém dali trabalhou durante o período vespertino desta sexta-feira. Houvessem trabalhado, de qualquer maneira, teria sido nos arredores da Rua Santa Ifigênia, a cerca de apenas um quilômetro da Fatec. Em função disso, todos demonstraram satisfação pelo cancelamento da audiência pública, não se importando com o fato de que um dia terão de ir a outro lugar para dialogar com os representantes do projeto municipal.

As audiências públicas não foram feitas para sextas-feiras. Ao pôr do Sol, os vendedores da Santa Ifigênia desejavam apenas voltar para casa, onde poderiam assistir à televisão, comer, beber e (quem sabe?) fazer sexo. Mais importante do que isso, para eles, será acordar no sábado sabendo que na segunda-feira o comércio continua.

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ENVOLTA EM NEGRO

setembro 21, 2010 at 19:50 (Crônica)

Era o caos rotineiro do Metrô, no sobe-e-desce, puxa-empurra e vai-e-vem atribulados, típicos de um transporte público insuficiente, quando um demônio fêmeo deu as caras.   Ela descia as escadas, inteiramente vestida de preto. Dos cabelos aos pés, em cada unha, na íris e na maquiagem dos olhos, prevalecia a cor preta. Branco-pálida de pele, a garota envolvia-se em um negro tão absoluto quanto a escuridão emergente em seu olhar lançado contra mim. Minha respiração vacilou ao me deparar com aquela imagem. Eu, que ia pelo sentido contrário da moça, para subir as escadas rolantes, enquanto ela descia os degraus de granito nos lances paralelos, fui tomado por uma súbita sensação de ameaça. Olhou-me esquisito, com a cabeça inclinada para baixo, queixo quase no pescoço, como um búfalo encara seu oponente de cabeçadas. Algo de assustador emanava da garota, que parecia estar perdida na estação.

Quando alcançou o último degrau, após ter me amaldiçoado, ela guinou à esquerda e pôs-se a subir para de onde veio, estando apenas um degrau acima de mim nas escadas automatizadas. Pensei que fosse um teste de resistência: a malícia e a perfídia vinham soprar em meus ouvidos, tentando me convencer de que vale mais a pulsão mortífera da vida do que os impulsos pela defesa da mesma. Eros e Thanatos confrontavam-se.

Anjos negros circulam pela cidade no intuito de apavorar, atazanar, perturbar, encantar e até mesmo fazer com que se apaixonem os cidadãos desavisados. Quando a escada rolante nos deixou em piso firme, no primeiro andar da Estação Anhangabaú, a menina obscura pôs-se direto a abordar uma mulher que passava. Complacente e atenciosa, a transeunte não hesitou em atender às dúvidas da garota em preto, jovem e enganosa. No percurso do corredor que leva a outro lance de escadas, as duas moças conversaram.

Uma pessoa que pede informações sobre um lugar ou endereço geralmente é breve em seu questionamento, e rapidamente tem sua dúvida sanada e prontamente segue seu caminho. Mas neste caso, a moça perdida insistia com as perguntas. Como confirmasse meus pensamentos, ela tentava extrair da mulher comum, trajada com roupas cotidianas, o detalhamento mais específico possível sobre uma localidade. Conversa anormal. Pacientemente, a interrogada tentava explicar à endiabrada o percurso que ela deveria tomar. Quem passava por perto, achava a dupla estranha – a transeunte, que nada tinha a ver com os metaizinhos perfurantes nas narinas e lábios da “gótica”, também chamava a atenção, de gaiato, simplesmente por “estar junto” e, naquele momento, “fazer parte” da estranheza de sua acompanhante.

Quando as perdi de vista, na esquina do último lance de escadas, no segundo andar, fiquei aliviado, mas continuei absorto em reflexões. Aquela menina, de saia e camisa pretas, cílios negros, lábios escuros e piercings por todo o corpo, ela explicitamente atacava uma trabalhadora. Uma ovelha do rebanho trabalhista era deliberadamente violada por uma loba anticristã – embora que freqüentadora de cemitérios. Pudesse eu ter dado um conselho à vítima, diria a ela que fizesse o sinal da cruz e pedisse demissão, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Até onde pude ver a conversa, toda energia reservada para uma sexta-feira comum já havia sido sugada da cidadã pelos olhos atentos e ameaçadores da garota envolta de negro.

