SOB A LEI ANTIFUMO

outubro 14, 2010 at 7:49 (Análise & Crítica)

Quando comecei, não agüentava um inteiro e ia somente até a metade. Fazia careta já na primeira terça parte e dispensava-o ainda incompleto, desperdiçando-o. Ânsias e enjôos momentâneos eram comuns, mas as poses e os gestos elegantes compensavam o mal estar. Por certa vaidade, eu insistia, enquanto diziam que eu deveria parar de começar; não escondia que ia definitivamente desobedecê-los, e passei a enfrentá-los com a execução diária do ato. Era de manhã, à entrada da escola; de tarde, à saída das aulas; pela noite, às escondidas no banheiro de casa. Certa vez, fui pego fazendo aquilo na janela. Desesperei-me, escondi o crime, neguei-o até as últimas conseqüências. Mas pouco tempo depois o admiti. Éramos, enfim, cúmplices auto-declarados.

Alguns que praticavam o mesmo ato durante anos chamavam a si mesmos de “idiotas” e aconselhavam-me a não cair na besteira de imitá-los, de segui-los no exemplo, de ir longe demais. Caminho sem volta? Outros, que tinham parado, orgulhavam-se do momento final, daquela última tragada; eram os ‘ex’ orgulhosos, que foram adiante com o hábito e depois o boicotaram sem maiores conseqüências. Quanto a mim, que seguia consumando o fato de que seria um fumante inconseqüente, consumindo o produto dessa estirpe suspirosa, sem querer sacrificar um tangível presente em nome de um inapreensível futuro, eu já começava a pegar gosto pelo cigarro.

Se antes o conselho era cortar o mal pela raiz, como reza a sabedoria popular, hoje já não é mais desse modo que as dicas são proferidas. Dizem “pare!”, alertam-me para o câncer, que a cada ano mata mais, que está menos curável e crescentemente temível. Embora haja avanços na medicina, as doenças prevalecem e, portanto, deve-se evitá-las sem descanso. Dir-se-ia que a prevenção é a maior virtude do Homem. Cautelosos. O que diriam para um atropelado? – que não atravessasse a rua? A que aconselhariam um suicida? – que encontrasse a alegria do viver? Indicariam a um acéfalo que se esforçasse nos estudos para ampliar sua massa cerebral inexistente? A um piloto de avião caído, pediriam que largasse seu sonho de voar? Fosse um caso de doença rara, que o padecido se tornasse obrigatoriamente alguém sadio? Exigiriam, que vivesse mais dez anos, de quem fora incumbido de morrer aos 30 por “morte natural”? Ou ainda, rezariam pela ressurreição da vítima de um assassínio? Exigências descabidas, como as que se faz a um fumante. O dito cujo, que lhe acusam de ter elegido o próprio algoz, exerce seu livre e incontestável arbítrio na mais fina escolha: uma respiração profunda e densa, com cheiro, gosto e cor; movimentos leves, de leva-e-traz; emanação de fumaça e ar em uma mistura equilibrada e satisfatória, responsável por uma sensação inspiradora, prazerosa e – o melhor – cotidiana.

Há uma cultura de saúde e vida longa que, caso a sigam à risca e em massa, nos levará a uma ditadura dos bons costumes. Todos obrigados a viver longamente e bem, castradamente bem. O governo corrobora com a castidade: Fumar causa câncer, impotência, doenças cardiovasculares, tristeza, dor e sofrimento. O governo cobra altos impostos sobre a prerrogativa de que o fumo possa lhe custar leitos públicos de hospitais mal administrados. Paralelamente ao IPI (Imposto sobre Produto Industrializado), o mesmo governo agora proíbe seus contribuintes de fumarem em locais outrora marcados pela nicotina, como as casas noturnas e os bares. Imagino um segurança batendo nos ombros de Vinicius de Moraes, de quem ri Tom Jobim, em um boteco de Ipanema, mandando-lhe apagar o bastonete poético. Evidentemente, há uma preocupação com o ar dos que não fumam – é um direito atmosférico, o de respirar ar transparente. Ainda assim, em São Paulo, os não-fumantes convivem com o dever de tragar o monóxido de carbono assoprado pelos escapamentos, grandes fumantes automobilísticos.

