Eduardo Campos teria o meu voto

agosto 13, 2014 at 17:21 (Sem categoria)

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Campos no Jornal Nacional: pelo fim dos cargos vitalícios, do nepotismo e da polarização PT-PSDB

Justificar o voto é talvez um dos maiores exercícios democráticos possíveis. Não falo de ir ao cartório eleitoral para dar uma desculpa e evitar as urnas, mas de se posicionar como um eleitor esclarecido. O que talvez seja uma das grandes dificuldades do brasileiro enquanto cidadão obrigado a votar. Assim sendo, Collor teria vencido em função do seu charme. Lula, porque despertou a paixão nacional, num país tomado pelo amor ao futebol, e convenceu as elites e oligarquias, com um corte de barba e uma carta, que não causaria grandes confusões no “sistema”. Pelo contrário, aprofundou-o. FHC… sei lá por quê, era um intelectual-lorde-respeitabilíssimo. Se, junto ao voto, os brasileiros fossem orientados a justificá-lo, num papel servido à mesa de votação, talvez nossa juvenil democracia amadurecesse um pouco mais. “Votei em Dilma porque estou satisfeito com a política do PT. Lula melhorou a nossa vida, e essa mulher é guerreira. Acredito nela”, escreveria um eleitor nos idos de 2010.  

Neste ano, nada novo na praça. Seria mais do mesmo: a polarização PT-PSDB, com a donna e o playboy no páreo. Mas olha que despontava outra opção: o pernambucano Eduardo Campos, que, pois é… ele morreu. Como brasileiro, lamento amargamente a morte de Eduardo Campos. Num ano em que outro grande tema nacional nos destroçou (falo dos 7 a 1), desastre semelhante acaba de acontecer na política. Agosto é sempre agosto, e tarda a terminar… Eu votaria em Eduardo Campos, eis o motivo:

Pernambuco é uma terra fértil do pensamento e da mudança. Lançou no ano passado “O som ao redor”. Maracatu, Olinda, Mangue-beat. Toda uma simbologia — ainda que restrita na cabeça de um paulistano, acostumado com os noticiários cultural e político do sudeste — envolvia a voz que vinha de lá. Esse tempo presente que vivemos… Brasil 2000, Finanças Devoradoras do Mundo, manifestações para todo lado… Esse deve ser um tempo que exige mudanças. Mas a velharia no poder, alianças sinistras e jovens apanhando nas ruas, essas coisas impedem a renovação do cosmo brasileiro. (Ó Cosmo, ó teorias do Universo, invocar-vos quando a Razão não alcança a realidade!) Propondo alguma mudança, só mesmo a aliança Campos-Marina — dois divergentes do governo, representantes do Novo-que-sempre-insiste.

O governo atual perdura faz 12 anos: queremos mesmo mais quatro? Os analistas políticos e econômicos, fontes favoritas dos jornais, podem ver que é um tempo especial para o Brasil, quer dizer, se a gente vai resolver nossas questões de calabouço, é agora! Há quem chame Lula de covarde porque, quando usufruía da maior popularidade já obtida por um presidente, ele ainda assim não mexeu nos vespeiros da República. Era, então, Eduardo Campos a propor o fim dos cargos vitalícios na Justiça! Era ele a querer acabar com o nepotismo (concessão de cargos públicos a familiares)! Era ele a propor uma alternativa política fora do jogo PT-PSDB, em que o juiz é o PMDB de Sarney e outros velhacos que atrasam o caminhar da nação.

O Velho permanece.

Com a morte de Campos, saímos perdendo. Mesmo se ele fosse uma promessa vazia, como Neymar. Pois, assim como o jogador do Santos não jogou na final (nunca saberemos se ele salvaria o time, provavelmente não), Campos vai ficar de fora da missa porque morreu em Santos (jamais saberemos…) Algo sombrio nos espreita. Mais brasileiro é o ditado: não adianta chorar o leite derramado…

O local do acidente, em Santos (SP). Foto: G1

O local do acidente, em Santos (SP). Foto: G1

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SEPARAÇÃO

outubro 30, 2012 at 5:55 (Sem categoria)

Por Vinicius de Moraes (anos ’60)

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

P.S. E dou este projeto por encerrado.

