DO QUE SONINHA DISCORDA DE SERRA

dezembro 28, 2011 at 3:39 (Jornalismo)

No ano em que as finanças globais começaram a derreter (ou quando a coisa veio a público), um curto projeto de lei foi aprovado na capital paulista. Com apenas cinco artigos, tornava obrigatória a instalação de bebedouros em danceterias, salões de dança e similares — o que chamou atenção da imprensa. Alguns veículos trataram a questão de um jeito sumário, o que pode ter levado um público sumário a entender a notícia da seguinte forma: depois do nudismo, do aborto e da fumaça, vereadora Sônia Francine, a Soninha, quer dar água de graça para os terríveis consumidores de ecstasy.

A Lei do Bebedouro foi duramente criticada por representantes do comércio. A legisladora, derrotada nas eleições para prefeito no mesmo ano, 2008, estaria incentivando e/ou legitimando o uso de drogas em clubes noturnos. Não foi portanto que agiram como se água fosse escassa em São Paulo, vide o exemplo:

O empresário e diretor jurídico da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Percival Maricato, afirmou que “teremos de arcar com mais essa despesa se quisermos manter o negócio”. Edson Pinto, diretor do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares concorda. “Alguém vai acabar pagando por isso e será o cliente”.
Edson lembra que, quando foi aprovada, a lei havia sido pensada para que o fornecimento de água funcionasse como política de redução de danos para usuários de ecstasy, droga muito usada na balada e que tem como um dos efeitos colaterais a necessidade de a pessoa se hidratar bebendo água para não passar mal. “Quem tem de ter política pública para tratar essa questão é o governo, não os empresários.”
— Opiniões emitidas numa matéria retirada do R7

Jogaram a “culpa” no colo do poder público, mas não adiantou. Sancionado pelo Nosso Prefeito, Gilberto Kassab, o prazo para a adequação dos estabelecimentos terminou em março de 2011. A D-Edge, o Clash e o Vegas aderiram à lei. Segundo comentários na internet, outras baladas também obedeceram,veja só:

Para quem achava que estava falando baboseiras sobre a Lei do Bebedouro na balada, a prova é que fui ao Inferno Club e lá já colocaram.
— Comentário de um anônimo na imensidão sem rosto do Orkut

No mesmo ano de 2011, uma tarde após o Sete de Setembro, Sônia Francine chegava atribulada a seu gabinete na Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco), departamento municipal onde já se cadastraram 70 mil artesãos, desde 1970. Artesanato? “Já fiz. Aprecio muito”. Ela usava vestes de tecido claro e confortável, tipo light. Dali um mês, deixaria o cargo para se candidatar novamente à Prefeitura de São Paulo.

Muitas coisas acerca de Sônia F. fazem com que a Grande Mídia, por meio de fontes escolhidas a dedo, se comporte como um mórmon rejeitando café — os mórmons, como lembrou a pré-candidata, a propósito do que estava em pauta, não consomem cafeína nem álcool. O principal motivo é a relação existente entre a imagem pública da pré-candidata e a planta da maconha.

Dez anos antes de Sônia F. ir para a Sutaco, ela perdera um emprego na tevê Cultura, depois de a revista Época ter estampado seu rosto na capa de uma edição. A manchete era apelativa: EU FUMO MACONHA; a chamada (“Um número cada vez maior de brasileiros ignora a lei e usa a droga”) mostrava claramente a intenção dos editores. Naturalmente, isso arranhou a moral da ex-apresentadora, que ficara conhecida no papel de VJ da MTV. Alguns anos depois da capa-ataque, aproveitando-se do mesmo tipo de apelo comercial, mas com outras intenções de uso, a revista Trip publicou uma foto de Sônia F., que então comentava futebol na ESPN, com a confissão: EU FIZ ABORTO. Nesse caso, a capa se enchia de mulheres famosas admitindo que já cometeram o crime, num argumento editorial a favor de legalizá-lo.