Devemos então, nós, fumantes humanos, em nosso eterno suspiro, sermos condescendentes com o preconceito que nos abate durante as noitadas da capital? Podemos morrer de tudo: acidente, natureza e até cigarro. Mas precisamos mesmo viver sob a sombra de um julgamento disfarçado de cidadania? Escondam-se os cigarros, assopre-se a fumaça somente no ar livre; tenha-se vergonha de fumar . Fomos postos a cantos abertos que exigem a discriminação. Todo consumo permanece válido, o do fast food, o do automóvel, o da experiência dos produtos e eventos sofisticados. Porém, o tabaco industrial está terminantemente proibido. Quem traga é intimidado a mudar de vida, a viver como um eunuco da longevidade. Os que optaram por não fumar tomam as rédeas da saúde popular.

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DECLARAÇÃO DE VOTO

outubro 1, 2010 at 22:15 (Análise & Crítica, Ensaios & Reflexões)

Enquanto se preparava para um discurso defronte a centenas de monges, em 2009, o atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, passou por uma situação supostamente embaraçosa. Posto que deva ser um costume no Tibete, os auxiliares ajustavam o assento sem encosto de seu líder espiritual para que ele discursasse sentado. Quando finalmente Gyatso tentou se sentar, caíra para trás apoiando-se no chão com uma das mãos, pois o móvel ainda estava desajustado e não resistiu a seu peso. Por alguns segundos, enevoou-se um silêncio na câmara religiosa onde acontecia a reunião, mas logo em seguida, após um sinal risonho do líder, todos da platéia e ele próprio puseram-se a rir fraternalmente.

Na corrida eleitoral brasileira à presidência da República, o candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) ficou conhecido em escala midiática por apresentar um temperamento brincalhão, às vezes sarcástico, e engraçado nos debates televisivos. Enquanto isso, os candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Roussef (PT) demonstraram uma impecabilidade na fala e nos gestos que só poderia ser artificial. Na linguagem do marketing político, qualquer erro no discurso é justificado por nervosismo ou distração, nunca por naturalidade. Quando ocorria de os principais oponentes se atrapalharem, ficavam visíveis uma brusca tentativa de correção e certo arrependimento da parte dos oradores.

Dir-se-ia que Serra e Dilma são mercadorias políticas. Marina Silva (PV) até que preserva algum senso de genuinidade e comportamento natural, haja vista a sua leveza verbal. Contudo, é válido dizer que Plínio, tolerante com os próprios erros de discurso, sabendo inclusive erigir graça dessas incorreções, possui a originalidade e a destreza oral de um sábio, que não teme as (des) valorizações do mercado eleitoreiro. Sua fraqueza é sua força; o índice de declarações de voto ao socialista, ainda que ínfimo, subiu nas pesquisas eleitorais. Como Dalai Lama na situação descrita acima, o candidato do PSOL faz rir, ao contrário dos dois oponentes principais que, ao falar, mais parecem máquinas engendradas por marqueteiros.

Já com 80 anos, Plínio foi vítima de chacotas relativas a sua idade, seu posicionamento ideológico e suas declarações dadas nos debates da TV. O intelectual propõe reformas radicais em questões sociais, políticas e agrárias; em seus discursos, instiga a população a enxergar a necessidade de haver essas mudanças. Evidentemente, seria difícil que as propostas passassem inteiras pelo Congresso Nacional. A governabilidade do socialista, em função de uma Câmara dos Deputados e um Senado dominados por alianças interesseiras, seria reduzida – é fato. No entanto, se tivéssemos um presidente com a postura – agressiva, mas nem por isso autoritária; utópica, mas alcançável – de Plínio de Arruda Sampaio, isso ajudaria a conscientizar o povo brasileiro de que vivemos, sim, em um país de minorias dominantes, maiorias sem poder e desigualdades sociais gritantes. O resto, só o tempo e o apoio popular contariam.

Na euforia dos saltos econômicos, deixamos de perceber que as mazelas nacionais continuam – tamanho desenvolvimento acaba por favorecer as elites, como sempre foi; e ele só é possível com o consentimento controlado e calculista dos detentores do poder.

O consumo aumentou nas classes materialmente desfavorecidas? Ótimo, mas o que se dirá de um sistema que prevalece injusto, na mais pura acepção da palavra? Um sistema que necessita do desemprego para que a mão de obra mantenha-se barata; que exige jornadas abusivas de trabalho; que mantém um mercado de ausência de criatividade e obediência mecânica; que importa valores do norte, que se autovalorizam destruindo culturas locais; que defende uma meritocracia na qual nem todos partem da mesma largada, mas na competição recebem o mesmo tratamento impiedoso e discriminatório. Entre outras e inumeráveis aberrações humanas.

