LIÇÕES RODRIGUEANAS

outubro 5, 2011 at 2:50 (Filosofia, Jornalismo)

Pondé bate, mas elas gostam de apanhar

Em novembro passado, cinco alunos do curso de Publicidade & Propaganda apresentavam o último trabalho de Semiótica, numa universidade conhecida por cobrar altos preços, em São Paulo. A exibição de slides num painel branco os auxiliava na abordagem do tema, enquanto o professor da turma os avaliava de um assento na primeira fileira. Luiz Felipe Pondé tomava notas em alemão.

Vestindo roupas de grife, um estudante japonês inicia a palestra com jeito de quem decorou cada linha do pedaço de papel que aperta nas mãos. Ele se esforça para concatenar ideias sobre o assunto — a organização do crime em redes —, mas tropeça no nome do autor. “Segundo Manuel Cástells…”, pronuncia. A acentuação do “a”, em vez do “e”, chama a atenção do professor, que intervém de imediato: “Castells”, pontua.

Apesar do corretivo, pouco tempo depois, o estudante insiste no erro fonético: “Cástells acredita que…”. Novamente, com satisfação, Pondé o corrige. Um colega loiro, já inquieto, aproveita a brecha para colaborar: “castelos”, ele diz, criando um jogo de variações em cima do sobrenome do sociólogo espanhol. “O autor, Manuel Cástells…”, repete o aluno japonês; “Castells”, ajeita o professor; “castelos”, completa o colega loiro. E a ciranda vale nota.

Para encerrar a apresentação, depois de ouvir os cinco integrantes do grupo, o professor questiona dois deles sobre o tema. A avaliação falada é um dos seus métodos favoritos. Depois de anos dando aula, ele ainda se diverte com o desespero dos estudantes que não sabem o que responder. A intenção é provocar neles a sensação de medo e dificuldade, num exemplo prático do que é a vida cotidiana sob as amarras da condição humana. Para Pondé, “a prova oral é um instante formativo supremo”.

Numa manhã de segunda-feira, o filósofo chega da rua vestindo camisa social branca, calças jeans e tênis all stars verdes-musgo. Um grau de estrabismo marca o seu olhar, por trás de óculos que se assemelham, em forma e tamanho, às cavidades oculares. A sala do seu apartamento, num condomínio do Alto da Lapa, é decorada por imagens religiosas de todas as tradições. Símbolos judaicos, hinduístas e budistas ilustram as paredes e os móveis, exceto a mesa de centro, onde figura um livro-coletânea de capas da Folha de São Paulo. Num canto, uma vitrola embutida no móvel repleto de LP’s; noutro, uma cabeceira sobreposta por cinzeiro, cachimbo e dois isqueiros. O ar rescende a tabaco.

Da porta de entrada, uma figura alta, com cavanhaque aparado, indica: “À biblioteca”.

Nas prateleiras emparedadas do pequeno aposento, centenas de títulos dividem espaço com uns quadros de intelectuais famosos. Eles passam os dias observando a sala de leitura e de trabalho, com exceção de Platão, que vive admirando o mundo ideal. O perfume de tabaco exala mais intensamente na biblioteca de onde saem as colunas de Pondé. Neste momento, o primeiro texto de abril está em posse de aproximadamente 300 mil cidadãos, que ainda não terminaram o café da manhã e já se deparam com a afirmação de que o ser humano faz guerras porque, no fundo, gosta de matar. Com tais linhas, orgulhoso, o autor espera ver sua caixa de e-mails encher-se de comentários.

Atrás da escrivaninha, na qual repousa uma escultura em bronze de Dom Quixote, o colunista não separa o ato de se sentar com o de pegar no cachimbo. Tal vício, segundo diz, humaniza-o. “Desconfio muito de gente que não tem vício nenhum. O vício nos mostra como somos fracos”, afirma Pondé, que não também não confia em ninguém que se ache “do bem”. Salvar baleias e defender o vegetarianismo são práticas que o filósofo considera dignas de “inquisidores da Idade Moderna”.

