CARTA AO RESPEITÁVEL AMIGO

dezembro 24, 2010 at 22:31 (Literatura)

Respeitável amigo,

Tu que és uma muralha viva, erguida com o cimento da inteireza do ser, acabada por busto imponente e fala concisa; tu, que ao nascer do dia e durante a noite és o mesmo, inalterável, sólido; tu que afirmas, não dizes; desbravas, não descobres; tu que manténs permanentemente acesa a luz da Razão: É para ti esta carta natalina.

Eu bem sei e admiro o fato de que você se desfez dos sentimentos mais mundanos para elevar-se ao peso moral de que é digno todo homem. Transformou-se em samurai, além de ter-se posto feito um muro protetor sobre a beleza de uma mulher, que o segue, lhe serve e o sorve. Ama-o, enfim. Nos diálogos, é imbatível e convicto, um respeitabilíssimo amigo.

Incontestável, confia no dinheiro e em tudo que a liquidez possa proporcionar a um homem e sua mulher. É crente do mundo em que vivemos, acredita na terra de onde brotamos. Digo-lhe que essa terra é um berço sob o risco constante de se tornar uma má realidade; no que você me responde que esse berço é um berço de ouro muito seguro e acabado. Retruco-lhe que o berço é um leito de morte; e você diz a mim que sou cego, um cão limitado a seus próprios olfato e afobação.

Meu respeitável amigo, eu não pretendo com essas palavras ofender certezas nem erigir emoções ruins. Escrevo-lhe apenas para lhe dizer quão sincera é minha admiração por seus monumentais alicerces do espírito. Você acertou quando apontou a distância entre nossas integridades, na qual, disse depois, caberia um mar. Há, pois, um mar de noções divergentes, incompatíveis e fatais, na diferença entre nós; ondas contrapostas de pensamentos que se chocam, pensamentos tão originais, mas que distam entre si, certos de que são absolutos.

Quando sou levado a concordar com você, é porque ajo contrário a mim mesmo. Felizmente, a contrariedade é-me uma presença pacífica. Além do mais, há verdade e sabedoria nas coisas que você diz, exceto quando o assunto é o modo de vida em que cabemos. Nesse ponto somos Hitler e Stalin discutindo. Dois orgulhosos autoritários cheios de pretensão e imaturidade, ouso dizer. Você acusará a parte da imaturidade, mas insisto que sim, carregamo-a conosco – e não sou somente eu o imaturo, como você também acusará depois, irritado, sem mover as sobrancelhas. Cem anos não é suficiente para um homem amadurecer completamente, e tanto melhor, porque a fruta madura é a primeira a apodrecer.

Venho, por fim, comentar o que pretendia, antes que os outros comentários sejam demais e tomem o espaço do principal. Faço-lhe este importante apontamento na forma de uma pergunta:

Como pode você, amigo de respeito, das elevadas alturas intelectuais em que se santificou íntegro e soberano, como pode dizer, ao som de uma boa música, ao lado de boas mulheres e de uma enorme e fabulosa fotografia enquadrada, que homem não dança?

Vou falar-lhe sem rodeios, amigo respeitável, para que você guarde esse conselho como um presente de Natal, menos pretensioso do que os seus concorrentes, é certo, mas mais verdadeiro que a embalagem rasgada dos agrados familiares. O conteúdo dessa prenda que lhe dou é a sua própria embalagem, sem ornamentos ou outros disfarces para o interior do objeto. Aqui vão forma e conteúdo, unos: o homem que não dança vende por orgulho sua capacidade de mudar as coisas.

Certa vez, uma sábia socióloga baiana se referiu a uma colega de academia, que, durante o governo militar, dizia: “Não participo dessa revolução se não puder dançar”. Ela não é um homem, portanto – você permitirá –, poderia dançar à vontade. Porém, é prudente notar uma verdade. Se dançássemos mais, homens e mulheres, obrigaríamos o mundo a nos oferecer mais música, e menos paralisia.

Minha família acaba de chegar para a ceia de Natal. Aproveite  o jantar e mande lembranças aos pais!

Seu amigo,

C.

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