Plínio representa a luta pela quebra de valores cristalizados no nosso capitalismo oligárquico. Nas considerações finais do último e principal debate televisivo, na Globo, o socialista, ciente da derrota, triste com os rumos da política nacional, desgostoso com a semelhança entre as três principais candidaturas, declarou que sua mensagem fora passada a quem devia ser: os jovens.

Agradeceu ao partido e à família, elogiou os auxiliares de campanha, falou em quebrar o “muro” que separa o cidadão de seus direitos. E falou ao jovem eleitor. “A maior alegria que eu tive nessa campanha foi o apoio da juventude. Talvez muita gente não entendeu o que eu falei nessa campanha, não captou. A juventude captou, porque a juventude pensa no futuro. Eu estou falando para o futuro”, disse. E convocou todos os jovens a pensarem grande, a ter coragem, tenacidade e força. “É preciso falar as coisas como elas são. Elas foram ditas aqui dessa maneira, [o que] assustou muita gente. [Mas] não vocês, não os jovens”. Plínio relembrou-se das desventuras de sua vida pública, como o exílio e a perda de mandato, e concluiu: “Compensou, se a juventude levar adiante o meu projeto. Viva o Brasil!”.

Depois disso, ouvia-se da platéia do estúdio na Globo pessoas gritando o nome do candidato e o aplaudindo intensamente. O encerramento de William Bonner fora atravessado pela euforia coletiva. Espontânea manifestação que nenhum outro participante daquela ocasião conseguira provocar. Ao candidato do PSOL, que nas pesquisas não chega a 2% das intenções de voto, concederam aplausos de prestígio e gratidão. Seu recado fora dado.

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DISPARIDADES

agosto 20, 2010 at 16:19 (Análise & Crítica)

Pau-de-arara, passos de pingüim ou trezentos cavalos. Vai de quê?

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ÉTICA À BRASILEIRA

junho 18, 2010 at 20:16 (Análise & Crítica)

Falar em ética é relativo. Supõe-se uma ética universal, o que é deveras humanitário e consciencioso, porém um código de conduta geral para a espécie humana encontra-se apenas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nas convenções da Organização das Nações Unidas. A bem do esclarecimento, note-se o que fizeram e fazem os Estados Unidos ao impor sua ética no mundo médio-oriental: a tentativa de transformar ambientes inteiros em currais da democracia norte-americana só causou a quebra dos mesmos valores pregados pelos invasores; mortes, massacres culturais e intolerância étnica.

A classe média brasileira, em sua pobre diversidade, segue uma ética judaico-cristã e arcaica, assim como a estadunidense. Contudo, a diferenciar-se dos americanos do norte, a conduta deste nicho nacional é podada por valores advindos das raízes oligárquicas, exploratórias e despreocupadas com o desenvolvimento socioeconômico do País. Paradigma comportamental nascido da ociosa fidalguia lusitana.

A ética das minorias do Brasil, transmitida atualmente através dos meios de comunicação em massa para toda e qualquer maioria, é composta de comportamentos sondáveis. A exemplificar: a preocupação com a “família” (entenda-se aqui os indivíduos próximos, co-sanguíneos ou não); o descaso com problemas alheios e o abandono do espaço público; a indiferença intrínseca e aceitável no comportamento cotidiano; a ausência de discussões sobre cidadania, típica de países sem tradição democrática. Dessas mazelas, destacam-se algumas qualidades do “homem cordial” (termo cunhado por Sérgio Buarque de Hollanda): a demonstração obrigatória de preocupação com amigos e familiares, sem que haja razões, senão as emotivas; a valorização da fofoca como característica comum e bem quista; a aparência individual dolente, compreensiva e benevolente, ocultando as dificuldades da interação entre pessoas; o desprezo por todas as formas e posições da hierarquia social, assim como pelas relações de poder – a do dinheiro é bem respeitada – entre indivíduos que deveriam se entender como partes de um mesmo pacto social e, portanto, tratar-se como integrantes de um processo coletivo e evolutivo.

Pode-se concluir – precipitada, mas não irracionalmente -, tomando-se como posto de observação as características nacionais traçadas acima, essencialmente retiradas de Raízes do Brasil, que a ética brasileira é superficial. Enquanto a população de alguns países europeus de fato tenta manter o contrato social com seus devidos respeitos e alicerces, tomando boa conduta particular e pública, o povo do Brasil demonstra uma espécie de cordialidade ética que não passa de verborragia e composições gestuais meticulosas e programadas. A arena política nacional é a demonstração mais visível, vulgar e lamentável dessa moral artificiosa.

