BOLETIM DE OCORRÊNCIA

dezembro 8, 2011 at 1:03 (Crônica, Jornalismo)

Homem de boné tenta assaltar mulher que desce de táxi na frente do prédio onde mora. A vítima carrega duas bolsas, uma com um laptop e a outra com seus pertences, um aparelho celular de última geração e as chaves de casa. Ela espera, do lado de fora do carro, o motorista preencher sua nota promissória, quando das sombras surge o bandido, que a agarra e puxa uma das bolsas com força. O celular cai na guia da rua, e a vítima começa a gritar: “não, não, não!” Tomba e se protege. Assustado, o taxista dá a ré e atropela a mulher na altura do ombro, fugindo para trás. O homem armado usa a coronha do revólver para ferí-la na cabeça. Bate, bate e bate mais. Também dá joelhada. E ela berra: “Não, não, me larga!”, encolhida entre a calçada e o asfalto, de porte físico magro, baixo e delicado. Olhos azuis.

Na cozinha e no banheiro, na TV durante mais um episódio de Fina Estampa, a vizinhança ouve os gritos e permanece num torpor que dura dez segundos. Dez segundos de gritos desesperados. Finalmente, um homem que passa de carro para e grita: “Ladrão! Ladrão!”, e estaciona de qualquer jeito. O alarme soa pesado. O bandido olha para ele, mas não atira. Logo surge mais um homem, da casa vizinha ao prédio, e o criminoso sai correndo com a arma em punho, ainda sem atirar. Quando o primeiro homem desce do carro e vai socorrer a vítima, ela tenta acertá-lo com murro e chute. Ele pede calma, mas se afasta. O segundo homem se aproxima e pensa em recolhê-la, mas atém-se porque há machucados demais no corpo dela, a nível de não se conseguir identificar os pontos feridos. A cabeça certamente está aberta. Será que o desgraçado atirou? Ninguém ouviu nada, mas vai que… Tortamente, a mulher se levanta com a ajuda do segundo homem, que a consola do jeito que pode — “você está em casa… está em casa agora…” —, indicando o caminho para dentro de sua própria residência, ao passo em que um aglomerado de vizinhos desconhecidos se forma na frente dela.

Miriam está em choque. O sangue recobre suas costas, mancha a camiseta branca, borra a tatuagem embaixo da nuca. O cabelo, ensopado e viscoso, esconde o rosto que chora sem controle, os cortes profundos no cocuruto nublam a mente, que trabalha para assimilar o ocorrido: “ele me espancou… ele me espancou muito…”, repete, soluçando. Diz que o sujeito tentou pegar seu celular. “O celular…” Preocupa-se com isso, pede para que alguém o limpe e confira se está funcionando. Trazem dois sacos de gelo e colocam na cabeça e no pulso machucado da vítima. Ela pede água com açúcar, bastante açúcar, e enquanto alguém segura o celular para ela, procura na agenda o número de uma amiga que mora perto. Há pelo menos duas contusões preocupantes no lado esquerdo de sua cabeça. É importante saber se ela consegue raciocinar. Parece que sim, pois faz questão de reconhecer: “Estou em estado de choque”. E, com um esforço, olha para as pessoas que a ajudam e dá um sorriso de compaixão.

— Obrigada, obrigada por me acolher…, diz. Sua amiga atende ao telefone. “Oi… eu tava chegando em casa… um homem me bateu…”. A voz do outro lado da linha faz com que Miriam volte a chorar, e ela fala tremulamente que está na casa do lado da sua. Desaba mais uma vez, recompõem-se. Sua amiga já vem. Parece não sentir dor nenhuma, a despeito da mão inchada e do escorrimento incessante, que enfrenta o gelo. As oscilações de humor, entre o autocontrole e o desespero, vão diminuindo, e Miriam chega a rir da própria desgraça. Aponta para o ombro esquerdo e comenta: “Essa mancha é porque o táxi me atropelou… Ele fugiu, ficou assustado…”. Há uma larga faixa cinza sobre parte do seu busto. Ela ri nervosa e longamente ao final da frase. Depois contorce o rosto e chora mais, um choro seco e curto.

Retomada a parte mais imediata da consciência, Miriam conta aos poucos o que presenciou, na seguinte ordem:

Voltava do Aeroporto de Guarulhos, recém-chegada de uma viagem de negócios. Voltaria para a Europa em dois dias. No instante que precedeu o assalto, suspeitou de um carro escuro parado na esquina, com gente dentro, mas recusou a sugestão do taxista para que desembarcasse na garagem do prédio. “Essa região é perigosa, dona”, ele disse, mas não adiantou. Do automóvel suspeito, saltou um homem de boné, enquanto a passageira descia do táxi. Era, mais precisamente, um moleque de 16 a 20 anos, com possíveis antecedentes criminais. A cidadã tentou resistir ao assalto, impedindo que o criminoso levasse suas propriedades. Ele reagiu brutalmente, acertando repetidas vezes a cabeça dela, o que provocou marcas profundas. Quando caiu, gritando muito, ela machucou o pulso — entre outros ferimentos que não conseguia identificar, embora soubesse que estavam ali, no dorso ou nas pernas. Potencial homicida, o criminoso continuou a violentá-la mesmo no chão, num estado de ira. Foi embora somente quando avistou dois homens, não levou nada consigo.

