GUERRA E LOUVOR

março 10, 2010 at 1:58 (Análise & Crítica)

Premiação do Oscar tem postura ideológica

Parecia que iam ficar apenas com elogios, as seis vitórias do The Hurt Locker (pateticamente, Guerra ao Terror), na 82ª premiação do Academy Awards. Até que, surpreendentemente, o Estado de S. Paulo (9/3) cedeu espaço a uma análise lúcida acerca do filme que surgiu das sombras para combater Avatar, de James Cameron, em nove indicações ao prêmio mais cobiçado da indústria cinematográfica.

O roteirista do marcante Bicho de Sete Cabeças, Luiz Bolognesi, foi quem expressou as sensatas opiniões dos que perceberam no evento do Oscar uma parcialidade belicosa. Ele acusa The Hurt Locker de “propaganda baratíssima da máquina de guerra” e diz que o filme foi desprezado pelo público no Festival de Veneza, dois anos atrás.

Bolognesi, a bem da verdade, considera o filme uma reprodução daquelas velhas histórias de velho oeste nas quais poucos caubóis enfrentam uma multidão de apaches, matando-os e “vencendo”. Ele interpreta que o “filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos”. E é mais incisivo ainda em sua conclusão, quando compara o objeto de sua crítica com Avatar: “no filme de Cameron, os na’vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches”.

Era de se esperar que qualquer jornalista dos suplementos culturais fizesse críticas com o mesmo tom. No entanto, o que se viu nos diários foi bem diferente.

Entre as estatuetas douradas recebidas a título de The Hurt Locker, estão os de Melhor Filme e, para contentamento de Kathryn Bigelow, de Melhor Direção. Toda mídia tratou das conquistas como se fossem a derrota de Golias por Davi, encarnada na briga entre o cinema industrial (Avatar, de U$S 500 milhões) e a produção independente (The Hurt Locker, de US$ 11 milhões).

Outro fato muito comentado pelos jornais é que Bigelow, ex-mulher de Cameron – como cansaram-se todos de saber –, foi a primeira criatura do sexo feminino a receber um Oscar. Nenhuma das críticas e reportagens publicadas sobre a disputa levantou suspeita sobre o óbvio ululante cometido no tapete vermelho: coroação ideológica.

Pandora, o mundo de clichês criado por Cameron, é habitado por nativos de um planeta onde reina a natureza e convivem bons selvagens (lembrando Rousseau). Os azulões são comoventemente atacados pelo militarismo e pela ganância norte-americana. O maior vilão do filme é um general que contesta a Ciência, de modo que tanto o líder do exército quanto os cientista querem extrair de Pandora um minério muito precioso, que se concentra abaixo de uma árvore vital para os na’vi.

Já em The Hurt Locker, o Iraque retratado por Bigelow nos traz aquele típico heroísmo de jovens patriotas que invadem terras estrangeiras para protegê-las de seu próprio povo, invariavelmente terrorista. A diretora destaca um norte-americano esnobe e ousado, corajoso e viciado em seu ofício de desarmar bombas, dando tom de glória à invasão de um país do Oriente Médio ‘onde os fracos não têm vez’ (nome usado na tradução de um filme dos irmãos Cohen, também incompreensivelmente vencedor do Oscar de Melhor Filme, em 2008).

Apesar das bilheterias conquistadas mais uma vez por James Cameron, o que ele produziu em seu mundo de fantasia foi cinema de esquerda, diretamente de Hollywood. Tal feitura seria extraordinária se vencesse uma apologia ao intervencionismo. Não é que o celebrado diretor devesse levar para casa a estatueta ideológica, pois o roteiro de seu filme foi dos menos aplaudíveis entre os concorrentes. Mas premiar um longa-metragem que, como tantos outros, aclama a guerra a partir de um ponto de vista unilateral e estarrecedor é tão descabido quanto homenagear o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um Prêmio Nobel da Paz.

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