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RECEITA PRA LER UM LIVRO

janeiro 17, 2012 at 0:42 (Poesia)

Para se ler bem um livro
Não basta lê-lo, e só
É preciso carregá-lo
para lá e pra cá

Caminhar com ele,
cativá-lo amigo
E nessa amizade,
surrá-lo bem

Terá daí um livro apropriado
Capa arrebentada,
orelhas, marcador
Inteiro revirado

Se o conteúdo for bom e
a procedência, livre das massas
(podendo haver exceções)
a leitura faz efeito

Come-se um livro, porém
as escolas não aprenderam a ensinar,
Não basta enfiá-lo goela abaixo,
professor

É preciso saboreá-lo as idéias
Absorver a tinta, cortar-se no papel
Não folheá-lo à exaustão
Acima de tudo, desaparecer
[na leitura de então

Para o bem ou
para o mau —
García Márquez ou
Dostoiévisk, coisa e tal.

Mas lembre-se, leitor
muito importante!
Os livros indiferentes
não foram feitos para ajudar a gente.

P.S. REMÉDIO CONTRA A FOFOCA
Não fale nada que o falado não possa ouvir.

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MENSAGEM AO POVO PORTUGUÊS

janeiro 6, 2012 at 3:45 (Poesia)

Casa de Amália Rodrigues, em Lisboa

(aplausos)

Apresentador português: … pedem agora a Vinicius umas palavras finais de saudação:

Poeta brasileiro: Bom, me pedem pra dizer as impressões que eu levo de Portugal. As impressões são as mais carinhosas possíveis. Um povo do qual eu descendo e no qual eu tenho minhas raízes mergulhadas e que eu queria conhecer algum dia, porque… Eu sou um homem meio sem pátria, minha pátria é a humanidade — mas de toda maneira, eu queria conhecer o povo português, queria entrar em contato com ele. Um povo com tremendo anseio de viver, de aparecer, de reaparecer na História. Esse povo heróico, que viveu tantas coisas lindas. Um povo que deu um poeta como Luis Camões. Todo cancioneiro português antigo — eu conheço tão bem —, do qual eu me embebi e do qual eu sofri uma grande influência… e então, a impressão que eu levo desse povo, do meu contato com ele, com os intelectuais, com os poetas, com as pessoas, é uma impressão ao mesmo tempo de beleza e de tristeza. Engraçado, porque o contato foi o mais amoroso possível — e esse é o único contato que me interessa. Mas ao mesmo tempo uma impressão de tristeza, de ver esse povo tão formalizado ainda, né. Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar, perder uma série de formalismos que ele conserva. De maneira que o que eu posso dizer sobre o povo português, neste momento, aos meus amigos portugueses, a esses que me trataram com tanto carinho, tiveram tanta atenção comigo — inclusive, uma atenção da qual eu não me acho merecedor, porque ainda também não descobri o meu caminho: Despir-se do seu formalismo!, este é o grande problema do povo português — pra mim, do que eu pude verificar aqui. Integrar-se na Grande Vida!, num negócio que eu também não sei bem como explicar, mas que acho que é fundamental para o ser humano: comunicar-se cada vez mais… Amar-se, amar-se!, sem problemas. Sofrendo muito… o sofrimento faz parte do jogo, não tem importância. Nós somos praticamente cem milhões de seres humanos falando uma língua comum. E a nossa poesia é comum, de uma certa maneira, nós temos os mesmos problemas, a mesma tristeza intrínseca, que é uma tristeza de conhecer o nosso semelhante de uma maneira que outros povos não conhecem. Temos a mesma doçura pra viver, uma certa necessidade de se comunicar — que outros povos não têm —, nós somos os últimos povos que amam e que cantam, não é? E que escrevem uma poesia direita, que tenta dizer qualquer coisa. A minha única mensagem que eu deixo a vocês aqui hoje, na casa da minha querida amiga Amália Rodrigues, essa tremenda cantora, cuja voz eu amo e que pra mim realmente transmite o que seria, digamos assim, um Portugal verdadeiro, a única coisa que eu teria a dizer a vocês é o seguinte: Rompam as cadeias! Vivam! Amem! Amem-se! Rompam as tradições! Rompam os preconceitos! E aí eu tenho a impressão que cada um vai ser… Pode!, pode se tornar mais feliz. Eu acho que o grande problema do ser humano é a felicidade, cada um deve procurar a sua felicidade, e ao procurar a sua felicidade, procura normalmente a felicidade do seu semelhante, não é?

Não sei se eu disse muita bobagem, é?! (ri seco) Mas agora eu quero ir pra minha casa porque amanhã…

(Amália ri com compaixão)

(aplausos)

Apresentador português: Isto foi apenas uma síntese, uma síntese naturalmente precária, para o espaço breve dos discos. De quanto se cantou, de quanto se disse, de quanto ficou gravado, numa noite em casa de Amália com a presença de Vinicius. Um encontro informal de pessoas da mesma família, e que vale, justamente, por esse caráter de informalidade.