A ética não pode estar apenas na simpatia ou em pequenas demonstrações de bondade das quais os brasileiros tanto se orgulham – o que talvez explique o populismo histórico nas eleições presidenciais. Um código de ética universal, qualquer que seja este e se for existente, deve primar por uma relação que envolva justiça e esclarecimento entre as pessoas, independendo de tratamentos aparentemente bondosos ou atos supostamente edificantes do ser. Um indivíduo ético, necessariamente, pensa com clareza e responsabilidade social. Ele vive a pensar em suas ações, medindo-as de acordo com as conseqüências que elas possam causar no meio em que são praticadas. O grupo e o ambiente, antes de mais nada, impedem ou incentivam a realização das atitudes deste ser. Viver eticamente está longe da simples complacência, tão comum a nossos conterrâneos que se julgam dignos cidadãos por “agirem bem”.

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DEPOIMENTO DE UM JOVEM PAULISTANO

abril 27, 2010 at 4:12 (Análise & Crítica, Literatura)

Do que  seria se uma iluminação celeste tirasse toda a sinceridade de um jovem médio-classista paulistano e transcrevesse em uma carta, que ao fim virasse protesto, com toda a fúria dos apartamentos:

Pensamos o futuro com o planejamento de um arquiteto e a cautelosa sede de um investidor. Ganhos devem ser reinvestidos e a carreira tem de ser progressiva, ascendente. Blocos de tempo dividem nossa vida da seguinte maneira: uma década de formação básica e média, meia década de ensino superior e finalmente uma catártica entrada no mercado profissional, que provavelmente nos leve ao lugar ao sol, onde o conforto nos deixará repousar, capitalistas.

É-nos ensinado a comprar carros, televisão e todas aquelas espécies de aconchego de que tanto tratam como se fossem necessidades. Nos fins de semana, carregar sacolas em iluminados corredores de vitrines, que mais parecem uma clausura a quem atenta, e freqüentar lugares exclusivistas, nos quais nos mostramos elegantes e impecáveis.

Não espanta que assim vamos nós, assistindo e aprendendo o que se passa na grande Rede Globo deste País. Às vezes dizem que somos alienados, o que é uma grande bobagem. Eles ainda vão nos ver chocalhando um diploma no rosto deles, como um distintivo. Afinal, não estudamos em colégio público. Pagamos bem para aprender nos melhores lugares, e com tradição. Os alunos das escolas municipais e estaduais, sim, é que estão ferrados. Esses vão ter que batalhar muito para adentrar em uma digna universidade, enquanto nós iremos aproveitá-las para bebedeiras hercúleas e sacanagem.

Falando em faculdades, é válido dizer, a fim de expôr um conhecimento maior sobre nós, que repudiamos o sistema de cotas imposto pelo governo brasileiro. Cotas são injustas, em primeiro lugar porque legitimam o preconceito, como todos sabem entre nós. Depois, ainda tiram o nosso mérito de pessoas que muito se aplicaram nos cursinhos. Estudamos tanto, e nossos pais tiveram que pagar tão caro pelos nossos estudos. Por quais motivos obscuros quem estuda “de graça” não tem que ralar para entrar na universidade? Ora, não somos todos iguais? Direitos iguais! O governo deve esconder algo aí.

Vamos propôr uma greve contra o sistema de cotas, ele é artificioso e se deve a motivos indecifráveis. Pensando bem, devemos estabelecer outras lutas além dessa. Porque só o MST pode protestar? Nós também temos o direito de botar esse Brasil abaixo. Destruíram terras da Cutrales, esses sacanas, não? Justamente essas terras, que devem ser do avô do nosso companheiro Zeca Cutrales. Pobre Zequinha, tão bicho-do-mato, tão Chico Bento! Esse era o apelido dele, Chico Bento! De Zeca a Chico, nós sempre pensamos que ele transava com cabras. Mas por já termos feito uma visita à fazenda que é do pai dele, no Mato Grosso, vimos mesmo que o cara era radical: ele caçava veados! Havia dezenas de chifres em uma saleta ao lado do banheiro de mármore daquela casa de engenho.