Pondé chegou a estudar quatro anos de medicina, mas desistiu dos bisturis para se empenhar num tipo menos sangrento de autópsia. Em filosofia, a análise moralista cuida de dissecar a alma humana, como num estudo da anatomia do espírito. Nesse empreendimento pela compreensão do Homem — sem formular curas ou autoajuda —, o filósofo identificou-se com autores de linha cética e pessimista. Com a experiência de um emprego no necrotério e após horas infindas de terapia, Pondé atualmente se considera um homem trágico, medieval e “cada vez mais niilista”. Além disso, vive com três lhasa apso.

Entre uma cachimbada e outra, sempre a tragos calmos e pausados, o filósofo se delicia ao dizer que não existe respeito no amor. “Ninguém que ama respeita o parceiro, há sempre um grau de invasão”, vaticina. Para ele, que é casado há trinta anos com a mesma mulher, é puro marketing de comportamento o maridão contar aos amigos que respeita a esposa. Por outro lado, ele culpa a esquerda clássica dos anos ‘60 por ter contaminado a opinião das moças de hoje, levando-as a crer que o homem é sempre opressor, político e machista.

Entre as dezenas de livros empilhados na mesa da biblioteca, destacam-se dois títulos: “A vida como ela é” e “Mulheres gostam de apanhar”. Conterrâneos de Pernambuco, Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues dividem a opinião de que só as mulheres neuróticas reagem em face da brutalidade masculina.

Em colunas polêmicas, Pondé explora com linguagem afirmativa e enfática, às vezes em tom de confrontação, as conseqüências da emancipação feminina. Em outras palavras, explora como o ser fêmeo estragou tudo ao tomar alguns papéis que antes eram exclusivos do macho. Numa delas, “Restos à janela”, o colunista declara que está preocupado em ajudar o leitor (homem), alerta-o para mulheres peludas que desejam transformá-lo num eunuco e encerra dizendo que essas peludas, enganadas pela emancipação, “morrem à janela, contemplando o próprio reflexo”.

“Muitas mulheres investiram na carreira e ficaram sozinhas, com a cama vazia”, analisa Pondé, cavando o cachimbo numa boceta de couro (literalmente), onde guarda o tabaco. Para ele, não é um machista quem percebe que a conquista de direitos causou danos ao gênero oposto. “A emancipação feminina é um grande processo de desencaixe social”, diz. Seu argumento é conhecido: as meninas se tornaram excessivamente fálicas, enquanto os homens, diante do poder obtido pelo segundo sexo, ficaram demasiadamente inseguros.

“A minha fala é antes de tudo a fala de um cara que gosta de mulher. Só uma azeda não percebe isso”, afirma o filósofo, numa biblioteca enevoada. Leitoras azedas, contudo, não faltam para as colunas do filósofo. Nas palavras dele, a “maior parte” dos leitores que se manifestam são mulheres, e dessas remetentes a “maior parte” envia a Pondé e-mails “simpáticos e apaixonados”. Existe um coro crítico, no entanto, que eventualmente se rebela contra os textos do colunista. “O que move grande parte dessas feministas raivosas é o fato de elas serem mal amadas, e elas ficam putas comigo porque eu digo isso a elas”, justifica ele, assoprando uma nuvem.

O filósofo está para escrever uma coluna sobre o que ganharam os homens com a emancipação feminina. Não é sem pesar que ele relembra o tempo em que as universidades e empresas só tinham membros do sexo masculino. Felizmente, quando as mulheres decidiram colocar seu metafórico órgão fálico sobre a mesa da sociedade, a coisa mudou — e para melhor. “Elas são suaves, macias, cheirosas, gostosas, perfumadas. As mulheres no ambiente de trabalho são uma delícia”, elogia Pondé.

Suas “leitoras azedas” diriam que tal opinião é machista, porque considera apenas os aspectos estéticos das mulheres. Muito embora o filósofo acredite que tratá-las como objeto seja “uma das formas mais profundas de amor” — como deixou claro numa das mais recentes colunas —, Pondé sustenta a ideia de que a capacidade intelectual é a mesma entre os gêneros. Suas cachimbadas, apesar de densas, são sempre comedidas.

Anúncios

1 Comentário

  1. Kleberson M. said,

    Está aí, um texto, uma narração, uma crônica de sacudir o bambuzal. Machos entre putas. Desculpa, é pura falacia. Muito bom! Parabéns cara pálida!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: