SOB A LEI ANTIFUMO

outubro 14, 2010 at 7:49 (Análise & Crítica)

Quando comecei, não agüentava um inteiro e ia somente até a metade. Fazia careta já na primeira terça parte e dispensava-o ainda incompleto, desperdiçando-o. Ânsias e enjôos momentâneos eram comuns, mas as poses e os gestos elegantes compensavam o mal estar. Por certa vaidade, eu insistia, enquanto diziam que eu deveria parar de começar; não escondia que ia definitivamente desobedecê-los, e passei a enfrentá-los com a execução diária do ato. Era de manhã, à entrada da escola; de tarde, à saída das aulas; pela noite, às escondidas no banheiro de casa. Certa vez, fui pego fazendo aquilo na janela. Desesperei-me, escondi o crime, neguei-o até as últimas conseqüências. Mas pouco tempo depois o admiti. Éramos, enfim, cúmplices auto-declarados.

Alguns que praticavam o mesmo ato durante anos chamavam a si mesmos de “idiotas” e aconselhavam-me a não cair na besteira de imitá-los, de segui-los no exemplo, de ir longe demais. Caminho sem volta? Outros, que tinham parado, orgulhavam-se do momento final, daquela última tragada; eram os ‘ex’ orgulhosos, que foram adiante com o hábito e depois o boicotaram sem maiores conseqüências. Quanto a mim, que seguia consumando o fato de que seria um fumante inconseqüente, consumindo o produto dessa estirpe suspirosa, sem querer sacrificar um tangível presente em nome de um inapreensível futuro, eu já começava a pegar gosto pelo cigarro.

Se antes o conselho era cortar o mal pela raiz, como reza a sabedoria popular, hoje já não é mais desse modo que as dicas são proferidas. Dizem “pare!”, alertam-me para o câncer, que a cada ano mata mais, que está menos curável e crescentemente temível. Embora haja avanços na medicina, as doenças prevalecem e, portanto, deve-se evitá-las sem descanso. Dir-se-ia que a prevenção é a maior virtude do Homem. Cautelosos. O que diriam para um atropelado? – que não atravessasse a rua? A que aconselhariam um suicida? – que encontrasse a alegria do viver? Indicariam a um acéfalo que se esforçasse nos estudos para ampliar sua massa cerebral inexistente? A um piloto de avião caído, pediriam que largasse seu sonho de voar? Fosse um caso de doença rara, que o padecido se tornasse obrigatoriamente alguém sadio? Exigiriam, que vivesse mais dez anos, de quem fora incumbido de morrer aos 30 por “morte natural”? Ou ainda, rezariam pela ressurreição da vítima de um assassínio? Exigências descabidas, como as que se faz a um fumante. O dito cujo, que lhe acusam de ter elegido o próprio algoz, exerce seu livre e incontestável arbítrio na mais fina escolha: uma respiração profunda e densa, com cheiro, gosto e cor; movimentos leves, de leva-e-traz; emanação de fumaça e ar em uma mistura equilibrada e satisfatória, responsável por uma sensação inspiradora, prazerosa e – o melhor – cotidiana.

Há uma cultura de saúde e vida longa que, caso a sigam à risca e em massa, nos levará a uma ditadura dos bons costumes. Todos obrigados a viver longamente e bem, castradamente bem. O governo corrobora com a castidade: Fumar causa câncer, impotência, doenças cardiovasculares, tristeza, dor e sofrimento. O governo cobra altos impostos sobre a prerrogativa de que o fumo possa lhe custar leitos públicos de hospitais mal administrados. Paralelamente ao IPI (Imposto sobre Produto Industrializado), o mesmo governo agora proíbe seus contribuintes de fumarem em locais outrora marcados pela nicotina, como as casas noturnas e os bares. Imagino um segurança batendo nos ombros de Vinicius de Moraes, de quem ri Tom Jobim, em um boteco de Ipanema, mandando-lhe apagar o bastonete poético. Evidentemente, há uma preocupação com o ar dos que não fumam – é um direito atmosférico, o de respirar ar transparente. Ainda assim, em São Paulo, os não-fumantes convivem com o dever de tragar o monóxido de carbono assoprado pelos escapamentos, grandes fumantes automobilísticos.

Devemos então, nós, fumantes humanos, em nosso eterno suspiro, sermos condescendentes com o preconceito que nos abate durante as noitadas da capital? Podemos morrer de tudo: acidente, natureza e até cigarro. Mas precisamos mesmo viver sob a sombra de um julgamento disfarçado de cidadania? Escondam-se os cigarros, assopre-se a fumaça somente no ar livre; tenha-se vergonha de fumar . Fomos postos a cantos abertos que exigem a discriminação. Todo consumo permanece válido, o do fast food, o do automóvel, o da experiência dos produtos e eventos sofisticados. Porém, o tabaco industrial está terminantemente proibido. Quem traga é intimidado a mudar de vida, a viver como um eunuco da longevidade. Os que optaram por não fumar tomam as rédeas da saúde popular.

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1 Comentário

  1. Caio Nijam said,

    Pois bem! O que gira o grande roda dos impostos brasileiros é conseqüentemente a usurpação dos direitos civis de uma sociedade não mais burlesca.
    Sofremos quase que impunemente por não podermos escolher de que forma viver a nossa vida. Com ou sem as drogas “licitas” que o governo taxa de “Proibido fumar em local fechado”. Essa é a grande sociedade, não muito diferente de algumas outras, mas que cabe aqui pronunciar apenas para a nossa, em especial São Paulo, onde tudo começou.
    Nos resta mesmo um cantinho ali outro lá para quem tabaqueia! Logo, fumar só no quintal da sua casa e não muito distante, talvez sejamos presos por porte do pequeno boxe de Marlboro Light. Esse é o Brasil: de Dilma, Serra, Lula, Fernando Henrique Cardoso e toda a ditadura autocrática que diz-se democracia.

    Ótimo o texto.

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