Mas talvez protestar pelo campo não valha a pena. Até mesmo porque o Zeca encheu a cara de ecstasy e matou um amigo nosso em um espetacular acidente de carro, com direito a capotagem e efeitos especiais. Só faltou dublê. Zeca Cutrales hoje vive sem nariz, motivo pelo qual o chamamos de Nasaless. Foi uma brincadeirinha de mau gosto, confessamos, ácida como laranja imatura.

Casos particulares à parte, era de protesto que falávamos. Devemos brigar pela cidade! Alguns favelados estão dominando o pedaço lá no Itaim, está perigoso para as meninas irem ao cinema. Essa gente levanta muita suspeição, usando chinelos no asfalto! Tentamos ligar para a polícia algumas vezes, mas só dava ocupado. Talvez devêssemos todos enfrentá-los. Podemos usar os carros como armas, do jeito que fazemos nas ultrapassagens entre faixas de trânsito. Conheço dois ou três colegas que possuem verdadeiros tanques de guerra. Tancson e Hiluxo para cima da pobreza! Vamos acabar com ela! Pois não é esse o objetivo último de todos os governantes?

Na dúvida do que mais reclamar, façamos como os nossos pais. Acusemos, nós, a Venezuela e o seu medíocre presidente, o tal do Chávez – Chaves, para mim, sempre foi motivo de riso –, de não cooperarem com a ordem mundial. Mascaremos, nós, as grandes corporações e seus fabulosos empresários, que estão sempre tão sorridentes nos jornais. Esqueçamo-nos da África por completo e da ausência do Estado nas favelas, pois são pequenezas que devem ser varridas para baixo do tapete, como as empregadas domésticas o fazem – essas molengas mal agradecidas!

Após tanta luta, chega o fim do ano, quando fazemos encher os apartamentos de presentes e as mesas, de animais. São dias de festa, afinal, e o País merece comemorar em paz, seja aqui ou em Miami, como manda a tradição. Enquanto a Rede Globo filma celebridades vestidas de branco e o povão assiste e comemora, nós imitamos os artistas “globais”, porque podemos. Ou é a televisão que nos imita? Tanto melhor se for assim.

Abestalhados, vemos as festas nas lentes da Grande Mídia brasileira. Carnaval é o ápice: toda aquela bunda morena rebolando. Toda aquela careza dos sambódromos. Às vezes, ouvimos dizer que essa é uma festa popular. Popular? Os populares que peçam os seus empréstimos! Aquilo é festa de grã-fino, cheia de desfiles “top”, para a elite apreciar. Só entra pobre se for para desfilar sob o nosso olhar inclinado, mirado do alto de nossos camarotes. Se a Mangueira é uma favela não sabemos, mas que é uma bela árvore podemos provar com fotos. E beija-flor é um pássaro bonito, enquanto as favelas são horrendas. É importante que haja esse discernimento, para não pensarem que os nomes das escolas de samba sejam dados vulgarmente.

Está aí outro protesto: vamos comprovar que tais escolas nada tem a haver com as favelas do Rio ou de São Paulo. Carnaval é festa de luxo, que permite a entrada somente de pessoas boas como nós. Essa data está reservada para a lista de eventos indispensáveis de nossa galera: shows, peças da Brodway e, agora é claro, copa do mundo. Finalmente poder-se-á freqüentar os jogos sem enfrentar uma horda de selvagens pobretões. Os esportes também deveriam ficar reservados a quem melhor sabe assisti-los, os possuidores da tela de LCD. Isso, embora as Casas Baianas estejam fazendo um trabalho horrendo quanto à massificação das tecnologias.

Mais dois problema a serem enfrentados por nossa condição social, as Casas Baianas e o povo que lhe dá nome. São Paulo virou uma verdadeira procissão dessa gente. Maldita Revolução de 32 que falhou, deixando que essa cidade sustentasse o País inteiro. Não fosse esse pequeno problema sobre nossas costas, e a capital paulista seria o autêntico Primeiro Mundo: um mar de condomínios neoclássicos, shopping centers para as mulheres, bons hotéis e bordéis e uma frota de carros luxuosos.

Meu bom Deus, luxo não vem de luxúria? Disseram-nos tanto que esse era um pecado capital. Talvez também devêssemos ler Calvino.

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DISPARIDADES

abril 23, 2010 at 1:41 (Análise & Crítica)

Prada ou prantos?

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A PRISÃO CORPORATIVA

abril 23, 2010 at 0:57 (Análise & Crítica)

Corporativismo, segundo o dicionário Aurélio: “Ação (sindical, política, etc.) em que prevalece a defesa dos interesses ou privilégios de um setor organizado da sociedade, em detrimento do interesse público”.