19 de dezembro de 1968

 © Transcrito do disco Amália & Vinicius (1970) — faixa 19, “Mensagem”       

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DO QUE SONINHA DISCORDA DE SERRA

dezembro 28, 2011 at 3:39 (Jornalismo)

No ano em que as finanças globais começaram a derreter (ou quando a coisa veio a público), um curto projeto de lei foi aprovado na capital paulista. Com apenas cinco artigos, tornava obrigatória a instalação de bebedouros em danceterias, salões de dança e similares — o que chamou atenção da imprensa. Alguns veículos trataram a questão de um jeito sumário, o que pode ter levado um público sumário a entender a notícia da seguinte forma: depois do nudismo, do aborto e da fumaça, vereadora Sônia Francine, a Soninha, quer dar água de graça para os terríveis consumidores de ecstasy.

A Lei do Bebedouro foi duramente criticada por representantes do comércio. A legisladora, derrotada nas eleições para prefeito no mesmo ano, 2008, estaria incentivando e/ou legitimando o uso de drogas em clubes noturnos. Não foi portanto que agiram como se água fosse escassa em São Paulo, vide o exemplo:

O empresário e diretor jurídico da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Percival Maricato, afirmou que “teremos de arcar com mais essa despesa se quisermos manter o negócio”. Edson Pinto, diretor do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares concorda. “Alguém vai acabar pagando por isso e será o cliente”.
Edson lembra que, quando foi aprovada, a lei havia sido pensada para que o fornecimento de água funcionasse como política de redução de danos para usuários de ecstasy, droga muito usada na balada e que tem como um dos efeitos colaterais a necessidade de a pessoa se hidratar bebendo água para não passar mal. “Quem tem de ter política pública para tratar essa questão é o governo, não os empresários.”
— Opiniões emitidas numa matéria retirada do R7

Jogaram a “culpa” no colo do poder público, mas não adiantou. Sancionado pelo Nosso Prefeito, Gilberto Kassab, o prazo para a adequação dos estabelecimentos terminou em março de 2011. A D-Edge, o Clash e o Vegas aderiram à lei. Segundo comentários na internet, outras baladas também obedeceram,veja só:

Para quem achava que estava falando baboseiras sobre a Lei do Bebedouro na balada, a prova é que fui ao Inferno Club e lá já colocaram.
— Comentário de um anônimo na imensidão sem rosto do Orkut

No mesmo ano de 2011, uma tarde após o Sete de Setembro, Sônia Francine chegava atribulada a seu gabinete na Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco), departamento municipal onde já se cadastraram 70 mil artesãos, desde 1970. Artesanato? “Já fiz. Aprecio muito”. Ela usava vestes de tecido claro e confortável, tipo light. Dali um mês, deixaria o cargo para se candidatar novamente à Prefeitura de São Paulo.

Muitas coisas acerca de Sônia F. fazem com que a Grande Mídia, por meio de fontes escolhidas a dedo, se comporte como um mórmon rejeitando café — os mórmons, como lembrou a pré-candidata, a propósito do que estava em pauta, não consomem cafeína nem álcool. O principal motivo é a relação existente entre a imagem pública da pré-candidata e a planta da maconha.

Dez anos antes de Sônia F. ir para a Sutaco, ela perdera um emprego na tevê Cultura, depois de a revista Época ter estampado seu rosto na capa de uma edição. A manchete era apelativa: EU FUMO MACONHA; a chamada (“Um número cada vez maior de brasileiros ignora a lei e usa a droga”) mostrava claramente a intenção dos editores. Naturalmente, isso arranhou a moral da ex-apresentadora, que ficara conhecida no papel de VJ da MTV. Alguns anos depois da capa-ataque, aproveitando-se do mesmo tipo de apelo comercial, mas com outras intenções de uso, a revista Trip publicou uma foto de Sônia F., que então comentava futebol na ESPN, com a confissão: EU FIZ ABORTO. Nesse caso, a capa se enchia de mulheres famosas admitindo que já cometeram o crime, num argumento editorial a favor de legalizá-lo.

Ir contra às drogas ou a favor do aborto são gestos políticos muito repercutíveis numa sociedade que adora capas. Uma revista como Veja, cujo índice de leitores (mais de um milhão) horroriza algumas pessoas, é plenamente capaz de transformar um simples ato político em algo maquiavélico e partidário, como aconteceu no duelo público entre Dilma e Serra durante as eleições nacionais de 2010. Para demonizar a candidata à sucessão, Veja contrapôs duas fotos de Dilma e soltou as seguintes frases na página, atribuídas a ela mesma: “acho que tem de haver a descriminalização do aborto” e “eu, pessoalmente, sou contra”.