↑ Ilustração de Tim Burton

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TIPOS (PÓS-)MODERNOS: VENDEDOR DE JOGOS SOCIAIS

julho 3, 2010 at 17:07 (Crônica)

Do lançamento de um projeto voltado para a Internet e seus provedores populares, as lan houses. Donde a apresentação de um produto virtual, de certa empresa Mentez:

Um autêntico gringo, corpulento e sonso, usando bigodes semelhantes aos do Salvador Dalí, segue dizendo à platéia, formada, entre outros, por proprietários de lan houses e alguns executivos do Banco Santander, que no Brasil é muito raro alguém ter cartão de crédito e usá-lo na compra de “mercadôurias online”.

Enquanto um consultor do Sebrae mastiga a própria mão – provavelmente, para não rir da figura nortenha -, o americano expõe seu português aprendido, suavemente iluminado por um telão branco, que lhe presta retaguarda.

Milhões é “milões”; desconto é “discôntou”, em sua pronúncia alisada pelo ditongo “ou”. Ele próprio parece não se levar a sério, usando uma risonha expressão  banhada de imposição de superioridade, cômica e aparentemente alheio à situação.

O tal Andrew veio a vender jogos  de computador, produzidos por uma empresa Mentez e bem conhecidos no mundo da Internet. São os chamados social games, que têm como exemplares de sucesso os cooperativos Farmville e Buddy Poke. Ainda há outros da Mentez que o representante de vendas da “fábrica” afirma não poder divulgá-los, por eles serem “top secret” – como informa um dos quadros de apresentação, reproduzidos por um retroprojetor na tela posta à traseira do gringo.

Com olhos e bigodes de artista, o funcionário da empresa é um pintor do mundo virtual: espécime da restrita safra de empregados pós-modernos, adeptos da digitalização da vida humana. À beira dos 30 ou 40 anos, essa gente passa os dias desenvolvendo sua arte virtual, submetida a empreendimentos coloridos e cheios de design, como o Google e a Apple.

Com certa urgência e preocupação, como se pudesse o público estar sendo enganado caso a verdade não fosse logo dita, o telão nos informa, paternalmente: “Aviso: este programa ainda é beta”. Exceto a maioria, alguns parecem se perguntar: Que significa isso? Penso, logo existo: as ferramentas digitais e a Internet vêm enlouquecendo os homens, fazendo-os crer que suas realidades  audiovisuais dizem mais do que osso, carne, emoções e coletividade.

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TORCEDOR COXO

julho 1, 2010 at 22:09 (Crônica)

“A Holanda é perigosa! A Holanda é perigosa!”, repetia sonoramente, com sotaque cultivado no Ceará, o andarilho de cabelos emaranhados que se recostava à porta de um pequeno comércio, no Vale do Anhangabaú. Enquanto arquitetava, em voz alta, táticas para a defesa da seleção brasileira usar no próximo jogo da Copa do Mundo, o mendigo era reprimido por roucos berros de alguém oculto – “cale a boca!”, ouvia-se da calçada.

Manco, mas de muleta, ele não se continha e externava uma preocupação de interesse público: o Brasil enfrentará uma partida difícil contra os holandeses no campeonato mundial. Apesar de maltrapilho, vestia amarelo e aparentava-se digno de ser ouvido, tal como um experiente apreciador da arte do futebol. Era como se todos os transeuntes devessem prestar atenção ao seu discurso estrategista, para que tomassem medidas preventivas contra a derrota.

Ora os veículos entrecortavam suas gritarias, ora suas palavras eram assimiladas por curiosos. Alguns taxistas, que faziam ponto diante do coxo, até pareciam ter concordado com as teorias do andarilho, quando ele disse: “A Holanda ataca pela esquerda. Eu to falando! Temos que ter cuidado com o lado esquerdo”. Mas em geral, os trabalhadores passantes, ocupados em andar decididamente para o emprego, ignoravam o brasileiro sem rumo, naquela tarde sem jogo. O andarilho antecipava os gritos que estavam reservados para dali dois dias, para quando estava marcada a partida. Precipitado e sem futebol para assistir, o torcedor manco agia como um girassol à noite; sem objeto para pousar a atenção, fazia-se ele mesmo um foco, uma figura para os olhares alheios.

