GAROTA NO CENTRO

maio 11, 2010 at 19:24 (Crônica)

Tinha pele avermelhada e irritadiça, como sofresse de uma urticária crônica e generalizada. Vestia-se bem, portanto. Andar decidido, nariz empinado – postura solene de mulher que se vê dona de si. Olhar possivelmente atento e firme, fixado em um só ponto, por detrás de gordos óculos escuros.

Impaciente, ela esperava o farol abrir para atravessar a Rua Xavier de Toledo, no centro de São Paulo. O fluxo de carros ia em direção à Praça Ramos de Azevedo, onde passa por reformas estruturais o Teatro Municipal.

A multidão que saía da estação Anhangabaú do Metrô passava apressada pela garota, movimentando-se desastrosamente, como costumam fazer as demandas humanas em São Paulo, nos dias considerados úteis. Mas ela permanecia fixada em sua posição irredutível, enquanto dezenas de trabalhadores, malandros e estudantes agitavam-se a sua volta, em um espaço público saturado. Apesar de vastas, algumas calçadas da região central vivem congestionadas de transeuntes acomodatícios.

Essa situação diária dos cidadãos economicamente ativos lembra água caindo em um recipiente hermético e se ajustando aos seus limites naturais. A massa humana, em sua coletiva liquidez, não procura dividir as áreas de maneira lógica ou racional, mas as ocupa com aleatoriedade, oportunamente.

A menina de tez rubra, no entanto, mantinha um posicionamento sólido e alheio ao reverso de diáspora que ocorria em seu redor. Machucaria, se algum desgovernado lhe viesse de encontro, pois ela era um indivíduo alienado da procissão trabalhista paulistana, de cuja maioria não há relutância ou hesitação em adentrar vagões transbordantes de gente, em metálicos subterrâneos.

Pedra polida, a garota, de um tipo que grande parte dos brasileiros não poderia compreender. Emanava dela certo comportamento europeu, conservador da individualidade e preservador do bem público. Tal conduta provava-se discretamente, no retido espaço que ocupava.

A jovem da pele vermelha atravessou a rua somente quando o farol deu sinal para que os pedestres passassem – momentos antes, um grupo quase foi rasgado por motoqueiros –, depositou a lata vazia de refrigerante que carregava em uma cápsula de lixo e desapareceu na multidão convulsiva.

Talvez não houvesse ali, naquela moça e naquele momento, um temperamento tipicamente tropical, que naturalmente permite com que a carne esbarre na carne alheia, sem pudor nem precaução, durante a convivência pública. A recatada inflexibilidade, porém, longe de ser desumana, mostrava-se de uma singela ternura cidadã.

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