Obviamente, há muita diferença entre ter uma opinião particular e pensar medidas públicas, além disso, a montagem fotográfica tinha claras intenções eleitorais, já que pouco tempo antes, Serra havia sido estampado noutra capa da revista, com um sorriso de pacifista e uma mão dando repouso suave à cabeça. Feito um anjo contra o diabo vermelho.

Ex-ministro da saúde, o candidato também aproveitou a questão do aborto para atacar sua oponente. Muito embora fosse ele próprio um simpatizante da curetagem. “Eu nunca disse que sou contra o aborto, até porque sou a favor”, disse Serra, em entrevista gravada durante a corrida presidencial. Depois, apercebido do ato falho, consertou: “Eu nunca disse que sou a favor, até porque sou contra o aborto. Alguns até me chamam de atrasado” — o programa Jornal Nacional, como seria esperado, transmitiu apenas a segunda parte da declaração.

Veja também já publicou, em 1997, uma capa a favor do aborto nos mesmos moldes de Época: mulheres célebres sorriem e a manchete admite por todas elas: EU JÁ FIZ ABORTO. Aparentemente, as revistas mais circulantes se copiam e contradizem-se. De fato, em 2010, os grandes veículos de comunicação estavam apavorados em relação à vitória eminente de Dilma e mais quatro anos (pelo menos) de PT. Sônia F. também não estava lá muito contente, pois apoiava Serra, que já tinha perdido muita audiência na época da discussão do aborto — pareceu até uma medida desesperada.

Outro assunto com que Serra dificilmente conseguiria ser franco e natural, levando em conta os problemas de violência gerados por tal, é a proibição de certas substâncias. O político se diz contrário à liberalização de “qualquer droga”. Por ele, fica tudo proibido. Já Sônia F., sua parceira política, acredita na mais distante oposição: toda espécie de entorpecente deve sair o mais cedo possível da ilegalidade, principalmente em nome do fim da guerra urbana entre traficantes e policiais.

“Fumei maconha ao longo de vários anos; parei em 2003”, afirmou a pré-candidata, certificando-me de que eu falava com alguém que entendia do assunto. Tornou-se abstêmica porque: 1) a erva atrapalhava seus hábitos budistas; e 2) não se pode obter drogas sem infringir a lei. Uma decisão, portanto, político-religiosa. Ainda assim, careta, Sônia F. faz parte de um grupo imensurável e internacional, defensor da aceitação legal das drogas pela sociedade, para que se acabe a violência gerada em torno dos narcóticos. O principal argumento: proibi-las gerou mais danos à humanidade do que o próprio consumo jamais conseguiu.

“Nunca houve uma sociedade que não usou”, historiou a representante, “não há nada que justifique a proibição senão conjunturas sociais muito específicas”. Na visão de Sônia F., o que move o uso de drogas no Ocidente contemporâneo é apenas o prazer, diferentemente de outros tempos e lugares. E isso, admite a pré-candidata, se tornou uma prática “imediatista”. Algo como — com o perdão da pressa para esta metáfora — apertar um botão e sentir instantaneamente uma espécie de tesão cerebral. Logo, algo muito distante do uso que supostamente se fazia nos românticos e transcendentais anos ’60 norte-americanos.

Foi no início daquele contexto, em junho de 1961, que Nixon, o presidente belicista que se viu envolvido no escândalo de Watergate — graças ao maior golpe jornalístico já filmado por Hollywood —, declarou war on drugs. Nascia então a política de tolerância zeroque conhecemos até hoje: luta-se contra tudo que é bagulho. Os paraísos artificiais foram considerados “inimigo público número um” da América — acima dos comunistas comedores de bebês. Enquanto isso, no Vietnã, soldados que poderiam ter feito parte da Geração do Amor passavam meses tomando tiros e se entupindo de maconha, haxixe, LSD, heroína, ópio e provavelmente cocaína. Proibidas na civilização, as drogas desempenhavam um papel crucial no alívio da dor daqueles que perdiam pernas e braços no inferno da selva. À visão de companheiros sendo incinerados por napalm amigo, militares alucinados . É provavelmente de lá que se popularizou morfina, alcaloide poderoso muito utilizado nos hospitais de hoje em dia. Derivada da flor do ópio, uma de suas propriedades é a anestesia, capaz de aliviar até a dor dos ossos. Até hoje, embora seja extremamente viciante, a morfina é legalizada no Brasil e nos Estados Unidos, com a premissa dos fins médicos.