Qualquer manso cidadão que se preze nos círculos produtivos deve pagar a sua penitência diária. Para não definhar entre grades tão glorificadas e arraigadas à urbanidade contemporânea, eis um segredo: entregar-se aos requisitos de uma maneira ansiosa e, supostamente, progressiva de viver sem muito esmiuçar as razões de que se está ali. Ainda mais adaptado, fingir-se de grato e satisfeito com o cárcere que lhe condena. Aos gerenciadores da prisão e do ponto de horários, dá-se-lhes uma mordida da própria alma.

Oito horas ao dia. Sem exigir benefícios de prisioneiros ricos, bonificados com hora de sol ou regime residencial, nem pretender autonomia e filosofia – a ciência dos iguais  -, rói-se o enorme osso de ofício. Um constante e repetitivo parafusar que integra um sistema carcerário producente. Sacana, interesseiro e piramidal, o lucrativo negócio suga da base tudo o que é produzido pela sanha dos seus aprisionados e leva ao topo da pirâmide. Ou seja: a um, dois ou três diretores obesos.

Literalmente, o acorrentamento é opcional, nos melhores termos da livre-iniciativa. Contudo, quando se pensa em questões de sobrevivência, os menos prosaicos logo se trancam, engolindo a chave e protegendo-a das recisões até quando não mais se pode. A fatalidade do banimento pode ocorrer, no entanto. Ignorado o esforço demonstrado exaustivamente, três motivos recorrentes podem destrancar as algemas do labutador e livrá-lo da faina, concedendo-o uma liberdade indesejada e, no caso dos prisioneiros menos auto-suficientes, deveras desesperadora: a insatisfação dos barões para com os seus férteis brinquedos de escambo; reincidência de desleixes, no que recai a culpa sobre os funcionários mais rebeldes, correndo o risco de haver uma digna e justa causa à demissão; ou, no que tange a receita financeira da torre corporativa, o desprendimento pode ser mera poda de gastos com o quadro de aprisionados – não raro, para transferir o investimento a maquinarias.

Uma vez dentro de penitenciárias da mão-de-obra, transfigura-se a existência terrena, após pitadas de estudo e auto-estima, na de um dito profissional. Criatura bem treinada, submissa e complacente. Um condicionado skinneriano que, para fazer parte de algum segmento social do sistema predominante, desperdiça doses diárias de libido sob o pau de empresários. Ou isso, acomoda-se nas mãos dos detentores do capital, ou debulha-se em miseráveis condições de incapacidade financeira e falta de mobilidade real numa cidade nervosa, onde esfola-se a maioria dos detentos brasileiros, a Grande São Paulo – no mais apropriado exemplo de concentração trabalhista. Fora da condenação motora e repetitiva, resta a fuga inconseqüente a algum lugar interiorano ou da costa, que seja virgem e remoto. À maior distância possível das engrenagens avassaladoras de tecnologia incompreensível e dos interesses privados; para se tornar independente de vampiros corporativos que metem pressa e medo nas mentes mais óbvias.

Observando o movimento de funcionários vestidos de preto e branco em grande empresa nacional, é justo refletir sobre o valor existencial de prováveis sábios que alugaram suas mentes a principados, sendo admiráveis oráculos de seus reinos medievais. E pensa-se o quão dignamente cuidaram de suas terras os vassalos, a nome de suseranos que lhes concederam al

guns lotes em troca de fidelidade – em vez de papel-moeda. Corajosamente, lutaram cavaleiros que, em honra de coroas douradas, entregaram-se à morte pela espada. Porém, atualmente, triste. Muito triste o mal concebido homem empregado, ser pós-moderno em sua realidade de digitar, produzir, contabilizar e embalar mesmices, para depois comprar, abrir e consumir besteiras. Eis os filhos do desenvolvimento social, dos serviços e dos ofícios computadorizados. Esses colarinhos brancos.

O protótipo humanóide de relógio no pulso reserva um terço do círculo, percorrido por um ponteiro giratório, a senhores desconhecidos. Pobre proletariado da gravata, peça do vestuário comum que, aliás, carrega uma simbologia terrível. O recorte de seda enforca ao consorte como a um condenado, apresentando apenas uma diferença, no entanto crucial, da corda fatal das penas de morte: trata-se do nó de pano com delicadeza e dedicação orgulhosas. Mata-se assim o trabalhador contemporâneo, mas sem deixá-lo morrer. Não de modo que o legista possa confirmar o óbito, pois resta sobrevida duradoura neste caso específico de homicídio.

Em sua espécie de sonambulismo consentido, o penitente age afincado ao seu perene desejo de se destacar socialmente ou, no quadro brasileiro, de se sobrepor à ausência do Estado na sobrevivência dos seus compatriotas -eis que, ironicamente, a inclusão do dito cujo na conterraneidade só se dá a partir de sua quase-morte.  Nesse passo, o ser pouco afetivo e egoísta visa ao alto do materialismo, que é para um dia chegar no topo da escalada empresarial, após ter perfurado alguns olhos semelhantes com os seus sapatos de couro negro lustroso.

E acima deste cárcere, no topo das montanhas donde não brotam arte ou criatividade, no sobretudo dos alpinismos sociais em que se metem os adeptos do tempo contado, alienado e preocupado, no controle de cada panóptico interesseiro e poderoso, lá em cima, bem no cume onde engordam os grandes barões, aos quais todos debaixo devem responder, aquele que vestir a roupa – arma sutil – mais fina viverá como um algoz falsamente reificado por todos do resto debaixo, que a ele servem. Disfarçado de samaritano e mensal amigo, o contratante-mor convence a realidade de seus prisioneiros com a promessa de que há bem estar e ascendência social na corporação. Anima a todos com um falso espírito de equipe.

O viver empregatício é repugnante. Contudo, os maltratados não têm vergonha, mas, sim, orgulho de pertencer à dura e escassa oportunidade de participar, insignificantemente que seja, de um imensurável poderio internacional que favorece as altitudes econômicas. Assim, fomentam uma sociedade de senhores que tragam para si todo um esforço coletivo, em detrimento das culturas locais e da energia humana verdadeiramente produtiva.

A mais-valia de Karl Marx – para rasgar teias grossas – não deveria ater-se, se é que o fez, ao mero materialismo dissonante e tempo gasto, como maldições implícitas ao esquema de patrões e empregados. O lucro capitalista consome vida e espírito; coisifica o Homem – como o alemão, genialmente, considerou. A potência criadora e revolucionária, do intelecto e da arte, hoje vive estancada na tela dos computadores. Se Francis Fukuyama acertou, ao profetizar o fim da História sob o paradigma atual do neoliberalismo, é tanto quanto triste o destino de toda uma massa proletária que, com nó de gravata, se robotiza ou zumbifica.

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DISPARIDADES

abril 8, 2010 at 20:32 (Análise & Crítica, Fotografia)

Paraisópolis e o Morumbi: tão perto, mas tão longe.

¤ Foto de Tuca Vieira

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DOIS EM UM

março 17, 2010 at 1:00 (Análise & Crítica)

Santander prepara o público para aceitar fusão com o Banco Real; criação de oligopólios diminui a concorrência entre bancos, deixando clientes à deriva dos altos juros

Hoje, o dia amanheceu com a execução de uma grande jogada publicitária. Quem assina algum dos dois jornais mais vendidos de São Paulo deparou-se com ambos, Folha e Estado, unidos em uma só embalagem de divulgação do Banco Santander. A sacola de plástico dizia: “tomar decisões levando em conta mais pontos de vista. Vamos fazer juntos?”.

O lance remonta a uma série de reclames de televisão que proclamam as vantagens de se estar “junto”. Quem não se emocionou ao assistir a um deles? As peças destacam valores benéficos que são alcançáveis somente em conjunto. Enquanto as ações solitárias (“isso é sozinho”) são tidas como prejudiciais ao meio ambiente, à sociedade de modo geral e aos indivíduos. Apenas as ações conjuntas, nos comerciais, são consideradas como ‘do bem’.

A junção de dois jornais concorrentes e os comoventes propagandas televisivos preparam a mente da população para engolir uma fusão entre dois bancos: a do Santander com o Banco Real.

Já consolidado, esse oligopólio apenas está a fazer os ajustes finais para que toda a cadeia da dupla de marcas seja velada sob um único nome: Santander. Agora, fica mais difícil para que os juros de cheques especiais e das linhas de crédito sejam remanejados para baixo.

Com menos bancos disponíveis no mercado (Itaú também se juntara ao Unibanco, em 2008), a concorrência do setor diminui, restando ao Banco do Brasil ser o único com poder para controlar a farra dos privados – como o fez, disponibilizando crédito durante uma fase amesquinhada, conseqüente da crise iniciada em 2008, em que a maioria dos bancos reduziu suas carteiras de crédito.

As opções da clientela diminuem paralelamente a uma concentração cada vez maior de poder decisório nas mãos de poucas e gordas instituições privadas, donde seus executivos primam pelas metas de lucro cada vez maior. É da natureza do sistema lucrar mais, tolhendo empréstimos a baixos juros anuais, emprestando a altos juros mensais.

O espanhol Banco Santander, o maior de toda a linha do euro, faturou 8,9 bilhões de euros em 2009, sendo que 20% do seu lucro líquido advieram do Brasil.

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GUERRA E LOUVOR

março 10, 2010 at 1:58 (Análise & Crítica)

Premiação do Oscar tem postura ideológica

Parecia que iam ficar apenas com elogios, as seis vitórias do The Hurt Locker (pateticamente, Guerra ao Terror), na 82ª premiação do Academy Awards. Até que, surpreendentemente, o Estado de S. Paulo (9/3) cedeu espaço a uma análise lúcida acerca do filme que surgiu das sombras para combater Avatar, de James Cameron, em nove indicações ao prêmio mais cobiçado da indústria cinematográfica.

O roteirista do marcante Bicho de Sete Cabeças, Luiz Bolognesi, foi quem expressou as sensatas opiniões dos que perceberam no evento do Oscar uma parcialidade belicosa. Ele acusa The Hurt Locker de “propaganda baratíssima da máquina de guerra” e diz que o filme foi desprezado pelo público no Festival de Veneza, dois anos atrás.

Bolognesi, a bem da verdade, considera o filme uma reprodução daquelas velhas histórias de velho oeste nas quais poucos caubóis enfrentam uma multidão de apaches, matando-os e “vencendo”. Ele interpreta que o “filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos”. E é mais incisivo ainda em sua conclusão, quando compara o objeto de sua crítica com Avatar: “no filme de Cameron, os na’vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches”.

Era de se esperar que qualquer jornalista dos suplementos culturais fizesse críticas com o mesmo tom. No entanto, o que se viu nos diários foi bem diferente.

Entre as estatuetas douradas recebidas a título de The Hurt Locker, estão os de Melhor Filme e, para contentamento de Kathryn Bigelow, de Melhor Direção. Toda mídia tratou das conquistas como se fossem a derrota de Golias por Davi, encarnada na briga entre o cinema industrial (Avatar, de U$S 500 milhões) e a produção independente (The Hurt Locker, de US$ 11 milhões).

Outro fato muito comentado pelos jornais é que Bigelow, ex-mulher de Cameron – como cansaram-se todos de saber –, foi a primeira criatura do sexo feminino a receber um Oscar. Nenhuma das críticas e reportagens publicadas sobre a disputa levantou suspeita sobre o óbvio ululante cometido no tapete vermelho: coroação ideológica.

Pandora, o mundo de clichês criado por Cameron, é habitado por nativos de um planeta onde reina a natureza e convivem bons selvagens (lembrando Rousseau). Os azulões são comoventemente atacados pelo militarismo e pela ganância norte-americana. O maior vilão do filme é um general que contesta a Ciência, de modo que tanto o líder do exército quanto os cientista querem extrair de Pandora um minério muito precioso, que se concentra abaixo de uma árvore vital para os na’vi.

Já em The Hurt Locker, o Iraque retratado por Bigelow nos traz aquele típico heroísmo de jovens patriotas que invadem terras estrangeiras para protegê-las de seu próprio povo, invariavelmente terrorista. A diretora destaca um norte-americano esnobe e ousado, corajoso e viciado em seu ofício de desarmar bombas, dando tom de glória à invasão de um país do Oriente Médio ‘onde os fracos não têm vez’ (nome usado na tradução de um filme dos irmãos Cohen, também incompreensivelmente vencedor do Oscar de Melhor Filme, em 2008).

Apesar das bilheterias conquistadas mais uma vez por James Cameron, o que ele produziu em seu mundo de fantasia foi cinema de esquerda, diretamente de Hollywood. Tal feitura seria extraordinária se vencesse uma apologia ao intervencionismo. Não é que o celebrado diretor devesse levar para casa a estatueta ideológica, pois o roteiro de seu filme foi dos menos aplaudíveis entre os concorrentes. Mas premiar um longa-metragem que, como tantos outros, aclama a guerra a partir de um ponto de vista unilateral e estarrecedor é tão descabido quanto homenagear o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um Prêmio Nobel da Paz.

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