ELIANE BRUM E SEU JORNALISMO

junho 1, 2011 at 2:07 (Crônica, Jornalismo)

As lições de uma repórter em ascensão literária

Gaúcha, lá de Ijuí, a moça morena e ansiosa que sobe ao palco tornara-se uma jornalista respeitável e muito respeitada, nas últimas duas décadas. Quem a vê em discurso não imagina que Eliane Brum já passou dos quarenta. A postura e o fôlego da escritora de não-ficção, convidada para falar do ofício num congresso, fazem-na parecer mais jovem.

Quando se entregou ao jornalismo, tinha 26. Trabalhava para o jornal Zero Hora, publicação conhecida no Brasil inteiro, mas circulante apenas no Rio Grande do Sul. Linguagem rica e diferenciada, principalmente nas capas — pelo que se diz em São Paulo —, a ousadia do jornal foi levada a cabo por Eliane B., que do diário partiu para a revista Época, onde escrevia histórias diversas, todas jornalísticas. Entretanto, histórias repletas de literatura, como se fossem de ficção, mas fieis à realidade: sem invenções, como se faz nas reportagens.

“Eu sou o que me chamarem”, diz ela, em resposta ao mediador do debate, que perguntou se Eliane B. se considera uma jornalista-escritora. O rótulo foi usado pelos organizadores do encontro para intitulá-lo. Os jornalistas(-escritores) Juca Kfouri e Moacir Japiassu completam a meia-lua no palco, sentados em poltronas giratórias. Certa Mega Brasil, que promoveu o evento, conseguiu atrair grandes nomes da profissão. Somente Ziraldo não viera, no primeiro dos dois dias de palestras. O auditório está meio cheio nesta manhã de quinta-feira, 26 de maio, e Eliane B. parece muito ansiosa. Ela finca o salto-alto no chão e faz movimentos repetitivos, com força. Sob o calcanhar dela, o chão deve ranger.

Entrementes na carreira, Eliane B. publicou três livros. O quarto deve sair no final de junho, se acontecer como ela diz. Chamar-se-á “Uma duas”, sobre a relação de uma mãe com sua filha — a autora não dá muitos detalhes. “A vida é caos. Minha busca é pelo entendimento de como as pessoas lidam com ela”, afirma. Quando entrevista alguém, a repórter não costuma fazer muitas perguntas. Tem prestado atenção nisso. Acha que fazer perguntas é “uma forma de controle”.

Eliane B. é do tipo de jornalista que atenta para o gestual das pessoas. Os gestos, para ela, valem tanto quanto as palavras. Em sessões de entrevista, a repórter usa dois gravadores e um bloco. “Eu sou uma ‘escutadeira’ do outro”, explica. E diz que sofre para escrever, mas não tanto quanto os outros dois convidados do evento afirmam sofrer.

Quem a ouve deduz que Eliane B., quando vai fazer uma entrevista, fica calada diante da pessoa, com muita atenção e silêncio. Deve falar somente quando é indispensável e economizar os próprios gestos. Certa vez, uma “fonte” achou que a vida da jornalista era ouvir suas histórias. Em boa parte, a vida de Eliane B. é escutar os outros, como ela mesma diz. Mas de modo severo, como se respondesse agora àquela “fonte”, a repórter pontua que tem família e vida pessoal.

Acostumada a fazer longas reportagens, em formato de revista ou livro, Eliane B. dedica semanas e meses às pessoas sobre quem escreve. Nesses períodos, “esvazia-se”, como diz, para ser preenchida pela realidade que observa. “Antes de ir para o papel, a reportagem se escreve dentro de mim”, afirma.

Filha de professores e pertencente à segunda geração alfabetizada da família, Eliane B. um dia quis escrever sobre as conseqüências de um movimento comunista, a Coluna Prestes. Fez um livro sobre o “povo do caminho”, gente que se interpôs à jornada de Luís Carlos Prestes, na década de ’20. Mais especificamente, trata-se de um livro-reportagem baseado em histórias de cidadãos que viram suas províncias serem invadidas pelo grupo nômade e ideológico de Prestes. Estupro e violência marcaram a caminhada daqueles soldados, como atesta Eliane B., que reportou os acontecimentos quando ainda trabalhava para o jornal Zero Hora. O editor chefe do diário, naquele tempo, era Augusto Nunes.

Parcialmente cheio, o auditório do Centro de Convenções Rebouças —onde estamos — dá risadas, quando Eliane B. conta: “Ele me pediu para escrever sobre a Família Real. Eu disse: Desculpe, Augusto, mas meu sonho é escrever sobre a Coluna Prestes”. O editor, presente na platéia, a encorajou. Daí resultou “Coluna Prestes – O avesso da lenda”, publicado em 1994.

Antes das 11h30, Eliane B. continua a pressionar e girar o salto-alto contra o chão. Por um momento, ela para. Deixa os pés suspensos enquanto relata seu primeiro sucesso na vida de repórter. Juca Kfouri, Moacir Japiassu e o resto dos presentes (estudantes, a maior parte) escutam-na com atenção.

Ainda na universidade, Eliane B. escrevera uma matéria sobre filas (assim, “filas”), que fora levada a um concurso. Na bancada de avaliação, havia jornalistas e publicitários. Os jornalistas julgavam que o texto era literário, enquanto os publicitários diziam que se tratava de uma reportagem. “Como tinham mais publicitários que jornalistas, eu venci”, concluiu a moça. Mais uma vez, igual acontece em jornais e revistas, a publicidade sustentou o jornalismo.

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1 Comentário

  1. pioi said,

    Oh la la!!!

    Enchanteé avec vous!!!
    Belo blog, e adoray seus posts, o mundo precisa de informações bem ricas e de um jornalismo mais competente. A minha longa temporada na Europa só me permitiu falar de prêt-à-porter, unhas e champagnes. Mas agora que vivo no Brasil e estou conhecendo a cultura de um estado chamado Piauí, agora falo de Piauí e com muita graça e humor negro (como meus vestido Gucci)!
    Convido você a visitar meu blog, ler minhas críticas e comentar!
    Au revoir!
    ass. Margareth Silva

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