O MINGUAR DA AUDIÊNCIA

janeiro 15, 2011 at 3:14 (Crônica, Jornalismo)

O auditório da Faculdade de Tecnologia (Fatec), na Avenida Tiradentes, estava repleto de comerciantes descontentes, no fim de tarde desta sexta-feira chuvosa. Eles se manifestavam contra o projeto Nova Luz, idealizado pela Prefeitura de São Paulo e cuja implantação ameaça seus negócios. Vindos da Santa Ifigênia, uma área comercial que gira ao redor da rua homônima, os manifestantes tinham acabado de sair de uma passeata contra a execução do projeto. Alguns deles levavam consigo apitos e narizes de palhaço.

As quatro empresas do consórcio Nova Luz e a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Urbano esperavam que pouca gente fosse aparecer. Portanto, reservaram um auditório com espaço para 300 pessoas. Infelizmente para eles, a passeata dos comerciantes, marcada para o mesmo dia, tivera êxito a algumas quadras dali. Após horas de comoção pública, o protesto seguira em direção à Fatec e boa parte da manifestação não pôde entrar.

De portões fechados, às 19h, entraram no evento somente aqueles que chegaram até o horário combinado. Talvez 50 ou cem pessoas tenham ficado para fora, criando uma atmosfera de indignação. Afinal, a audiência devia ser pública.

Eis o motivo da importância e paixão do evento: O discurso oficial diz que o projeto Nova Luz irá revitalizar 45 quarteirões da zona central de São Paulo, inclusive em boa parte da Santa Ifigênia, cujos comerciantes torcem o nariz para o discurso oficial. Para eles, a razão do projeto é atender a interesses de empreiteiras – o que justifica o cartaz que estava pendurado no portão de entrada da Fatec, no qual se lia: “Não à especulação imobiliária”.

Logo no início do encontro, entre os supostos especuladores e o batalhão de vendedores agitados pelo medo de perderem suas lojas, o clima era de animosidade, por parte do segundo time. Como é futebol a vida brasileira, principalmente numa sexta-feira de Nosso Senhor, os comerciantes ressoavam rimas, em coletivo, por toda a sala, um auditório já abarrotado e quente da Fatec.

“A Santa unida jamais será vencida”, trovoavam eles, classicamente. “A Santa é nossa”, resumiam. Por fim, sendo que todo filho tem um pai, os comerciantes voltaram-se contra o atual patriarca da capital paulista: “Não é mole, não! O Kassab quer roubar o nosso pão!”. Apesar das manifestações endereçadas, os gritantes não gostaram quando um deles perdeu a educação. Num intervalo da berraria, uma voz de homem aproveitou o breve silêncio, depois de o coro calar, para dar a sua opinião íntima sobre o prefeito: “Êi, Kas-sa-bi, vai tomar no cú!”, gritou. Mas ninguém gostou disso, e todos calaram mais ainda, porque havia certa cidadania no ar, uma consciência social em desenvolvimento.

As portas de acesso do auditório permaneciam completamente cheias, inviáveis como o resto do aposento. Um telão sobre o palco revelava a amplitude que a coisa havia tomado. Alguns comerciantes mais eufóricos passavam gritando pelas duas entradas da sala: “Tem gente lá fora ainda!”; “É uma audiência pública, gente!”; “Cadê a imprensa, cadê?!”. Uma fotógrafa foi retirada da sala por um senhor manifestante. Já grisalho, ele demonstrou a fúria de um militante da extrema-esquerda ao puxá-la e levá-la para os portões da faculdade, onde ela deveria fotografar a situação dos que ficaram do outro lado do portão. Mais do que registrar sorrisos, a portadora da máquina precisava aderir à causa.

Foi por essa altura, após 40 minutos de omissão dos organizadores da audiência pública, que se começou a falar em cancelamento. A ideia surgiu tímida, veio da boca de algum visionário reservado. Bastou que se espalhasse pela plateia para se tornar uma possibilidade. Em pouco tempo, era mote generalizado: “Cancela! Cancela!”, repetia a maioria dos presentes. Cada nova cantoria era reforçada por uma retaguarda de apitos e gritos indistinguíveis. E o novo canto determinava: Se ninguém entra, todos saem e o papo fica para outro dia. Assim esquentava o auditório da Fatec, em temperatura e emoções, com a diferença que o clamor popular tem subidas e descidas, enquanto o calor de transpirar só sobe.

A quase 40ºC e vítimas de uma insistente omissão dos realizadores da audiência pública, os convivas, apertados nas cadeiras e cantos do auditório, provavam-se inofensivos. Talvez essa aparência do coletivo tenha estimulado o secretário municipal do Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, a finalmente dar as caras no palco.

