DECLARAÇÃO DE VOTO

outubro 1, 2010 at 22:15 (Análise & Crítica, Ensaios & Reflexões)

Enquanto se preparava para um discurso defronte a centenas de monges, em 2009, o atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, passou por uma situação supostamente embaraçosa. Posto que deva ser um costume no Tibete, os auxiliares ajustavam o assento sem encosto de seu líder espiritual para que ele discursasse sentado. Quando finalmente Gyatso tentou se sentar, caíra para trás apoiando-se no chão com uma das mãos, pois o móvel ainda estava desajustado e não resistiu a seu peso. Por alguns segundos, enevoou-se um silêncio na câmara religiosa onde acontecia a reunião, mas logo em seguida, após um sinal risonho do líder, todos da platéia e ele próprio puseram-se a rir fraternalmente.

Na corrida eleitoral brasileira à presidência da República, o candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) ficou conhecido em escala midiática por apresentar um temperamento brincalhão, às vezes sarcástico, e engraçado nos debates televisivos. Enquanto isso, os candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Roussef (PT) demonstraram uma impecabilidade na fala e nos gestos que só poderia ser artificial. Na linguagem do marketing político, qualquer erro no discurso é justificado por nervosismo ou distração, nunca por naturalidade. Quando ocorria de os principais oponentes se atrapalharem, ficavam visíveis uma brusca tentativa de correção e certo arrependimento da parte dos oradores.

Dir-se-ia que Serra e Dilma são mercadorias políticas. Marina Silva (PV) até que preserva algum senso de genuinidade e comportamento natural, haja vista a sua leveza verbal. Contudo, é válido dizer que Plínio, tolerante com os próprios erros de discurso, sabendo inclusive erigir graça dessas incorreções, possui a originalidade e a destreza oral de um sábio, que não teme as (des) valorizações do mercado eleitoreiro. Sua fraqueza é sua força; o índice de declarações de voto ao socialista, ainda que ínfimo, subiu nas pesquisas eleitorais. Como Dalai Lama na situação descrita acima, o candidato do PSOL faz rir, ao contrário dos dois oponentes principais que, ao falar, mais parecem máquinas engendradas por marqueteiros.

Já com 80 anos, Plínio foi vítima de chacotas relativas a sua idade, seu posicionamento ideológico e suas declarações dadas nos debates da TV. O intelectual propõe reformas radicais em questões sociais, políticas e agrárias; em seus discursos, instiga a população a enxergar a necessidade de haver essas mudanças. Evidentemente, seria difícil que as propostas passassem inteiras pelo Congresso Nacional. A governabilidade do socialista, em função de uma Câmara dos Deputados e um Senado dominados por alianças interesseiras, seria reduzida – é fato. No entanto, se tivéssemos um presidente com a postura – agressiva, mas nem por isso autoritária; utópica, mas alcançável – de Plínio de Arruda Sampaio, isso ajudaria a conscientizar o povo brasileiro de que vivemos, sim, em um país de minorias dominantes, maiorias sem poder e desigualdades sociais gritantes. O resto, só o tempo e o apoio popular contariam.

Na euforia dos saltos econômicos, deixamos de perceber que as mazelas nacionais continuam – tamanho desenvolvimento acaba por favorecer as elites, como sempre foi; e ele só é possível com o consentimento controlado e calculista dos detentores do poder.

O consumo aumentou nas classes materialmente desfavorecidas? Ótimo, mas o que se dirá de um sistema que prevalece injusto, na mais pura acepção da palavra? Um sistema que necessita do desemprego para que a mão de obra mantenha-se barata; que exige jornadas abusivas de trabalho; que mantém um mercado de ausência de criatividade e obediência mecânica; que importa valores do norte, que se autovalorizam destruindo culturas locais; que defende uma meritocracia na qual nem todos partem da mesma largada, mas na competição recebem o mesmo tratamento impiedoso e discriminatório. Entre outras e inumeráveis aberrações humanas.

Plínio representa a luta pela quebra de valores cristalizados no nosso capitalismo oligárquico. Nas considerações finais do último e principal debate televisivo, na Globo, o socialista, ciente da derrota, triste com os rumos da política nacional, desgostoso com a semelhança entre as três principais candidaturas, declarou que sua mensagem fora passada a quem devia ser: os jovens.

Agradeceu ao partido e à família, elogiou os auxiliares de campanha, falou em quebrar o “muro” que separa o cidadão de seus direitos. E falou ao jovem eleitor. “A maior alegria que eu tive nessa campanha foi o apoio da juventude. Talvez muita gente não entendeu o que eu falei nessa campanha, não captou. A juventude captou, porque a juventude pensa no futuro. Eu estou falando para o futuro”, disse. E convocou todos os jovens a pensarem grande, a ter coragem, tenacidade e força. “É preciso falar as coisas como elas são. Elas foram ditas aqui dessa maneira, [o que] assustou muita gente. [Mas] não vocês, não os jovens”. Plínio relembrou-se das desventuras de sua vida pública, como o exílio e a perda de mandato, e concluiu: “Compensou, se a juventude levar adiante o meu projeto. Viva o Brasil!”.

Depois disso, ouvia-se da platéia do estúdio na Globo pessoas gritando o nome do candidato e o aplaudindo intensamente. O encerramento de William Bonner fora atravessado pela euforia coletiva. Espontânea manifestação que nenhum outro participante daquela ocasião conseguira provocar. Ao candidato do PSOL, que nas pesquisas não chega a 2% das intenções de voto, concederam aplausos de prestígio e gratidão. Seu recado fora dado.

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1 Comentário

  1. Yuri Silva said,

    A eloqüência e paixão deste texto até me fazem querer mudar de idéia domingo. Amanhã. Não é este, o futuro de que se falou.

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