ENVOLTA EM NEGRO

setembro 21, 2010 at 19:50 (Crônica)

Era o caos rotineiro do Metrô, no sobe-e-desce, puxa-empurra e vai-e-vem atribulados, típicos de um transporte público insuficiente, quando um demônio fêmeo deu as caras.   Ela descia as escadas, inteiramente vestida de preto. Dos cabelos aos pés, em cada unha, na íris e na maquiagem dos olhos, prevalecia a cor preta. Branco-pálida de pele, a garota envolvia-se em um negro tão absoluto quanto a escuridão emergente em seu olhar lançado contra mim. Minha respiração vacilou ao me deparar com aquela imagem. Eu, que ia pelo sentido contrário da moça, para subir as escadas rolantes, enquanto ela descia os degraus de granito nos lances paralelos, fui tomado por uma súbita sensação de ameaça. Olhou-me esquisito, com a cabeça inclinada para baixo, queixo quase no pescoço, como um búfalo encara seu oponente de cabeçadas. Algo de assustador emanava da garota, que parecia estar perdida na estação.

Quando alcançou o último degrau, após ter me amaldiçoado, ela guinou à esquerda e pôs-se a subir para de onde veio, estando apenas um degrau acima de mim nas escadas automatizadas. Pensei que fosse um teste de resistência: a malícia e a perfídia vinham soprar em meus ouvidos, tentando me convencer de que vale mais a pulsão mortífera da vida do que os impulsos pela defesa da mesma. Eros e Thanatos confrontavam-se.

Anjos negros circulam pela cidade no intuito de apavorar, atazanar, perturbar, encantar e até mesmo fazer com que se apaixonem os cidadãos desavisados. Quando a escada rolante nos deixou em piso firme, no primeiro andar da Estação Anhangabaú, a menina obscura pôs-se direto a abordar uma mulher que passava. Complacente e atenciosa, a transeunte não hesitou em atender às dúvidas da garota em preto, jovem e enganosa. No percurso do corredor que leva a outro lance de escadas, as duas moças conversaram.

Uma pessoa que pede informações sobre um lugar ou endereço geralmente é breve em seu questionamento, e rapidamente tem sua dúvida sanada e prontamente segue seu caminho. Mas neste caso, a moça perdida insistia com as perguntas. Como confirmasse meus pensamentos, ela tentava extrair da mulher comum, trajada com roupas cotidianas, o detalhamento mais específico possível sobre uma localidade. Conversa anormal. Pacientemente, a interrogada tentava explicar à endiabrada o percurso que ela deveria tomar. Quem passava por perto, achava a dupla estranha – a transeunte, que nada tinha a ver com os metaizinhos perfurantes nas narinas e lábios da “gótica”, também chamava a atenção, de gaiato, simplesmente por “estar junto” e, naquele momento, “fazer parte” da estranheza de sua acompanhante.

Quando as perdi de vista, na esquina do último lance de escadas, no segundo andar, fiquei aliviado, mas continuei absorto em reflexões. Aquela menina, de saia e camisa pretas, cílios negros, lábios escuros e piercings por todo o corpo, ela explicitamente atacava uma trabalhadora. Uma ovelha do rebanho trabalhista era deliberadamente violada por uma loba anticristã – embora que freqüentadora de cemitérios. Pudesse eu ter dado um conselho à vítima, diria a ela que fizesse o sinal da cruz e pedisse demissão, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Até onde pude ver a conversa, toda energia reservada para uma sexta-feira comum já havia sido sugada da cidadã pelos olhos atentos e ameaçadores da garota envolta de negro.

↑ Ilustração de Tim Burton
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2 Comentários

  1. Yuri Silva said,

    Que es eso?…

    Muito bom exercício de escrita. Muito bem escrito. Pero tu es un poco loco, no?

  2. Max Aghek said,

    De fato a melhor coisa que pude ler nas minhas últimas 24h!
    Simplesmente “estonteante”.

    Traga-me uma figa-da-guiné!

    o//

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