NOSSO MONSTRO

abril 10, 2011 at 19:52 (Ensaios & Reflexões)

Dentro de nós existe um monstro que vive tentado escapar, mas impusemos amarras a ele. Suas formas e aparências são diárias: manifestam-se na inveja, no ressentimento, no sexo bruto. E também nas risadas, gulodices e trapaças cotidianas, o subconsciente tem olhos inquietos e desejos vorazes. Em dois mil anos, o cristianismo nos ensinara a reprimir a criatura, reconhecendo que ela nos vem desde o nascimento. O pecado nos habita, irremediável, e nós sabemos ocultá-lo, pelo menos na maior parte do tempo. Vivemos a reter o emergir monstruoso.

Mas o monstro ruge em nós, seres largados numa imensidão sem sentido ou plenitude, um vasto mundo de condenados à própria liberdade. De vez em quando, a moral falha e culmina-se em desprezos crueldades. Nesses casos, a ética ocidental, tão respeitada, prova-se questão de ponto de vista, um sermão ignorável, ainda que tenha qualquer coisa de heroico.

Civilização, cultura, bons costumes: tentamos ocultar a verdade que nos é intragável: instintos dominam a nossa existência, e os reprimimos por medo. Um falso sentimento de preservação da espécie aponta sua espada contra a besta interior. O espírito da classe média invade as entranhas do monstro e o pinta de bípede escrupuloso diante de uma mesa de jantar.

Temos a capacidade intrínseca de agir como domadores de circo. Por toda a cidade, erguemos tendas coloridas e confortáveis, decoramos o ambiente, aprendemos a nos sentar lado a lado, organizadamente. Os cobradores são meticulosos na entrada, dividem os bilhetes numerados e contam os cheques. Agora, é de bom tom que todos, público e artistas, estralemos o chicote sobre as costas da fera anfíbia, que não devemos aceitar em nós.

Tão belos trapézios! Tão doces pipocas! A criatura tem que se ajoelhar diante das crianças, que riem grotescamente do palhaço, que se desmancha em lágrimas, cansado de saber que o riso também é uma forma de brutalidade.

Kafka viu-se metamorfoseado em um inseto, o que levou muita gente no mundo a se compreender melhor. Alguns autores de hoje, figurantes no topo das listas mercantis, vendem vampiros como heróis.  A juventude que os lê — e sonha em ser seus personagens — deveria saber que as criaturas descritas são invencíveis demais, superiores demais. Além de tudo, representam ideais inalcançáveis. O monstro humano é mais frágil, mais inseto. Embora vil e furioso, envelhece, definha e morre.

Pense nas vezes em que o ciúme vem a público, quando um casal se humilha. O homem chega e vê a mulher falando com outro no bar. Esquenta a cabeça e vai em direção a ela, furioso, condenatório. Logo três caras que estão na outra mesa reparam no começo de briga; o resto do recinto não demora a perceber que a confusão vai começar. Neste momento, o homem enfurecido já não pensa no que diz e grita como um animal raivoso. O monstro dá as caras.

Os casais vizinhos, certos de que suas criaturas próprias estão por ora adormecidas, fazem cara de que aquilo, a fúria alheia, não lhes diz respeito. A moça bonita disfarça teclando um telefone móvel, daqueles mais multifuncionais. O seu acompanhante, depois de averiguar a bunda da mulher que briga, lamenta com um estalo de lábios o incidente infeliz. Mas ele compreende, sabe que o monstro está ali, e o aceita, achando tudo razoavelmente tragável.

A fera nos observa, educada e atenta, cada mal entendido é uma desculpa, uma válvula que nos permite libertá-la parcialmente. E vamos vivendo, numa tentativa constante de domar o bicho pessoal, com pretendidas boas maneiras, gentilezas e autoengano. Hora ou outra, porém, redescobrimos que o monstro em nós é de uma natureza incurável.

↑ Foto de Olívia Fuchs
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2 Comentários

  1. Fernando Vieira said,

    A Olivia tem razão o monstro vive em nós. Domesticá-lo naquilo que tem de mais agressivo e medonho com uma educação adequada é quase automático, se vc não é maluco. Dominar a agressividade disfarçada do nosso eu, manifesta nas condutas machistas, racistas, homofóbicas, na atuação motivada pela inveja e etc, revela-se como tarefa árdua a ser assumida por cada um ao longo da vida. Tarefa árdua por necessitar durante anos de nossa atenção e recapitulação de comportamentos: lapidá-los e com humildade refazer os caminhos, é tarefa que todos devemos assumir como premissa básica, não para se transformar em alguém perfeito e sim com o objetivo de ser feliz e justo. Não é tarefa para religiões, considero mesmo algo que cheira a covardia colocar -se debaixo de algum dogma para se transformar em alguém melhor. Se é para ter um dogma nos guiando, que seja a força, ou seja, o único dogma que não diminui sua responsabilidade em domesticar seu monstro, a cultura Jedi, que faz com o tempo esse exercício se tornar leve. Mesmo sem “midclorians” o caminho da força ´´e reto e nos leva sempre a buscar ser uma pessoa melhor.
    “Religião Jedi é uma forma lírica de se dizer ateu!”
    Felicidades e progresso!

  2. Olívia said,

    É, o monstro vive em nós. Alguns chama-no de Ego, outros de natureza humana… Mas, como todo ser dúbio, também possuímos o “anti-monstro”, que cada vez que o lado sombrio não manifesta-se ele tem a oportunidade de emergir, mostrando um lado do Ser que faz com que não desistamos de tudo.

    Somos todos monstros e anti-monstros, luz e sombra, preto e branco.

    Parabéns meu querido pelo seu olhar sobre o mundo. Você possui uma sensibilidade sobre as coisas que é linda!

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