A despeito das proeminência futebolísticas do mendigo, um homem velado também mantinha sua própria voz levantada, em tom grosseiro e de condenação. Acusou o torcedor de “pé-de-cana!” e o convidou ao silêncio forçado, com arrasadores gritos de “cale a boca!”. Claudicante, o agredido atravessou a rua, fugindo corajosamente de seu agressor. N’outro lado da via, empunhando com vacilo seu apoio de madeira – uma muleta sem par -, ele contra-atacou o fortuito inimigo: “A Holanda é perigosa, você vai ver!”. E como resposta, obteve um longo e deseducado “vai embora, bêbado! Pé-de-cana safado!”.

Acossado e apercebido do que causara, um breve tumulto interrompido pelo tráfego de veículos, o andarilho coxo manteve seu apoio desembainhado, mas calou. Depois de desentranhar alguns sons indistinguíveis, graças aos automóveis, virou-se, dando as costas com desistência. Partiu para fazer alarde sobre a disputa (Brasil X Holanda) em outra esquina, mais verde e amarela, que ouvisse seus conselhos e previsões.

Quem o insultava continuava escondido, provavelmente dentro da loja em que outrora recostava-se, manquejado, o mendigo. No dito comércio, estreito e longo, vendia-se bandeirinhas do Brasil, salgadinhos, cervejas e outros artigos dedicados à atividade de torcer pelo futebol brasileiro, incluindo-se aí as vuvuzelas – tipo de corneta sul-africana cujo nome conquistara o linguajar nacional.

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GAROTA NO CENTRO

maio 11, 2010 at 19:24 (Crônica)

Tinha pele avermelhada e irritadiça, como sofresse de uma urticária crônica e generalizada. Vestia-se bem, portanto. Andar decidido, nariz empinado – postura solene de mulher que se vê dona de si. Olhar possivelmente atento e firme, fixado em um só ponto, por detrás de gordos óculos escuros.

Impaciente, ela esperava o farol abrir para atravessar a Rua Xavier de Toledo, no centro de São Paulo. O fluxo de carros ia em direção à Praça Ramos de Azevedo, onde passa por reformas estruturais o Teatro Municipal.

A multidão que saía da estação Anhangabaú do Metrô passava apressada pela garota, movimentando-se desastrosamente, como costumam fazer as demandas humanas em São Paulo, nos dias considerados úteis. Mas ela permanecia fixada em sua posição irredutível, enquanto dezenas de trabalhadores, malandros e estudantes agitavam-se a sua volta, em um espaço público saturado. Apesar de vastas, algumas calçadas da região central vivem congestionadas de transeuntes acomodatícios.

Essa situação diária dos cidadãos economicamente ativos lembra água caindo em um recipiente hermético e se ajustando aos seus limites naturais. A massa humana, em sua coletiva liquidez, não procura dividir as áreas de maneira lógica ou racional, mas as ocupa com aleatoriedade, oportunamente.

A menina de tez rubra, no entanto, mantinha um posicionamento sólido e alheio ao reverso de diáspora que ocorria em seu redor. Machucaria, se algum desgovernado lhe viesse de encontro, pois ela era um indivíduo alienado da procissão trabalhista paulistana, de cuja maioria não há relutância ou hesitação em adentrar vagões transbordantes de gente, em metálicos subterrâneos.

Pedra polida, a garota, de um tipo que grande parte dos brasileiros não poderia compreender. Emanava dela certo comportamento europeu, conservador da individualidade e preservador do bem público. Tal conduta provava-se discretamente, no retido espaço que ocupava.

A jovem da pele vermelha atravessou a rua somente quando o farol deu sinal para que os pedestres passassem – momentos antes, um grupo quase foi rasgado por motoqueiros –, depositou a lata vazia de refrigerante que carregava em uma cápsula de lixo e desapareceu na multidão convulsiva.

Talvez não houvesse ali, naquela moça e naquele momento, um temperamento tipicamente tropical, que naturalmente permite com que a carne esbarre na carne alheia, sem pudor nem precaução, durante a convivência pública. A recatada inflexibilidade, porém, longe de ser desumana, mostrava-se de uma singela ternura cidadã.

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