DEPOIMENTO DE UM JOVEM PAULISTANO

abril 27, 2010 at 4:12 (Análise & Crítica, Literatura)

Do que  seria se uma iluminação celeste tirasse toda a sinceridade de um jovem médio-classista paulistano e transcrevesse em uma carta, que ao fim virasse protesto, com toda a fúria dos apartamentos:

Pensamos o futuro com o planejamento de um arquiteto e a cautelosa sede de um investidor. Ganhos devem ser reinvestidos e a carreira tem de ser progressiva, ascendente. Blocos de tempo dividem nossa vida da seguinte maneira: uma década de formação básica e média, meia década de ensino superior e finalmente uma catártica entrada no mercado profissional, que provavelmente nos leve ao lugar ao sol, onde o conforto nos deixará repousar, capitalistas.

É-nos ensinado a comprar carros, televisão e todas aquelas espécies de aconchego de que tanto tratam como se fossem necessidades. Nos fins de semana, carregar sacolas em iluminados corredores de vitrines, que mais parecem uma clausura a quem atenta, e freqüentar lugares exclusivistas, nos quais nos mostramos elegantes e impecáveis.

Não espanta que assim vamos nós, assistindo e aprendendo o que se passa na grande Rede Globo deste País. Às vezes dizem que somos alienados, o que é uma grande bobagem. Eles ainda vão nos ver chocalhando um diploma no rosto deles, como um distintivo. Afinal, não estudamos em colégio público. Pagamos bem para aprender nos melhores lugares, e com tradição. Os alunos das escolas municipais e estaduais, sim, é que estão ferrados. Esses vão ter que batalhar muito para adentrar em uma digna universidade, enquanto nós iremos aproveitá-las para bebedeiras hercúleas e sacanagem.

Falando em faculdades, é válido dizer, a fim de expôr um conhecimento maior sobre nós, que repudiamos o sistema de cotas imposto pelo governo brasileiro. Cotas são injustas, em primeiro lugar porque legitimam o preconceito, como todos sabem entre nós. Depois, ainda tiram o nosso mérito de pessoas que muito se aplicaram nos cursinhos. Estudamos tanto, e nossos pais tiveram que pagar tão caro pelos nossos estudos. Por quais motivos obscuros quem estuda “de graça” não tem que ralar para entrar na universidade? Ora, não somos todos iguais? Direitos iguais! O governo deve esconder algo aí.

Vamos propôr uma greve contra o sistema de cotas, ele é artificioso e se deve a motivos indecifráveis. Pensando bem, devemos estabelecer outras lutas além dessa. Porque só o MST pode protestar? Nós também temos o direito de botar esse Brasil abaixo. Destruíram terras da Cutrales, esses sacanas, não? Justamente essas terras, que devem ser do avô do nosso companheiro Zeca Cutrales. Pobre Zequinha, tão bicho-do-mato, tão Chico Bento! Esse era o apelido dele, Chico Bento! De Zeca a Chico, nós sempre pensamos que ele transava com cabras. Mas por já termos feito uma visita à fazenda que é do pai dele, no Mato Grosso, vimos mesmo que o cara era radical: ele caçava veados! Havia dezenas de chifres em uma saleta ao lado do banheiro de mármore daquela casa de engenho.

Mas talvez protestar pelo campo não valha a pena. Até mesmo porque o Zeca encheu a cara de ecstasy e matou um amigo nosso em um espetacular acidente de carro, com direito a capotagem e efeitos especiais. Só faltou dublê. Zeca Cutrales hoje vive sem nariz, motivo pelo qual o chamamos de Nasaless. Foi uma brincadeirinha de mau gosto, confessamos, ácida como laranja imatura.

Casos particulares à parte, era de protesto que falávamos. Devemos brigar pela cidade! Alguns favelados estão dominando o pedaço lá no Itaim, está perigoso para as meninas irem ao cinema. Essa gente levanta muita suspeição, usando chinelos no asfalto! Tentamos ligar para a polícia algumas vezes, mas só dava ocupado. Talvez devêssemos todos enfrentá-los. Podemos usar os carros como armas, do jeito que fazemos nas ultrapassagens entre faixas de trânsito. Conheço dois ou três colegas que possuem verdadeiros tanques de guerra. Tancson e Hiluxo para cima da pobreza! Vamos acabar com ela! Pois não é esse o objetivo último de todos os governantes?

Na dúvida do que mais reclamar, façamos como os nossos pais. Acusemos, nós, a Venezuela e o seu medíocre presidente, o tal do Chávez – Chaves, para mim, sempre foi motivo de riso –, de não cooperarem com a ordem mundial. Mascaremos, nós, as grandes corporações e seus fabulosos empresários, que estão sempre tão sorridentes nos jornais. Esqueçamo-nos da África por completo e da ausência do Estado nas favelas, pois são pequenezas que devem ser varridas para baixo do tapete, como as empregadas domésticas o fazem – essas molengas mal agradecidas!

Após tanta luta, chega o fim do ano, quando fazemos encher os apartamentos de presentes e as mesas, de animais. São dias de festa, afinal, e o País merece comemorar em paz, seja aqui ou em Miami, como manda a tradição. Enquanto a Rede Globo filma celebridades vestidas de branco e o povão assiste e comemora, nós imitamos os artistas “globais”, porque podemos. Ou é a televisão que nos imita? Tanto melhor se for assim.

Abestalhados, vemos as festas nas lentes da Grande Mídia brasileira. Carnaval é o ápice: toda aquela bunda morena rebolando. Toda aquela careza dos sambódromos. Às vezes, ouvimos dizer que essa é uma festa popular. Popular? Os populares que peçam os seus empréstimos! Aquilo é festa de grã-fino, cheia de desfiles “top”, para a elite apreciar. Só entra pobre se for para desfilar sob o nosso olhar inclinado, mirado do alto de nossos camarotes. Se a Mangueira é uma favela não sabemos, mas que é uma bela árvore podemos provar com fotos. E beija-flor é um pássaro bonito, enquanto as favelas são horrendas. É importante que haja esse discernimento, para não pensarem que os nomes das escolas de samba sejam dados vulgarmente.

Está aí outro protesto: vamos comprovar que tais escolas nada tem a haver com as favelas do Rio ou de São Paulo. Carnaval é festa de luxo, que permite a entrada somente de pessoas boas como nós. Essa data está reservada para a lista de eventos indispensáveis de nossa galera: shows, peças da Brodway e, agora é claro, copa do mundo. Finalmente poder-se-á freqüentar os jogos sem enfrentar uma horda de selvagens pobretões. Os esportes também deveriam ficar reservados a quem melhor sabe assisti-los, os possuidores da tela de LCD. Isso, embora as Casas Baianas estejam fazendo um trabalho horrendo quanto à massificação das tecnologias.

Mais dois problema a serem enfrentados por nossa condição social, as Casas Baianas e o povo que lhe dá nome. São Paulo virou uma verdadeira procissão dessa gente. Maldita Revolução de 32 que falhou, deixando que essa cidade sustentasse o País inteiro. Não fosse esse pequeno problema sobre nossas costas, e a capital paulista seria o autêntico Primeiro Mundo: um mar de condomínios neoclássicos, shopping centers para as mulheres, bons hotéis e bordéis e uma frota de carros luxuosos.

Meu bom Deus, luxo não vem de luxúria? Disseram-nos tanto que esse era um pecado capital. Talvez também devêssemos ler Calvino.

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