DONA MARIA, 101 ANOS, 79 COMO MÃE

junho 2, 2009 at 17:55 (Jornalismo)

↓Perfil publicado na edição dos dias 9 e 10 de maio do Hoje Jornal↓
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Mãe de seis filhos conta sua trajetória maternal de longevidade incomum

senhora f reprodução

Quando atende ao telefone, a dona Maria Spolariq Anannias teme não se expressar com clareza ou compreender mal as coisas que lhe são perguntadas. Sua lucidez é incontestável, mas mesmo assim, essa senhora de 101 anos prefere transferir a ligação à sua filha Heloísa Anannias.

A professora aposentada de 68 anos descreve a sua mãe como ativa, alegre e independente. “Ela gosta muito de viver”, afirma, antes de se aprofundar na história da matriarca, que vive em Santa Bárbara do Oeste, cidade próxima à Americana, na Região Metropolitana de Campinas. Heloísa conta que dona Maria passou a maior parte de sua vida trabalhando, mas que a labuta nunca a deixou ausente da união familiar.

“Minha mãe sempre trabalhou muito, dentro e fora de casa, mas não era ausente para nós, pois sempre ia verificar se estávamos bem”. Quando não podia ver seus seis filhos, entre eles, cinco mulheres, duas já falecidas, e um homem, era responsabilidade dos irmãos mais velhos tomarem conta das caçulas.

Na roça e na cidade, dona Maria sempre teve empregos relacionados ao algodão, o que mais tarde lhe causaria complicações pulmonares, devido ao pó liberado pela matéria prima, mas nada que tenha afetado de maneira crítica a sua saúde inabalável.

Nos idos de 1930, após ter-se mudado de sua cidade natal, Piracicaba, com seus vinte e poucos anos, a senhora Anannias colhia a fibra esbranquiçada para um russo proprietário de terras em Santa Bárbara. Quando sobrava tempo, ocupava-se de cortar pés de cana-de-açúcar para abastecer à tal de uma Usina D Cillo, que já não existe mais. Era época de impulsão industrial na região, motorizada pela indústria usineira.

“Na roça, a vida era dura. Na cidade, melhorou. Eu trabalhava oito horas por dia em uma fábrica e tinha mais tempo para meus filhos”, explica a piracicabana sobre sua rotina no centro do município. Nesse período, a idosa manufaturava embalagens feitas de algodão para o açúcar que era produzido nos arredores da cidade. A esse ofício, realizado no estabelecimento Cervone, dona Maria dedicara-se por 33 anos.

Enquanto se ocupava com a atividade fabril, seus filhos estudavam ou repousavam em sua residência. O pai, outro funcionário industrial, voltava para o lar sempre à hora do almoço. Os tempos de ausência doméstica não eram problemáticos. “As crianças daquele tempo eram mais boazinhas., pois, na época, não havia a malandragem de agora. Eu deixava uma cadeira encostada na porta de casa e ficava tudo bem com elas”, descreve a senhora que, fora do serviço de fabricação, cuidava dos negócios familiares e de sua habitação.

“No domingo, a gente fazia um almocinho bom, tomava um cafezinho, um chá. A família foi sempre muito unida, só quando todos cresceram que fomos nos distanciando um pouco”, comenta. Seu marido, João de Deus Anannias, faleceu em 1986, após um casamento de 55 anos.

A casa para a qual dona Maria se mudou, durante o primeiro ano de vida de Heloísa, há 68 anos, é a mesma em que ainda vive. O jardim é cuidado por sua filha, os dois quartos, a sala, a copa e a cozinha que constituem o ambiente continuam no mesmo lugar. A aparência dos aposentos está diferente, mas o amor de sua proprietária pelo lar continua o mesmo, firme como a estrutura do local.

Hoje, não é sempre que Maria Spolariq Anannias se encontra em casa. Ela recebe o apoio das filhas para viver o cotidiano e passa alguns dias nas residências das parentas, quando não são estas que visitam a mãe na antiga propriedade. Bem humorada, a aposentada aprecia sua relação com as descendentes. “A gente bate bastante o papo, damos risadas, elas cuidam muito bem de mim. Eu gostaria de fazer os serviços domésticos, mas elas não deixam. Antes eu cozinhava, lavava roupa, passava. Agora, estou enxergando meio mal e elas não deixam que eu trabalhe, sabe, querem cuidar de mim”, elogia essa matriarca exemplar que colhe todo o amor que plantou.

“Ser mãe deu trabalho, mas no fim deu tudo certo”, diz enérgica, aparentando ter a voz de uma senhora de 70 anos. Pois não, tem 31 a mais.

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