HOJE TEM FESTA EM CASA

janeiro 23, 2011 at 16:40 (Jornalismo)

Baladas paulistanas apostam em fachada caseira e estrutura residencial para atrair jovens, que não precisam mais esperar seus pais viajarem para dançar na sala

A Casa 92 é uma balada. Não é sem efeito que ela se localiza no número 92 de uma rua no Largo da Batata, região tradicional de Pinheiros, na zona oeste da capital de São Paulo. Uma vez lá, quem a freqüenta deve mesmo sentir-se em casa. Dançam na sala, comem e bebem na cozinha e, sem o silêncio típico das residências à noite, conversam em grupo na varanda. O ambiente é intimista e se parece com o de festas realizadas em lares onde vivem jovens da classe média alta paulistana, durante a ausência dos pais.

“A casa era de imigrantes japoneses que mudaram para o bairro na década de 1950. Eles vendiam batatas, o marido faleceu no ano passado e a mulher botou a casa para alugar. Nós a alugamos e depois descobrimos que, por coincidência, o avô de um dos meus sócios foi quem havia a construído”, contou o idealizador do projeto, Fernando Sommer, 47.

Em novembro de 2009, ele teve a idéia de transformar a residência em um clube noturno “diferenciado”, algo como uma casa-balada. Para participar da empreitada, associou-se a Fernando Autran e Caio Simões. O trio de sócios inaugurou o espaço em abril deste ano, cabendo a Sommer – formado em arquitetura e marketing –, cuidar da gestão de imagem, curadoria e divulgação do projeto.

Passados dez meses da inauguração, segundo o empresário, a Casa 92 é atualmente freqüentada por um público de 500 a 600 jovens por noite de quinta-feira, sexta ou sábado. “A única coisa que impede a entrada é a lotação”, afirmou.

Os freqüentadores dispõem de uma mansão dividida em 12 ambientes: os aposentos foram decorados por arquitetos e artistas convidados. Há lugar de visitas, bar externo e até lareira. Uma chef elaborou o cardápio da cozinha, que é decorada de modo a lembrar um aposento da primeira metade do século 20.

“Eu quis fazer algo que se aproximasse do cliente, com bons serviços e empatia no atendimento, uma coisa mais humana e simpática”, explicou Sommer. Para ele, as pessoas se sentem à vontade na casa-balada porque o local oferece a sensação de igualdade e familiaridade.

O empresário rejeita o tratamento impessoal, comum às baladas paulistanas médio-altas. “Não tem área VIP, não tem pulseirinha: Todo mundo é considerado igual na Casa 92. As meninas deixam as bolsas no sofá e vão dançar, quando voltam, as bolsas ainda estão lá. As pessoas se sentem confortáveis e seguras.”

A estudante Renata Rafael, que se gradua em Comunicação Social, foi atraída pelo conforto. “Nessas baladas que parecem casas você pode se movimentar mais, por causa de todos os ambientes. É aberto, tem um clima mais familiar”, disse ela. “Em uma balada normal, parece que você está dentro de uma caixa fechada”, criticou.

Além de ir à Casa 92, a universitária também freqüenta outro lugar com estilo semelhante, o Neu Club, que está no bairro residencial de Água Branca, na região da Barra Funda, também na zona oeste de São Paulo. Apesar da fachada caseira e do movimento à la festa em casa, um segurança atestou na entrada do lugar: “Isso é uma balada, com alvará de balada”.

Mas adentrado o espaço, o que se vê é um corredor externo cheio de jovens. Nos fundos, funciona um bar sob a varanda na laje. Na área interna, a pista de dança é a sala de estar de uma antiga residência, decorada com lustres coloniais, quadros e uma escada de madeira velha. Apesar dos aspectos, Neu (lê-se “nói”) significa “novo” em alemão.

A balada foi aberta pelo jornalista Dagoberto Donato, em companhia de sócios, após ele ter adquirido experiência na administração de outro clube noturno, também considerado “alternativo” – o Milo Garage, em Higienópolis, na região central da cidade.

“Parece um ambiente privativo, onde todo mundo aparenta se conhecer, mesmo que não se conheça. É mais intimista”, caracterizou o estudante de Publicidade e Propaganda, Ítalo Balbino, que freqüenta a Neu Club desde a inauguração, em 2008.

O universitário realçou a importância do diálogo em lugares como esse. Nas baladas convencionais, as conversas ficam em segundo plano, em conseqüência da música alta. Segundo ele, o estilo residencial “favorece o diálogo, porque em uma casa-balada a sensação não é o DJ, o som ou a iluminação, mas sim as pessoas”.

Tanto na Neu Club quanto na Casa 92, a música varia de MPB e pop mundial até black e rap, entre vertentes menos comuns. No caso do segundo clube, a música eletrônica é banida pelos proprietários. Para quem faz parte da onda eletrônica, uma sugestão de casa-balada é a Freaks House, que funciona no Ipiranga, na zona sul da capital.

No espaço – uma mansão antiga e desgastada –, DJs tocam exclusivamente e-music – da pesada. A música repercute por aposentos intrincados, como um porão pouco iluminado e uma varanda elevada de difícil acesso – a escada que leva ao piso superior externo é interrompida por um buraco. Na “casa maluca”, como os freqüentadores a chamam, o público dançante costuma gritar coisas como “Quero parar, mas não consigo!” e “Vai, vai, vai que vai!”.

¤ 1 -Olhar do fotógrafo Igor Leão sobre a Casa 92
¤ 2 – A cozinha da balada remonta a meados do século passado
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