JESUS DA SILVA

setembro 13, 2010 at 15:19 (Ensaios & Reflexões)

↓ Por Yuri Silva

Se deus é pai de todos os homens, sou irmão de Jesus. Vim reclamar o trono.

Meu casto irmão está ultrapassado, contudo foi bom, foi nobre,  a clássica personificação do que é ser mártir, um personagem mítico protagonizando uma literatura trascendental. Ao menos assim o tenho em idéia. O que sei dele não foi padre nem pai ou mãe que apelou. Toda uma experiência social específica – a que me cabe – cumpriu tal tarefa. Ninguém falou mais de Jesus pra mim do que ele próprio. Falam-me suas representações de maneira persuasiva; discursos em gêneros diversos (de jingle de campanha partidária da social democracia cristã a adesivos colados em párachoques dos caminhões)  teorizados a partir de pesquisas publicitárias. Esta é a primeira lírica, a primeira voz de Jesus na cabeça dos humanos. Há porém uma segunda voz, um segundo discurso. Muito mais legítimo e crível – que se diga.

Se é que existiu o homem Jesus, se é verdade que persiste ainda, em alguma forma se assim pode-se dizer, de vida, este espectro inapreensível me fala diretamente através do silêncio: peculiar ao inanimado. O silêncio fala. Aqui está presente uma reclamação justa. Ora eu também poderia ser um Jesus. de Nazaré, da Silva, não importa.

Viva a modernidade. O tempo urge ligeiro e neste meio tempo Jesus ficou banalizado. Existe situação mais propícia para o golpe? Em termos de método, a permutação simples seria suficiente. Ainda que o facão soasse porém, mais coerente.Meu casto irmão está ultrapassado. Em seu nome, exclui-se da dignidade e respeito comuns, homessexuais e putas, pacientes terminais esperando pelo desenvolvimento das pesquisas com células tronco e meninas precocemente grávidas. Seu espectro veio todavia evoluindo semânticamente na marcha do tempo. Basta especular a cifra de mortes de indígenas  para o estabelecimento de, uma única, capitania ou vice-reino no Novo Mundo. Erguidos todos sob a égide de representar o bem e progresso social da cristandade nos Trópicos, neste Novo Mundo acometido por “descobrimentos”.

“Mas que nada, – diria Simplício – quantos bárbaros e idólatras tiveram a sorte, de a tempo, serem catequizados. Escapando tal maneira do eterno inferno. Compensa-se.”

Com tudo dito, poder-se-ia já dizer que a reclamação é justa, legítima e incontestável. Há contudo mais. O homem Jesus de Nazaré  nasceu no ano zero desta era, inaugurando-a. Era judeu e um homem do Mediterrêneo. O mar Mediterrâneo corresponde a um complexo espaço no qual, fisicamente, torna-se mais fácil o contato entre diversas culturas e povos distintos. Forçando um agrupamento teríamos três maiores referências: África, Europa e Ásia. O qualificativo de ponte entre mundos diferentes (determinados por suas respectivas continentalidades) faz do Mediterrâneo um ponto de partida singular. E, um homem do Mediterrêneo, desta forma, pode ser tomado como um axioma filosófico para se pensar a humanidade.

Este, vos apresento, é Jesus de Nazaré, homem do Mediterrâneo. Branco, mas de pele corada pelo sol, podendo ser confundido com árabe, europeu ou judeu. Fez de sua vida o reino da compreensão. Compreendia as diferenças e compreendia o universal. Sua indefinição étnica é premissa a uma religião agregadora de novos fiéis, quaisquer. O deus único é uma distinção das religiões que mais prosperaram. Significa a personificação da faceta da espiritualidade – inata a todo ser – num referencial humano, sempre macho. Jesus Cristo encontra sua força e essência, enquanto axioma filosófico, na natureza de sua vida: filho da espiritualidade e não da sexualidade. A vida sendo a única certeza absoluta (ultra) passa a fronteira da biologia ao sobrenatural.

Meu casto irmão está ultrapassado e eu também quero ser o profeta da minha própria existência.

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