ESBOÇO PARA UM MANIFESTO DA DESOBEDIÊNCIA

janeiro 13, 2011 at 18:11 (Ensaios & Reflexões)

As velhas gerações não raro dizem que nós, das novas, não temos obediência. Quando nos aflora a natureza do ser, em certos comportamentos ou atitudes, a sociedade que se julga amadurecida afirma que somos desobedientes. Desobedecer é agir disforme à regra, contestar valores, questionar verdades e contrariar costumes e rígidas posturas. A desobediência é como a arte: a boa arte deve se livrar das determinações sociais, enfrentando-as ou as ignorando em nome da criação. O artista, cujo maior assassino é a escola, que impõe a convenção da obediência, ele é como a criança.

Algumas noites, algum vizinho apedreja o telhado da casa onde moro. Sabemos do apedrejamento, eu e a minha família, porque ouvimos os ploques que fazem as pedras quando batem nas telhas. Talvez o objetivo de quem as taca seja atingir uma longa placa de vidro que protege o corredor de entrada da casa, para estilhaçá-la. Talvez ele esteja apenas tentando destruir a janela do carro que fica estacionado na garagem, não muito distante da cobertura de vidro. Mirando casa ou carro, vidro ou telha, o que conta é que somos eventualmente atacados por um vizinho desconhecido. Ele se esconde em uma das residências que se edificam, uma sobre a outra, no prédio ao lado. O oculto vizinho deve ser um desobediente, pois tacar pedregulhos na vizinhança é um ato que foge aos bons costumes.

Se tivermos algo de semelhante, eu, errado aos olhos do meu pai, e ele, torto para o senso comum, é a desobediência. Porém, nos assuntos do lar, apesar de algumas noites ouvirmos os pedregulhos atingindo a nossa janela, o desobediente, para os meus pais, sou somente eu.

Um jovem pode ser considerado desobediente por diversos motivos, dentre os quais destacam-se: travessuras, na infância; bebidas, cigarros e drogas, na adolescência; e traições, durante o noivado. Mas é um ledo engano pensar que só os excessos cotidianos componham um pretendido manifesto da desobediência.

Rememore-se que tenha sido com muita coragem e rebeldia que Geraldo Vandré falara nas flores, antes de ser desterrado do Brasil. Vinicius de Moraes, levadamente, pregara o amor por toda a sua vida – propondo que fosse a paixão a força suprema, superior a qualquer ordem. Ao anexar uma roda de bicicleta sobre um banquinho de quatro pés, Marcel Duchamp provara-se um desobediente contumaz. Quando Salvador Dalí produzira o filme em que uma mulher corta a própria pálpebra, ele desobedeceu. Com uma lâmina, Van Gogh arrancara a própria orelha. Com uma mordida, Ozzy Osbourne desprendera a cabeça de um morcego no palco. Os ingleses do Pink Floyd compuseram uma obra histórica, The Wall, em nome da desobediência na escola. Um quase idoso Jean-Paul Sartre, enquanto filosofava sobre o existencialismo, passeara com os jovens parisienses a favor da revolução sexual e de costumes, em ‘68.

Os exemplos perpassam por toda forma de expressão: literatura, música, pintura, revoltas, movimentos populares e etc. A desobediência é um grito disparado em variados tons. Contra as gargantas que gritam e, principalmente, contra o barulho provocado pelo desobedecer, há aquilo que chamamos de educação.

Ao mesmo tempo em que pais tentam se aproximar dos filhos, na mais sincera demonstração de amizade, amolecendo-os com a compra de brinquedos, tecnologias e outras quinquilharias, eles os reprimem, podando o lado mais libertário e inconseqüente das crianças e dos adolescentes. O que poderá resultar de uma geração que é educada para comprar e consumir, mas que também é educada para se comportar?

Comportar-se é caber dentro de algo, equivale a acomodar-se, como a água que cai em um recipiente e a ele se adéqua. Jovens bem comportados são fáceis de serem aliciados por interesses gananciosos, pois eles perdem gradualmente a capacidade de desobedecer. E uma juventude que obedece demais pode seguir ideias de menos, dentro de shopping centers, televisões e baladas.

↑ “Roda de Bicicleta” (1912), Marcel Duchamp
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