CERTA DOMESTICAÇÃO

outubro 30, 2010 at 19:50 (Ensaios & Reflexões)

Tratam as empregadas domésticas como se fossem de propriedade privada. Além disso, reclamam. “Empregada boa só existe nas novelas”, desdenham contratantes. A maneira como se referem às ditas trabalhadoras, em alguns lares das classes média e alta brasileiras, causa horror. Ora, consideremos então, para nos aprofundarmos no espanto, um dos espelhos das classes superiores: as telenovelas. Telenovelas apresentam donas-de-casa nobres ao lado de criadas participativas. Nas questões do lar e do amor, as empregadas conquistaram o direito da opinião, pelo menos nesse tipo de dramaturgia – basta reparar como elas dão conselhos amorosos às suas patroas, nem sempre fieis aos maridos, que as sustentam. Mas apesar da concessão às domésticas em cena,  a novela propaga uma realidade repleta de mordomia e luxo, ignorando que possivelmente dois terços da audiência pertençam às classes baixas; destes, mais do que a metade é púbico feminino; entre as mulheres economicamente desfavorecidas que assistem às novelas da Rede Globo, estão algumas que se sujeitam à faxina de salas e aposentos – que não são os de suas próprias casas.

Na vida real, é muito comum reclamarem da qualidade do trabalho executado por Maria, aquela invasora que a toda semana surge nas residências alheias para passar pano no pó que se acumula durante as refeições, nas trincheiras dos móveis e assoalhos. Condena-se que Maria se esqueça, às vezes, de desentupir a privada e, eventualmente, quebre louças. É um país latino, onde somente o que está escrito vale alguma coisa, o que leva a crer que a origem dos problemas com as empregadas domésticas está na ausência de uma formalização, um documento que determine o que pode e o que não pode ser feito dentro de uma casa que necessita da Maria para se manter clean.

Para o bem do entendimento mútuo entre patrões e empregados, indaga-se aqui: como estabelecer uma relação que vá além do mero contrato profissional? Tal contrato, no caso das domésticas, não estabelece muita coisa além da informalidade – não oficializa obrigações e deveres – e, logo, desconsidera, no papel, descuidos, acidentes e mal entendidos que possam ocorrer. Quando um chocolate é comido ou uma chave de entrada se perde, as acusações e injúrias recaem impiedosamente sobre a contratada. É um velho clichê no qual a empregada, ser estranho à família, sempre recebeu culpa em razão de desaparecimentos. Mas o que aconteceria se o pagamento dessas profissionais do lar fosse além das notas de dinheiro? A relação entre a família e a doméstica – duas partes de um contrato social – transformar-se-iam.

Isso aconteceria se contratantes incluíssem de fato a forasteira no círculo familiar, por exemplo, convidando-a eventualmente à mesa de jantar, tratando-a como se trata um agregado. Assim, Maria ver-se-ia livre do fardo de submeter-se apenas por obrigação à sujeira alheia, o que faz por motivos de sobrevivência. Passaria a empregada a agir por cooperação. O ofício tornar-se-ia justo em sua forma contratual, pois uma coisa é limpar o quarto de um estranho, outra é cuidar de algo que lhe tange, tal como um lar do qual também se faça parte, um ninho acolhedor – e não simplesmente uma casa maior e mais bem decorada que a sua própria. Não residiria aí uma espécie de intercâmbio entre classes, com potencial para reduzir a violência urbana e a incompreensão fundada na desigualdade social?

Mas, não. Empregada deve não se esquecer de recolher a última mosca sobre o lustre. E também deve ficar calada. Quando muito fala, a mulher pode incomodar seus “donos”, portadores da mais absoluta verdade democrática, protegidos pelo argumento de que também trabalham, motivo pelo qual conquistaram um digno lugar ao sol da propriedade e segurança. Na teledramaturgia brasileira, as empregadas usam roupas brancas, como as criadas européias, e muito compreendem a vida de gente acumuladora e bem resolvida. Conselheiras autênticas, elas ainda se concedem o direito de ensinar lições de amor às patroas, as protagonistas donas-de-casa, mulheres independentes que reservam para si, exclusivamente, os direitos da paixão, da alegria de “viver a vida” e da troca incontestável de maridos. No plano ideal da televisão, ao menos, as empregadas conquistaram o direito de opinar. Ainda falta a elas, contudo, conquistar o direito de não serem ignoradas,  subestimadas, rebaixadas ao nível do móvel que costumam esfregar com trapos em troca de salário.

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