Ir contra às drogas ou a favor do aborto são gestos políticos muito repercutíveis numa sociedade que adora capas. Uma revista como Veja, cujo índice de leitores (mais de um milhão) horroriza algumas pessoas, é plenamente capaz de transformar um simples ato político em algo maquiavélico e partidário, como aconteceu no duelo público entre Dilma e Serra durante as eleições nacionais de 2010. Para demonizar a candidata à sucessão, Veja contrapôs duas fotos de Dilma e soltou as seguintes frases na página, atribuídas a ela mesma: “acho que tem de haver a descriminalização do aborto” e “eu, pessoalmente, sou contra”.

Obviamente, há muita diferença entre ter uma opinião particular e pensar medidas públicas, além disso, a montagem fotográfica tinha claras intenções eleitorais, já que pouco tempo antes, Serra havia sido estampado noutra capa da revista, com um sorriso de pacifista e uma mão dando repouso suave à cabeça. Feito um anjo contra o diabo vermelho.

Ex-ministro da saúde, o candidato também aproveitou a questão do aborto para atacar sua oponente. Muito embora fosse ele próprio um simpatizante da curetagem. “Eu nunca disse que sou contra o aborto, até porque sou a favor”, disse Serra, em entrevista gravada durante a corrida presidencial. Depois, apercebido do ato falho, consertou: “Eu nunca disse que sou a favor, até porque sou contra o aborto. Alguns até me chamam de atrasado” — o programa Jornal Nacional, como seria esperado, transmitiu apenas a segunda parte da declaração.

Veja também já publicou, em 1997, uma capa a favor do aborto nos mesmos moldes de Época: mulheres célebres sorriem e a manchete admite por todas elas: EU JÁ FIZ ABORTO. Aparentemente, as revistas mais circulantes se copiam e contradizem-se. De fato, em 2010, os grandes veículos de comunicação estavam apavorados em relação à vitória eminente de Dilma e mais quatro anos (pelo menos) de PT. Sônia F. também não estava lá muito contente, pois apoiava Serra, que já tinha perdido muita audiência na época da discussão do aborto — pareceu até uma medida desesperada.

Outro assunto com que Serra dificilmente conseguiria ser franco e natural, levando em conta os problemas de violência gerados por tal, é a proibição de certas substâncias. O político se diz contrário à liberalização de “qualquer droga”. Por ele, fica tudo proibido. Já Sônia F., sua parceira política, acredita na mais distante oposição: toda espécie de entorpecente deve sair o mais cedo possível da ilegalidade, principalmente em nome do fim da guerra urbana entre traficantes e policiais.

“Fumei maconha ao longo de vários anos; parei em 2003”, afirmou a pré-candidata, certificando-me de que eu falava com alguém que entendia do assunto. Tornou-se abstêmica porque: 1) a erva atrapalhava seus hábitos budistas; e 2) não se pode obter drogas sem infringir a lei. Uma decisão, portanto, político-religiosa. Ainda assim, careta, Sônia F. faz parte de um grupo imensurável e internacional, defensor da aceitação legal das drogas pela sociedade, para que se acabe a violência gerada em torno dos narcóticos. O principal argumento: proibi-las gerou mais danos à humanidade do que o próprio consumo jamais conseguiu.

“Nunca houve uma sociedade que não usou”, historiou a representante, “não há nada que justifique a proibição senão conjunturas sociais muito específicas”. Na visão de Sônia F., o que move o uso de drogas no Ocidente contemporâneo é apenas o prazer, diferentemente de outros tempos e lugares. E isso, admite a pré-candidata, se tornou uma prática “imediatista”. Algo como — com o perdão da pressa para esta metáfora — apertar um botão e sentir instantaneamente uma espécie de tesão cerebral. Logo, algo muito distante do uso que supostamente se fazia nos românticos e transcendentais anos ’60 norte-americanos.