No local do crime, vizinhos que nunca se viram no cotidiano falavam abertamente do desastre. O primeiro homem a socorrer a vítima desculpava-se porque tinha operado o joelho recentemente. Estava manco, portanto não pudera ajudar a moça com mais presteza. Uma senhora de cabelos brancos sugeria que os bandidos tinham seguido o táxi desde o aeroporto até a casa da passageira, no que seria um modus operandi comum; um guarda de moto, jovem e esguio, contratado pela vizinhança há poucos meses para cuidar da questão da segurança, tema recorrente na região, sorria amarelo e contava uma versão:

— Vi o moleque entrando num carro e segui o carro, mas essa moto é fraca —, ele explicou a alguns vizinhos, indicando as falhas de seu veículo, fornecido por uma empresa. Que carro era? “Um Vectra”. Anotou a placa? “Não deu”. “Ela tava vindo do aeroporto?”, questionou, sem saber que concordava com a tese da velha senhora. (Será o diabo que há uma modalidade de assalto assim em São Paulo? Perseguição calculista, do aeroporto internacional à casa da vítima, seguida de ataque violento, em busca de alguns euros não-trocados.)

Um dos vizinhos sugeriu uma medida radical: “Isso daqui”, exclamou, desenhando o quarteirão com os braços, “tem que ser um quadrado fechado! Com seguranças armados”, completou, apontando o que poderiam ser pontos estratégicos para uma vigília medieval. Os seguranças de moto, agentes terceiros de alguma firma de segurança, com veículos impotentes e desarmados, não bastavam para esse senhor. “Tem um quarteirão de polícia a quatro quadras daqui…”, lamentou outro vizinho, e deu um suspiro indignado o suficiente para representar toda a capital paulista. Os vereadores poderiam ser representantes de tipos específicos de sentimento social, de modo que haveria o candidato da indignação, o da vigilância extrema e o da raiva — e que este último existisse para ser solucionado na Assembleia, por um vereador da igualdade, ou executado em praça pública, pelo eleito da vingança social. O morador do joelho recém-operado culpou a presença de um shopping-metrô pela ameaça que hoje ronda sua casa. “Moro aqui desde os doze anos. Desde que instalaram esse shopping, a molecada começou a roubar”, determinou, referindo-se aos moleques que geralmente ficam do lado de fora das lojas.

Num momento de respiro, abatidos pela situação, os vizinhos todos se entreolharam. Esperavam a polícia chegar, e Miriam saiu da casa em que se recuperava para subir a seu apartamento, ao lado da amiga e muito sangrenta e encolhida. As pessoas olharam curiosas, perguntaram se estava tudo bem, disseram palavras de consolo, como “fica com Deus”. Ela insistiu que sim, estava bem, e foi ao sétimo andar, para limpar os ferimentos na cabeça e procurar outros machucados no espelho. A amiga seguiu junto, muito séria e inconformada. O pequeno aglomerado lamentou, lamentou sinceramente o estado da vítima, e alguns reclamaram da demora da polícia. A merda estava feita, era preciso registrá-la. Por sorte de Deus ou do Acaso estava tudo bem. “Essa aí nasceu de novo”, ouviu-se no meio do burburinho minguante, “ele tinha tudo pra atirar…”, cogitou-se. Com alívio.

A polícia finalmente veio em duas viaturas, no momento em que a vítima se arrumava em casa. Quatro policiais desembarcaram e fincaram posições diante da vizinhança, indiferentes à comoção pública e sem muitas palavras. Ouviram os relatos, apenas. Do interior de uma das viaturas, a rádio-patrulha falava de um carro suspeito visto numa adjacência próxima e que havia entrado na maior avenida das redondezas. O policial aumentou o volume de propósito. Dois vizinhos revezaram-se para contar suas versões —aquele que era da opinião do condomínio fechado e o outro que levantava suspeitas sobre os frequentadores do shopping-metrô. A maior parte das pessoas não fez questão de cumprimentar os homens da lei, exceto por um rapaz que chegou depois de todos dando as mãos aos fardados.

Vista da esquina, a presença da polícia era prática, quase técnica. A solução para as inseguranças do bairro — e essa era uma ideia que se formava, sem que ninguém prestasse atenção nisso — devia vir de cada um dos moradores. Cada um por si. Essa noção crescia na medida em que eles se dissipavam e retornavam sozinhos às televisões e aos afazeres domésticos, com a questão da segurança reavivada na cabeça. E agora, laminar os muros? Gradear as janelas? Fazer mais o quê, depois de já ter contratado os motoqueiros? Parecia que bastava, mas um deles foi incapaz de impedir a violência contra uma moradora e sequer anotou a placa do carro do fugitivo.

Com uma toalha amarrada em volta da cabeça e roupa nova, limpa do sangue, Miriam atravessou a portaria ao lado de sua amiga e elas entraram num carro, dirigido pelo marido da segunda mulher. Os três ainda ouviram as últimas considerações dos vizinhos preocupados. Uma dona de casa checou se a vítima carregava o cartão do plano de saúde. Ela disse que sim. O motorista fez um sinal positivo com a cabeça e ligou o automóvel, sem dizer nada. Estava obstinado para chegar ao hospital. Ninguém quis fazer um boletim de ocorrência, nem a polícia insistiu. O homem do joelho operado desculpou-se de novo, desta vez diretamente para a vítima. Disse que não tinha ajudado mais porque sua perna não estava boa.

¤ Foto por Olívia Fuchs
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4 Comentários

  1. cirillo7 said,

    Sim, por favor! Vamos conversar sobre isso na semana que vem, a minha mãe provavelmente gostará de participar.

    UJm abraço,Gisela!

  2. Gizi said,

    Com certeza! Já estou por aqui. Vc quer vir conhecer o CREN? Vou deixar um cartão na tua casa e vc me liga para combinarmos, ok? quem sabe tua mãe não vem junto também?

    abs e FELIZ 2012!!!

  3. cirillo7 said,

    Obrigado, Gisela!

    Como posso ajudá-la com o Cren? Combinemos um encontro?

    Um abraço.

  4. Gisela said,

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