A PRISÃO CORPORATIVA

abril 23, 2010 at 0:57 (Análise & Crítica)

Corporativismo, segundo o dicionário Aurélio: “Ação (sindical, política, etc.) em que prevalece a defesa dos interesses ou privilégios de um setor organizado da sociedade, em detrimento do interesse público”.

Qualquer manso cidadão que se preze nos círculos produtivos deve pagar a sua penitência diária. Para não definhar entre grades tão glorificadas e arraigadas à urbanidade contemporânea, eis um segredo: entregar-se aos requisitos de uma maneira ansiosa e, supostamente, progressiva de viver sem muito esmiuçar as razões de que se está ali. Ainda mais adaptado, fingir-se de grato e satisfeito com o cárcere que lhe condena. Aos gerenciadores da prisão e do ponto de horários, dá-se-lhes uma mordida da própria alma.

Oito horas ao dia. Sem exigir benefícios de prisioneiros ricos, bonificados com hora de sol ou regime residencial, nem pretender autonomia e filosofia – a ciência dos iguais  -, rói-se o enorme osso de ofício. Um constante e repetitivo parafusar que integra um sistema carcerário producente. Sacana, interesseiro e piramidal, o lucrativo negócio suga da base tudo o que é produzido pela sanha dos seus aprisionados e leva ao topo da pirâmide. Ou seja: a um, dois ou três diretores obesos.

Literalmente, o acorrentamento é opcional, nos melhores termos da livre-iniciativa. Contudo, quando se pensa em questões de sobrevivência, os menos prosaicos logo se trancam, engolindo a chave e protegendo-a das recisões até quando não mais se pode. A fatalidade do banimento pode ocorrer, no entanto. Ignorado o esforço demonstrado exaustivamente, três motivos recorrentes podem destrancar as algemas do labutador e livrá-lo da faina, concedendo-o uma liberdade indesejada e, no caso dos prisioneiros menos auto-suficientes, deveras desesperadora: a insatisfação dos barões para com os seus férteis brinquedos de escambo; reincidência de desleixes, no que recai a culpa sobre os funcionários mais rebeldes, correndo o risco de haver uma digna e justa causa à demissão; ou, no que tange a receita financeira da torre corporativa, o desprendimento pode ser mera poda de gastos com o quadro de aprisionados – não raro, para transferir o investimento a maquinarias.

Uma vez dentro de penitenciárias da mão-de-obra, transfigura-se a existência terrena, após pitadas de estudo e auto-estima, na de um dito profissional. Criatura bem treinada, submissa e complacente. Um condicionado skinneriano que, para fazer parte de algum segmento social do sistema predominante, desperdiça doses diárias de libido sob o pau de empresários. Ou isso, acomoda-se nas mãos dos detentores do capital, ou debulha-se em miseráveis condições de incapacidade financeira e falta de mobilidade real numa cidade nervosa, onde esfola-se a maioria dos detentos brasileiros, a Grande São Paulo – no mais apropriado exemplo de concentração trabalhista. Fora da condenação motora e repetitiva, resta a fuga inconseqüente a algum lugar interiorano ou da costa, que seja virgem e remoto. À maior distância possível das engrenagens avassaladoras de tecnologia incompreensível e dos interesses privados; para se tornar independente de vampiros corporativos que metem pressa e medo nas mentes mais óbvias.

Observando o movimento de funcionários vestidos de preto e branco em grande empresa nacional, é justo refletir sobre o valor existencial de prováveis sábios que alugaram suas mentes a principados, sendo admiráveis oráculos de seus reinos medievais. E pensa-se o quão dignamente cuidaram de suas terras os vassalos, a nome de suseranos que lhes concederam al

guns lotes em troca de fidelidade – em vez de papel-moeda. Corajosamente, lutaram cavaleiros que, em honra de coroas douradas, entregaram-se à morte pela espada. Porém, atualmente, triste. Muito triste o mal concebido homem empregado, ser pós-moderno em sua realidade de digitar, produzir, contabilizar e embalar mesmices, para depois comprar, abrir e consumir besteiras. Eis os filhos do desenvolvimento social, dos serviços e dos ofícios computadorizados. Esses colarinhos brancos.