Foi no início daquele contexto, em junho de 1961, que Nixon, o presidente belicista que se viu envolvido no escândalo de Watergate — graças ao maior golpe jornalístico já filmado por Hollywood —, declarou war on drugs. Nascia então a política de tolerância zeroque conhecemos até hoje: luta-se contra tudo que é bagulho. Os paraísos artificiais foram considerados “inimigo público número um” da América — acima dos comunistas comedores de bebês. Enquanto isso, no Vietnã, soldados que poderiam ter feito parte da Geração do Amor passavam meses tomando tiros e se entupindo de maconha, haxixe, LSD, heroína, ópio e provavelmente cocaína. Proibidas na civilização, as drogas desempenhavam um papel crucial no alívio da dor daqueles que perdiam pernas e braços no inferno da selva. À visão de companheiros sendo incinerados por napalm amigo, militares alucinados . É provavelmente de lá que se popularizou morfina, alcaloide poderoso muito utilizado nos hospitais de hoje em dia. Derivada da flor do ópio, uma de suas propriedades é a anestesia, capaz de aliviar até a dor dos ossos. Até hoje, embora seja extremamente viciante, a morfina é legalizada no Brasil e nos Estados Unidos, com a premissa dos fins médicos.

Sônia F. (que nunca usou morfina, mas já fumou maconha), é agitada, fala muito e tem ótima articulação — o que podem ser resultados de intensas experiências teatrais¹ —, características indispensáveis para o exercício político-público. A ex-vereadora diz que não sofre de problemas de memória nem revela com que freqüência queimava o fumo. Diariamente, ela medita. E dos que meditam, diz: “Tem gente que consegue ver luzes, ouvir sons, sentir coisas”. Pergunto-lhe se há qualquer coisa em comum entre isso e a cultura das drogas, ela deixa claro que sim, há. Como vai sendo explicado ao longo do diálogo, o que há é uma busca do ser humano por experiências sensoriais.

Caso as nações aceitassem o comércio regular de narcóticos, Sônia F. idealiza que haveria contrapartidas. A nível local, “está ao alcance das prefeituras oferecer outras oportunidades para que as pessoas, especialmente os jovens, tenham experiências prazerosas — por meio da arte, da cultura e do esporte, por exemplo. Esportes liberam dopamina! O próprio cérebro tem suas substâncias que causam sensação de prazer… Além disso, são maneiras de afirmação e realização dissociadas do consumo do que quer que seja”.

Sentada de pernas cruzadas sobre uma poltrona de couro, no lado oposto a um quadro redondo com diferentes texturas que fica atrás da mesa onde normalmente se senta a superintendente da Sutaco (e pré-candidata à prefeitura, ex-vereadora, etc.), Sônia F. estima que regulamentar a produção, a distribuição e o consumo de entorpecentes afetaria apenas residualmente a quantidade de usuários; impactaria consideravelmente na redução do crime; e tornaria muito mais segura a vida dos usuários que não apresentam problemas ao fazer seu consumo proibido — ao contrário do que acontece com alguns fãs de Mcdonalds e Häagen-Daz… quero dizer, a obesidade é para um glutão o que os problemas psíquicos são para alguém que tomou comprimidos demais durante muito tempo: não sabia que fazia mal?

Aos domingos, alguns cidadãos preferem assistir ao apresentador Faustão, recentemente operado da obesidade, o que não exclui a existência de trabalhadores que optam por fumar maconha em parques públicos, na esquina ou em casa mesmo, logo depois do expediente. Também há aqueles que praticam esportes, vão ao cinema, fazem sexo. E tem também, naturalmente, aqueles que fazem um pouco de cada uma dessas atividades, e coisas aléns do que seria razoável listar. O sexo, em especial, é posto por Sônia ao lado da questão das drogas, para fins de comparação. “É melhor investir em educação para o sexo seguro, responsável, do que acreditar no ‘diga não’. Em relação à política de drogas, é a mesma coisa. É melhor combater o uso indevido, abusivo, compulsivo, e não ter a pretensão de acabar com o uso por meio do proibicionismo e a guerra”.

Sônia F. acredita que ameaças trazidas pelos narcóticos poderiam ser prevenidas, por exemplo, com uma política de redução de danos. A Lei dos Bebedouros, que tornou-se famosa e pôs o nome de Soninha nos jornais, enquadra-se nesse tipo de tratamento social, reduzindo as chances de desidratação de quem usa ecstasy ou mesmo daqueles que bebem a rodo durante uma balada.


¹ Em 1984, Sônia Francine apresentou-se como Joana, a protagonista melancólica e rancorosa da peça A Gota d’Água, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes onze anos antes da encenação.
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