A VIZINHANÇA DISTANTE

setembro 5, 2009 at 1:11 (Literatura)

Há medo e desconfiança naquela calma rua daquele torto bairro.

Preocupações neurológicas, quase neurastênicas, e intranqüilidades desenvolvidas a base de notícias trágicas de terror, dadas repetitivamente e sem cessar, em formatos televisivos, radiofônicos e impressos, regem os modos de viver daquele logradouro.

Ainda que fruto das desigualdades sociais, a paranóia dos avizinhados não se atém apenas à eterna luta de classes, que se espatifa em crimes vis veiculados através de meios jornalísticos venenosos. As grossas paredes das residências enfileiracercasdas também protegem seus habitantes de quaisquer contatos, espirituais ou físicos, entre eles mesmos, e de todos os inconvenientes silenciosos que isso viria a ocasionar.

Proprietários habitam dócil e quietamente as casas do corredor público que se estende por toda uma distância, entrecortada por medos discretos e contenções que evitam as dúvidas inerentes à condição humana. Pois há medo de conhecer ao próximo e medo de não ter medo naquela vizinhança. E também há medo de fazer barulho e medo de escutar.

Um terrível sentimento de auto preservação predomina ali, com certo inefável calor humano alojado que, se libertado, traria união aos locados próximos. Então, seria  a vida mais digna no lajeado. Caso o frio da TV, agasalhado pelas moles almofadas dos sofás, não fosse mais confortável que o calor das portas e portões das casas. Se os recortes de entrada e saída das residências servissem para a comunicação real que, ao contrário da massiva, irreal,  alentaria nas conversas parceiras os habitantes daquela via de solidões. Assim agissem os contidos dos cubículos, e a vida seria mais generosa, desprendida e solidária.    

Porém, tudo segue em paz nos quadrantes disformes daquele paralelismo, onde coexistem indivíduos medrosos. As calçadas desniveladas e o asfalto esburacado dividem, entre baratas e automóveis, a passagem. Transeuntes sem rosto passam desatentos, sem enxergar os lares que os rodeiam, dentro dos quais vivem trancados seres à sua imagem e semelhança.

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