O ENTRAVE

fevereiro 16, 2010 at 16:32 (Literatura)

Preocupado pelo vício, ânsia que não satisfazia há horas a fim de preservar moral perante seus tios que vinham lhe tratando feito um desajustado nos momentos de sala, o rapaz estaciona na parte reservada a clientes de uma loja de conveniências, em um posto de combustíveis renomado da região. O caminho que percorrera até ali, uma avenida longa e espaçosa, pertubara-o com tráfego intenso de veículos quase todos iguaizinhos ao seu, com exceção dos abomináveis ônibus superlotados que reservavam um corredor apenas para si.

O rapaz retira a chave do contato, aproveita para recolher e desfazer-se do saquinho de lixo que repousa sobre o câmbio, desembarca e tranca a porta. Ao entrar no comércio gelado, suspira em uma clara tentativa de amenizar seu vício (que arfava nos pulmões, nesta sexta hora de descaso forçado). Um vendendor, sempre incomodado pela secura nas suas fossas nasais, consequência inevitável do ar condicionado que enche o lugar de frio, atende o rapaz sorrindo como é de costume.

– Posso ajudar?, cumprimentou, sem saber que era esta a exata milésima vez em que fazia a memíssima pergunta a um cliente que entrava no comércio, seu local de trabalho nos últimos três anos de vida assexuada.

– Quero um maço de cigarros, por favor, pediu o rapaz meio educado, meio impaciente. A duradoura abstinência do produto provocava-lhe as entranhas. Ele aprendera com dor na infância a desconfiar das simpatias de um vendedor, portanto evitava o olhar do outro, também jovem de idade – em uma cidade conhecida por seus aposentados de 25 anos, gente rica e vagal.

A loja de conveniências comercializava quase de tudo que era supérfluo. Lembrancinhas da metrópole, estatuetas de marfim roubado de elefantes africanos, balas e chicletes das mais variadas formas e cores para atrair crianças, livretos religiosos, uma rara e caríssima garrafa de rum, entre outras bebidas, quinquilharias diversas e fumo. “Aqui se compra”, propunha o lema do local, estancado em cartaz ao lado do balcão de pagamento; era um estabelecimento de respeito e cidadania notórios aos padrões do centro urbano a que pertencia, e bastava ter dinheiro para possuir o que ali era inutilmente oferecido. O rapaz que buscava cigarros tinha notas nas mãos, prontas a serem trocadas por alívio tragável, mas o lojista resolve levantar suspeita sobre ele.

– É maior de idade?, indagou.

– Tenho vinte anos, responde-lhe o rapaz. E foi ter as mãos nos bolsos, quando notou ao apalpar as fendas de sua calça jeans surrada que havia se esquecido da carteira no carro. O automóvel, lá fora, reluzia fervente sob o impiedoso sol do verão.

Desconfiado, o balconista fantasiava em silêncio que começava ali um embate entre egos. Desde muito novo a feiúra de suas espinhas, fiéis e inseparáveis companheiras, o haviam ensinado a odiar garotos robustos de idade aproximada da sua. Tendo em vista que em uma briga sempre há vencedores e perdedores, e ele já havia perdido demais mulheres para colegas que fumavam na esquina do colégio, o lojista decide agir sem compaixão com o rapaz que naquele momento pedia algo que somente ele poderia lhe dar.

– Pode me mostrar seu documento?, impôs ao fumante.

Sob óculos escuros e marrons de aros grossos, os olhos do jovem cliente enfurecem-se em loucura abstênica.

– Está aqui meu documento, afirmou rispidamente o rapaz, e mostrando a chave do carro, que no estacionamento concentrava a temperatura de café bem servido, ainda mais abafado por causa das janelas fechadas.

– Uma chave?, tensionou o atendente.

– Sim, claro!, irritou-se o atendido, “e eu, um motorista. Gente que dirige depois de ter completado dezoito anos”.

A partir da reação movida a orgulho do cliente, a questão deixara de ser o singular gesto da compra de cigarros por um fumante, e seu posterior alívio, para se tornar uma verdadeira batalha entre diferentes ideias e paradigmas. De um lado, um comerciante honesto e dedicado em seu ofício de vender, exercendo uma suposta cidadania ao impedir um garoto suspeito de não ter atingido a maioridade exigida para fumar de cometer o delito. A opôr, um jovem empenhado em seu desejo de comprar fumo para que aliviasse enfim a tormenta psicológica em que se metera, fruta de um hábito cultivado nos seus últimos cinco anos de vida. O rapaz poderia simplesmente buscar a carteira de identidade no carro, que ardia crescentemente no estacionamento, para comprovar o que tentava com a chave. No entanto, era inadimissível para ele que a barba sua, esperada por tanto tempo e tratada com esmero, e a chave do veículo não provassem com efeito o que muitas vezes omitiu durante a compra de bebidas e cigarros.

Os olhos do motorista moviam-se rapidamente, sua fala soava seca e ácida como a castanha de um caju no instante da colheita, quando ele reafirmou, sob o olhar evitado do balconista:

– Sou maior de idade. Agora, por favor, pode me vender o cigarro? Preciso fumar, que faz bem à paciência.

– Por que não mostra o documento?, insistiu o vendedor.

– Porque está no carro. Veja bem, como motorista eu não posso ser menor de idade, argumentou o rapaz tentando manter a calma.

– Então, devo pedir que o busque, ignorou o lojista, acostumado de ser enganado pelas pessoas. Seu colega de trabalho, um baixo e gordo que observava a tudo aflito, passara a se sentir fortemente incomodado pela situação. Ele nunca imaginou que aquele funcionário que o acompanhava nas escalas noturnas em fins de semana pudesse ser tão intransigente, e interveio:

– Venda logo, meu caro, é apenas tabaco. Seu tom era político: “o cliente poderia comprar em qualquer posto. Além do mais, ele carrega a chave do carro, é ‘de maior'”.

Mas o implicante continuou com sua insistência sem cura:

– Pegue, por gentileza, o documento no carro, e lhe venderei o cigarro.

A essa altura, a dependência de nicotina e a educação do interrogado haviam chegado ao limite, e ele então fez a maior ameaça que podia no contexto de um duelo comercial.

– Se não quiser me vender, tudo bem, eu paro no próximo posto.

Com medo de que o conflito fosse acordado assim, com tamanha simplicidade, eis que o vendedor alfineta seu adversário:

– Seria contra a lei vender tal produto a adolescentes, disse.

O sangue pedinte de nicotina do rapaz ferve em suas têmporas; falta-lhe autocontrole.

– Adolescente?!, explodiu, “eu não sou um adolescente. Quer saber, enfie onde quiser seu cigarro. Vou embora!”. E já se virava para partir quando, assustado com a reação violenta do rapaz e imaginando o habitual e repressivo olhar do gerente da loja, um meia-idade austero que posicionava bíblias de bolso em uma prateleira rotativa, o lojista retoma o tom profissional.

– Peço desculpas, senhor, falou.

Seu colega de trabalho, suado em função da gordura acumulada no corpo, apesar do frio condicionado do ambiente, ainda levaria anos para compreender a importância ética que envolve o comércio do tabaco. Mais experiente e melhor vendedor, talvez em função do pai dono de padaria bem sucedida, o funcionário implicante prosseguiu:

– É necessário que você mostre a identidade, ou infelizmente não poderei lhe dar o que quer.

Do alto de seu balcão, o vendedor dirigia-se ao cliente com a solenidade típica de um patriota. O cliente, apesar da vontade de fumar que era grande, desistiu afinal de enfrentar a resistência de seu oponente. Entregou-se:

– Pois bem, vou buscar o documento no carro.

Com essas palavras, admitiu a derrota. Desinflou o busto, colocou os óculos de sol que havia tirado durante os últimos momentos de confronto, usou uma mão no bolso e outra para abrir a porta de vidro, e saiu de ombros caídos em direção ao automóvel. Ao atravessar a saída, sentiu desalento e um chocante calor que constrastava com o frio da loja. Entrou no carro, e deu partida. O lojista, contente de ter vencido o rapaz, jamais tornaria a vê-lo.

À noite, a televisão noticiava a morte de uma garoto que se envolvera em um violento acidente de automóvel. O veículo colidira com um ônibus durante uma ultrapassagem perigosa, em impotante avenida da cidade. O motorista, menor de idade, completaria dezoito anos dali dois meses, e deixava em desespero uma mãe superprotetora e um pai encrencado – como haveria de explicar que permitia seu filho dirigir? O que não sabiam os repórteres nem a família do falecido é que o rapaz conduzia o carro ansioso e sem o mínimo de prudêcia, quando decidiu cortar ousadamente o tráfego na frente de um ônibus a fim de parar no posto de combustíveis que avistara no outro lado da via, para comprar cigarros e suprir a carência de nicotina em seu sangue, misto de necessidade e desejo que sempre o deixava aflito.

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