CHAMADO À JUVENTUDE

agosto 11, 2010 at 20:20 (Filosofia, Fotografia)

A maior força do jovem é a insegurança. O Homem, quando jovem, vive morrendo de medo, vítima de uma incerteza profunda sobre sua própria existência. Isso lhe dá chance de arrepender-se, que por sua vez possibilita que ele se corrija, para conciliar-se consigo mesmo. Um grupo de amigos convive em constante reforma da parte de seus integrantes: o orgulhoso em inevitável momento torna-se a humildade encarnada; o tímido grita e se posiciona firmemente em uma situação desconfortável; o briguento prova-se da mais dócil bondade enquanto o outro, geralmente calado, cospe verdades ácidas em seu rosto. Os jovens de fato preocupam-se e vigiam o seu próprio comportamento, portanto, se necessário, mudam a favor do bem coletivo. Consiste nessa capacidade para a autotransformação a maior virtude do ser jovial, que lhe dá poder para modificar o meio em que está inserido e transgredir os caminhos traçados por seus antecessores. A maleabilidade do Homem é uma das principais características da sua juventude.

O adulto é incorrigível, em suas totais certezas e absolutas visões de mundo, como o mármore desgastado de uma lápide. Após o período em que a seriedade passa a ser valor supremo, momento na vida do Homem moderno sobre o qual Jean-Paul Sartre escrevera um livro – Idade da Razão –, o ser adulto adota uma postura plena e imutável, tornando-se um conservador duro. Ele retém, preserva, acumula. O adulto morre de medo da morte, e para não vislumbrá-la apega-se às rochas ásperas da vida, enquanto o jovem ainda teme a vida, e nada pode fazer senão vivê-la, de maneira atenta, maleável e reparadora. Eis a grande diferença entre o adulto que se segura e o jovem que se desfaz: os objetos de temor – morte e vida.

Em função do medo, os pais impõe aos seus filhos temores de outra ordem, que não a da vida. Eles dizem: deve-se temer a liberdade, a independência, os espaços públicos, o futuro e – curiosamente, mas não sem razão – os adultos. Querem os progenitores que seus rebentos sejam conservados, pois os mais velhos enxergam os mais novos como bastiões de resistência à morte. Assim, nesse apego à vida por medo da morte, o adulto acaba por botar em clausura o jovem, impedindo-o de cumprir sua principal função no organismo social, que é a de transformá-lo. Ao contrário das plantas, já encontradas em sua forma de perpetuação, ao ser humano não basta o nascimento de um flor para que esta dê continuidade ao fenômeno da vida. Estamos tortos – e sabemos. Podemos contar apenas com a juventude na reparação de nossos enganos.

Triste é que o jovem esteja, hoje, em estado mais envelhecido do que nunca. Da maior força criativa e renovadora da raça, tornou-se vestibulando e consumidor voraz. Seremos até a idade adulta filhos de nossos pais? Trilharemos os mesmos caminhos, obedecendo a eles? Cometeremos os mesmos erros, da ganância à destruição? Não pode ser…

Pergunte ao pai se ele foi como o avô.

¤ Foto de Olívia Fuchs
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3 Comentários

  1. Érick Silva said,

    Cara gostei muito do seu texto, irei refletir sobre isso até o fim dos tempos

  2. Pagu said,

    tu, tua linguagem e tua percepção são nuas e lindas meu rei!

  3. Gabriela said,

    gostei!

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