O protótipo humanóide de relógio no pulso reserva um terço do círculo, percorrido por um ponteiro giratório, a senhores desconhecidos. Pobre proletariado da gravata, peça do vestuário comum que, aliás, carrega uma simbologia terrível. O recorte de seda enforca ao consorte como a um condenado, apresentando apenas uma diferença, no entanto crucial, da corda fatal das penas de morte: trata-se do nó de pano com delicadeza e dedicação orgulhosas. Mata-se assim o trabalhador contemporâneo, mas sem deixá-lo morrer. Não de modo que o legista possa confirmar o óbito, pois resta sobrevida duradoura neste caso específico de homicídio.

Em sua espécie de sonambulismo consentido, o penitente age afincado ao seu perene desejo de se destacar socialmente ou, no quadro brasileiro, de se sobrepor à ausência do Estado na sobrevivência dos seus compatriotas -eis que, ironicamente, a inclusão do dito cujo na conterraneidade só se dá a partir de sua quase-morte.  Nesse passo, o ser pouco afetivo e egoísta visa ao alto do materialismo, que é para um dia chegar no topo da escalada empresarial, após ter perfurado alguns olhos semelhantes com os seus sapatos de couro negro lustroso.

E acima deste cárcere, no topo das montanhas donde não brotam arte ou criatividade, no sobretudo dos alpinismos sociais em que se metem os adeptos do tempo contado, alienado e preocupado, no controle de cada panóptico interesseiro e poderoso, lá em cima, bem no cume onde engordam os grandes barões, aos quais todos debaixo devem responder, aquele que vestir a roupa – arma sutil – mais fina viverá como um algoz falsamente reificado por todos do resto debaixo, que a ele servem. Disfarçado de samaritano e mensal amigo, o contratante-mor convence a realidade de seus prisioneiros com a promessa de que há bem estar e ascendência social na corporação. Anima a todos com um falso espírito de equipe.

O viver empregatício é repugnante. Contudo, os maltratados não têm vergonha, mas, sim, orgulho de pertencer à dura e escassa oportunidade de participar, insignificantemente que seja, de um imensurável poderio internacional que favorece as altitudes econômicas. Assim, fomentam uma sociedade de senhores que tragam para si todo um esforço coletivo, em detrimento das culturas locais e da energia humana verdadeiramente produtiva.

A mais-valia de Karl Marx – para rasgar teias grossas – não deveria ater-se, se é que o fez, ao mero materialismo dissonante e tempo gasto, como maldições implícitas ao esquema de patrões e empregados. O lucro capitalista consome vida e espírito; coisifica o Homem – como o alemão, genialmente, considerou. A potência criadora e revolucionária, do intelecto e da arte, hoje vive estancada na tela dos computadores. Se Francis Fukuyama acertou, ao profetizar o fim da História sob o paradigma atual do neoliberalismo, é tanto quanto triste o destino de toda uma massa proletária que, com nó de gravata, se robotiza ou zumbifica.

Anúncios

2 Comentários

  1. Wagner said,

    Nossa, um dos textos mais interessantes que já li.
    Parabéns de verdade, faltam pessoas como você nesse mundo.
    Esse modelo materialista, ganancioso, burocrata é passado de geração em geração e vendido aos nomes de “maturidade”, “sucesso” e até mesmo “felicidade” mesmo gerando o oposto.
    Eu adoraria esfregar esse texto na cara de muita gente que me condena por eu querer trabalhar pra viver e não viver pra trabalhar. Esse mundo escravagista e superficial precisa abrir a mente.
    Não digo que todos devem ser essa mente hippie minha mas pelo menos que seja implantada uma mentalidade mais humana e que as pessoas não se envergonhem de buscar liberdade e felicidade (muitas vezes ambas combatidas para mostrar força e “maturidade” a um sistema frio e indiferente. Não quero viver o sonho dos outros, quero o meu).
    Parabéns inclusive pelas imagens que retratam bem.
    abraços.

  2. bdebigode said,

    Única alternativa de um ponto de vista sobrevivente é o carcereiro disfarçar o cárcere, disfarçar as grades com belas cortinas: De outra forma o prisioneiro ali perceberia, imediatamente ao adentrar, os contornos de sua cela de prisão.

    Única forma de garantir que as gravatas permeneçam cabrestos, meten-se também o sujeito em baias.

    Mais valia vai além, muito além do salário. Prevê-se ali tempo, estrutura, ferramenta e relações. Mais valia é o quanto o seu trabalho mais valia enquanto era seu. E o o quanto ele mais vale ao empregador que a ti.

    Muito foda o texto Cirillão!

    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: