TOC-TOC, O QUE É?

dezembro 26, 2009 at 4:30 (Jornalismo)

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é um genérico da ansiedade. Em tempos ansiosos, bom saber de que se trata essa doença simpaticamente apelidada.       

Em seu Cortiço, Aluísio Azevedo colocou uma personagem que sofreria de uma excessiva, mas não rara, compulsão. “Mulata antiga”, Marciana por-se-ia a varrer febrilmente sua casa sempre que o mau humor lhe apanhasse. Se a raiva fosse muita, então, ela enxaguaria com fúria todo o assoalho. De características naturalistas, incomparáveis nos toques ao caráter humano, Azevedo representou em Marciana a mania de limpeza, que é apenas um dos tipos de manifestação ansiosa que acometem boa parte dos indivíduos.

Após mais de um século desde a publicação da obra, a ansiedade se tornara inerente à nossa época pós-moderna, tanto mais em centros urbanos. O que hoje chamam de Transtorno Obsessivo-Compulsivo é uma soma das causas e efeitos contidos nas popularmente consideradas manias (do grego, loucuras). A doença consiste em um amálgama de obsessões e compulsões, que são demonstradas em inúmeros sintomas diferenciados, comportamentos que vão desde o colecionismo – na literatura psiquiátrica, é o ato de colecionar e organizar objetos – até o frenesi de lavar mãos em quantidade exagerada de vezes por dia. “É um transtorno da ansiedade”, simplifica Sérgio Pedro Baldassin, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC.

Os motivos do TOC ainda não foram esclarecidos pelo rigor científico. Entretanto, estudos indicam que podem surgir em conseqüência de fatores neurofisiológicos – suspeita-se que anormalidades na transmissão de serotonina provoquem a patologia –, genéticos ou de traumas sociais (como um divórcio, por exemplo).

“As causas das doenças mentais, de uma forma geral, envolvem desde o comportamento aprendido, o ambiente familiar, até sua herança genética, o grau de violência que sofre e como lida com o estresse”, diz o psiquiatra. As primeiras manifestações do transtorno surgem comumente durante a infância ou adolescência, mas não é impossível que apareçam em qualquer momento da vida adulta, gradual ou abruptamente.

O último censo realizado sobre TOC’s é de 1994. A quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais (DSM-IV), desenvolvido pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), constatou que, aproximadamente, 2,5% da população mundial passam a vida inteira com o problema. Além desses, entre 1,5% e 2,1% das pessoas sofrem menos, durante o período de um ano. É de se crer que os percentuais tenham aumentado ao longo do século 21, e que os números do DSM-IV sejam inexatos.

Obsessivo-Compulsivo

A obsessão pode ser caracterizada como um evento mental invasor, tal como uma idéia estranha que surja sem cessar, imagens repentinas, cenas que tamborilem no pensamento ou, ainda, medos e preocupações constantes e irracionais. É importante destacar que o paciente é cônscio do conteúdo absurdo e irracional de seus devaneios incômodos, e que se os eventos passam a ser pensados de maneira obrigatória, perturbando as idéias ao descontrole, são considerados patológicos.

Já a compulsão é, geralmente, uma conseqüência das manifestações obsessivas. São comportamentos intermitentemente repetitivos, como a limpeza excessiva, explorada por Aluísio Azevedo n’O Cortiço, hábitos de higiene metódicos e manias de contagem e arrumação – apesar de intencionais, essa ações são realizadas quase involuntariamente pelo compulsivo, feitas necessidades.

O TOC, que se define à incidência de um ou ambos os problemas, passa a ser considerado danoso, exigindo diagnóstico, quando ocupa mais de uma hora por dia se manifestando, ao ponto de atrapalhar a vida social, pessoal, profissional ou acadêmica do paciente. Numa proporção bastante clara, que ultrapasse o tempo dito saudável e maltrate a pessoa, é recomendada assistência médica.

“O tratamento é feito a partir de uma associação de terapias, da pessoa e da família, e o uso de medicamentos. Inclusive, em crianças. Essa coisa de ‘ou medicamento, ou terapia’ ficou no passado”, explica o doutor Badassin. Segundo ele, a Organização Mundial de Saúde exige, atualmente, a melhor solução para os transtornos mentais. O cérebro humano é visto, pela OMS, como algo a ser cuidado através da maneira mais eficiente que a Ciência possa oferecer.

Vale dizer que a residência de Marciana, mulata ansiosa da obra O Cortiço, viveria úmida. A causa: excessos cometidos por sua dona na limpeza.

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