O nomeado para os assuntos urbanísticos da cidade sentou-se atrás de um balcão – no qual, esperávamos, sentar-se-iam também outros representantes do projeto Nova Luz – e pôs-se a falar ao microfone. Na mesma hora, ao meu lado, um manifestante tatuado rescendendo à cachaça comentou: “E a gente ainda tem que vê a cara do fio da puta que ta enganando nóis”.

Em seguida, o secretário pronunciou-se: “As audiências públicas são feitas quando os projetos estão quase finalizados […], mas para este projeto decidimos fazer uma no meio do processo”. À fala dele, o público reagiu com modos impacientes – um homem nas fileiras do meio deu pulos e gesticulou violentamente com o braço. Nervoso, talvez irritado, Bucalem explicou a todos que a Polícia Militar considerava inadequadas as condições de segurança do evento, levando os organizadores à decisão de cancelá-lo.

Ninguém ou quase ninguém dali trabalhou durante o período vespertino desta sexta-feira. Houvessem trabalhado, de qualquer maneira, teria sido nos arredores da Rua Santa Ifigênia, a cerca de apenas um quilômetro da Fatec. Em função disso, todos demonstraram satisfação pelo cancelamento da audiência pública, não se importando com o fato de que um dia terão de ir a outro lugar para dialogar com os representantes do projeto municipal.

As audiências públicas não foram feitas para sextas-feiras. Ao pôr do Sol, os vendedores da Santa Ifigênia desejavam apenas voltar para casa, onde poderiam assistir à televisão, comer, beber e (quem sabe?) fazer sexo. Mais importante do que isso, para eles, será acordar no sábado sabendo que na segunda-feira o comércio continua.

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2 Comentários

  1. cirillo7 said,

    Cara Alessandra, antes de responder ao seu comentário, devo assumir algo: sou favorável aos comerciantes. Tenho convicção de que as maiorias, geralmente prejudicadas pelas minorias, merecem mais do que têm e por isso devem lutar. No caso dos trabalhadores da Santa Ifigênia, eles apresentaram um comportamento exemplar na tarde daquela sexta-feira, em grupo, unidos por um ideal – há coisa mais bonita de se ver em uma democracia?

    Agora, o que você deve entender, ao ler este texto, é que não se trata de uma reportagem ou opinião. Apenas estive lá e anotei minhas impressões. Se a audiência pública tivesse vingado, eu provavelmente faria uma matéria relatando tudo de modo jornalísico, sem citar personagens que queriam aproveitar o final de semana ou o comerciante que, de fato, estava alcoolizado ao meu lado.

    É uma crônica o que você leu. As crônicas tendem a registrar impressões e reflexões sobre fatos cotidianos. Desculpe-me se a mensagem foi vista como você a viu. Creio que o nosso prefeito, o senhor Kassab, seja um político altamente conservador e elitista. Sinto repulsa por qualquer representante que pretenda favorecer a empreiteiras, que são as grandes vilãs da história do projeto Nova Luz.

    Torço pelos comerciantes da Santa Ifigênia, pois apoio os direitos da população e as manifestações sociais.

    Atenciosamente,
    Bruno Cirillo.

  2. alessandra said,

    Eu estou impressionada com esta materia que acabei de ler,se vc se acha tao entendido desse assunto a ponto de julgar essa pessoas que fizeram parte desta passeata que julga terem ido atras de bagunça,vc deve estar bem enganado pois vc esta o tempo todo desmerecendo essa pessoas como se fossem drogados e bebados de rua ,dentro dessas pessoas haviam empresarios que fecharam suas portas e foram atras de justiça ,pessoas que sairam debaixo de um temporal,pessoas que estao naquelas rua ha mais de 50 anos e com todos os seus impostos em dia ,pessoas serias e respeitadas,pessoas que acordam cedo todas as manhas para um trabalho honesto e digno e nao para serem traficantes ou que usam crack pois vcs chamam o centro de cracolandia ,generalizando todos ,se vc estivesse tao preocupado com isso tudo deveria ter escrito uma materia do seu dignissimo prefeito dizendo que esses craqueiros estao ali abandonados e que deveriam estar em uma clinica fazendo um tratamento digno,e nao estar julgando pessoas que sairam atras de justiça ,atras de seu suor que foi feito durante anos,para ser desvalorizado do jeito que esta sendo por preço de banana e ser vendido a preço de ouro para bancar a campanha de nossos politicos ,alias vc nao deve ser um pessoa tao digna a ter esse espaço para julgar que em uma sexta feira seria bom esses vendedores sairem mais cedo de seu trabalho e irem para casa comer, beber e bla bla bla e ate fazerem sexo ,desculpe me mais vc nao tem moral ha nada meu querido ou minha querida ,tente procurar saber mais do asssunto seu troxa para depois fazer os seus comentarios banais e imundos e outra coisa quem sabe vc nao ganha um pontinho com o nosso dignissimo prefeito.

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