CARTAS DE DESPEDIDA

março 28, 2010 at 19:12 (Filosofia, Literatura)

O que diria um homem estando obrigado a escrever sob a iminência da morte? A causa dessa fatalidade não importa, posto que haja sumariamente a obrigatoriedade desse homem deixar à humanidade suas últimas palavras.

Ele por-se-ia a redigir uma carta para e sobre os seus companheiros; breves características de si mesmo; ou um retrato filosófico de seu contexto social? A escolha que fizesse iria determiná-lo.

Um indivíduo que fala de seus parentes e amigos, às vésperas do falecimento, prova-se de um coleguismo afetivo exemplar, ao deixar tomar-lhe a compaixão em vez de quaisquer pensamentos amesquinhados. Dir-se-ia que é sujeito fiel às suas companhias, capaz de ignorar-se a si sob um pretexto de amizade. Esse provaria uma atitude digna de grandes pactuantes sociais. Escreveria a despedida em tom político.

Caso fosse egoísta, ditaria em seu último recado um resumo da sua vida. “Fui contente, mas falhei no amor ao próximo”, poria, em uma síndrome de honestidade só possível em momentos anteriores à partida sem retorno. Tipo comum, o ameaçado não se preocuparia sequer em deixar frases à mulher que o deixara poucos anos antes. No máximo, prestaria tributos à mãe, fazendo-a triste e aliviada por ir embora de cá.

Ambos, o humanista e o individualista, não apresentariam surpresas em seu testamento informal, pois se ateriam a remeter-se com a vida de pessoas próximas ou com a sua própria, sem maiores digressões. Demasiadamente previsíveis, seriam.

De fato, o terceiro tipo de homem que beira a morte e põe-se a escrever é quem permitiria à humanidade que ela visse o seu verdadeiro valor. Austero, criticaria primeiro as mazelas de seu tempo, não deixando de citar a sua própria culpa no contexto social em que viveu inserido. Escreveria com letras grandes, em frente e verso, as críticas que tanto gritou e que foram nada senão ignoradas.

Tipo solitário, esse homem. Não se preocuparia por nem um segundo em referir-se a si, a não ser na assinatura final. Daria satisfações aos próximos, sim, dizendo que a eles viveu e que somente por eles sorriu. Seu memorando não registraria arrependimentos, desgosto ou infelicidade, pelo contrário se mostraria alegre em ser a lembrança última de uma existência.

Ele tiraria conclusões rápidas sobre do que pode tratar-se a vida. Rabiscaria, entre linhas: “é breve”; “é incompreensível”; “é nada além que uma volta em um carrousel desconfortável”. De mão cansada, no parágrafo final, redigiria com finalidade e letras tortas que “somente viveu quem viu na disparidade imensurável entre os seres a semelhança inconfundível dos olhares, complacentes e cheios de dor”.

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2 Comentários

  1. Helô said,

    … Carroussel desconfortável… bela imagem para a vida… da minha parte acrescento : muito confortável fisicamente, até porque nesta civilização materialista que vivemos esta parece ser a realidade dominante. Quanto ao desconforto sim, existe, mas é na alma..

  2. Olivia said,

    Uau, mas cada vez mais voce está se tornando um purpurrismo de Machado com Garcia Marquez e com uma pitadinha do estilo gonzo do Sr. Thompson…

    Cada vez mais me surpreende.

    Parabéns!

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