MENSAGEM AO POVO PORTUGUÊS

janeiro 6, 2012 at 3:45 (Poesia)

Casa de Amália Rodrigues, em Lisboa

(aplausos)

Apresentador português: … pedem agora a Vinicius umas palavras finais de saudação:

Poeta brasileiro: Bom, me pedem pra dizer as impressões que eu levo de Portugal. As impressões são as mais carinhosas possíveis. Um povo do qual eu descendo e no qual eu tenho minhas raízes mergulhadas e que eu queria conhecer algum dia, porque… Eu sou um homem meio sem pátria, minha pátria é a humanidade — mas de toda maneira, eu queria conhecer o povo português, queria entrar em contato com ele. Um povo com tremendo anseio de viver, de aparecer, de reaparecer na História. Esse povo heróico, que viveu tantas coisas lindas. Um povo que deu um poeta como Luis Camões. Todo cancioneiro português antigo — eu conheço tão bem —, do qual eu me embebi e do qual eu sofri uma grande influência… e então, a impressão que eu levo desse povo, do meu contato com ele, com os intelectuais, com os poetas, com as pessoas, é uma impressão ao mesmo tempo de beleza e de tristeza. Engraçado, porque o contato foi o mais amoroso possível — e esse é o único contato que me interessa. Mas ao mesmo tempo uma impressão de tristeza, de ver esse povo tão formalizado ainda, né. Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar, perder uma série de formalismos que ele conserva. De maneira que o que eu posso dizer sobre o povo português, neste momento, aos meus amigos portugueses, a esses que me trataram com tanto carinho, tiveram tanta atenção comigo — inclusive, uma atenção da qual eu não me acho merecedor, porque ainda também não descobri o meu caminho: Despir-se do seu formalismo!, este é o grande problema do povo português — pra mim, do que eu pude verificar aqui. Integrar-se na Grande Vida!, num negócio que eu também não sei bem como explicar, mas que acho que é fundamental para o ser humano: comunicar-se cada vez mais… Amar-se, amar-se!, sem problemas. Sofrendo muito… o sofrimento faz parte do jogo, não tem importância. Nós somos praticamente cem milhões de seres humanos falando uma língua comum. E a nossa poesia é comum, de uma certa maneira, nós temos os mesmos problemas, a mesma tristeza intrínseca, que é uma tristeza de conhecer o nosso semelhante de uma maneira que outros povos não conhecem. Temos a mesma doçura pra viver, uma certa necessidade de se comunicar — que outros povos não têm —, nós somos os últimos povos que amam e que cantam, não é? E que escrevem uma poesia direita, que tenta dizer qualquer coisa. A minha única mensagem que eu deixo a vocês aqui hoje, na casa da minha querida amiga Amália Rodrigues, essa tremenda cantora, cuja voz eu amo e que pra mim realmente transmite o que seria, digamos assim, um Portugal verdadeiro, a única coisa que eu teria a dizer a vocês é o seguinte: Rompam as cadeias! Vivam! Amem! Amem-se! Rompam as tradições! Rompam os preconceitos! E aí eu tenho a impressão que cada um vai ser… Pode!, pode se tornar mais feliz. Eu acho que o grande problema do ser humano é a felicidade, cada um deve procurar a sua felicidade, e ao procurar a sua felicidade, procura normalmente a felicidade do seu semelhante, não é?

Não sei se eu disse muita bobagem, é?! (ri seco) Mas agora eu quero ir pra minha casa porque amanhã…

(Amália ri com compaixão)

(aplausos)

Apresentador português: Isto foi apenas uma síntese, uma síntese naturalmente precária, para o espaço breve dos discos. De quanto se cantou, de quanto se disse, de quanto ficou gravado, numa noite em casa de Amália com a presença de Vinicius. Um encontro informal de pessoas da mesma família, e que vale, justamente, por esse caráter de informalidade.

19 de dezembro de 1968

 © Transcrito do disco Amália & Vinicius (1970) — faixa 19, “Mensagem”       
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