Sônia F. (que nunca usou morfina, mas já fumou maconha), é agitada, fala muito e tem ótima articulação — o que podem ser resultados de intensas experiências teatrais¹ —, características indispensáveis para o exercício político-público. A ex-vereadora diz que não sofre de problemas de memória nem revela com que freqüência queimava o fumo. Diariamente, ela medita. E dos que meditam, diz: “Tem gente que consegue ver luzes, ouvir sons, sentir coisas”. Pergunto-lhe se há qualquer coisa em comum entre isso e a cultura das drogas, ela deixa claro que sim, há. Como vai sendo explicado ao longo do diálogo, o que há é uma busca do ser humano por experiências sensoriais.

Caso as nações aceitassem o comércio regular de narcóticos, Sônia F. idealiza que haveria contrapartidas. A nível local, “está ao alcance das prefeituras oferecer outras oportunidades para que as pessoas, especialmente os jovens, tenham experiências prazerosas — por meio da arte, da cultura e do esporte, por exemplo. Esportes liberam dopamina! O próprio cérebro tem suas substâncias que causam sensação de prazer… Além disso, são maneiras de afirmação e realização dissociadas do consumo do que quer que seja”.

Sentada de pernas cruzadas sobre uma poltrona de couro, no lado oposto a um quadro redondo com diferentes texturas que fica atrás da mesa onde normalmente se senta a superintendente da Sutaco (e pré-candidata à prefeitura, ex-vereadora, etc.), Sônia F. estima que regulamentar a produção, a distribuição e o consumo de entorpecentes afetaria apenas residualmente a quantidade de usuários; impactaria consideravelmente na redução do crime; e tornaria muito mais segura a vida dos usuários que não apresentam problemas ao fazer seu consumo proibido — ao contrário do que acontece com alguns fãs de Mcdonalds e Häagen-Daz… quero dizer, a obesidade é para um glutão o que os problemas psíquicos são para alguém que tomou comprimidos demais durante muito tempo: não sabia que fazia mal?

Aos domingos, alguns cidadãos preferem assistir ao apresentador Faustão, recentemente operado da obesidade, o que não exclui a existência de trabalhadores que optam por fumar maconha em parques públicos, na esquina ou em casa mesmo, logo depois do expediente. Também há aqueles que praticam esportes, vão ao cinema, fazem sexo. E tem também, naturalmente, aqueles que fazem um pouco de cada uma dessas atividades, e coisas aléns do que seria razoável listar. O sexo, em especial, é posto por Sônia ao lado da questão das drogas, para fins de comparação. “É melhor investir em educação para o sexo seguro, responsável, do que acreditar no ‘diga não’. Em relação à política de drogas, é a mesma coisa. É melhor combater o uso indevido, abusivo, compulsivo, e não ter a pretensão de acabar com o uso por meio do proibicionismo e a guerra”.

Sônia F. acredita que ameaças trazidas pelos narcóticos poderiam ser prevenidas, por exemplo, com uma política de redução de danos. A Lei dos Bebedouros, que tornou-se famosa e pôs o nome de Soninha nos jornais, enquadra-se nesse tipo de tratamento social, reduzindo as chances de desidratação de quem usa ecstasy ou mesmo daqueles que bebem a rodo durante uma balada.


¹ Em 1984, Sônia Francine apresentou-se como Joana, a protagonista melancólica e rancorosa da peça A Gota d’Água, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes onze anos antes da encenação.

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BOLETIM DE OCORRÊNCIA

dezembro 8, 2011 at 1:03 (Crônica, Jornalismo)

Homem de boné tenta assaltar mulher que desce de táxi na frente do prédio onde mora. A vítima carrega duas bolsas, uma com um laptop e a outra com seus pertences, um aparelho celular de última geração e as chaves de casa. Ela espera, do lado de fora do carro, o motorista preencher sua nota promissória, quando das sombras surge o bandido, que a agarra e puxa uma das bolsas com força. O celular cai na guia da rua, e a vítima começa a gritar: “não, não, não!” Tomba e se protege. Assustado, o taxista dá a ré e atropela a mulher na altura do ombro, fugindo para trás. O homem armado usa a coronha do revólver para ferí-la na cabeça. Bate, bate e bate mais. Também dá joelhada. E ela berra: “Não, não, me larga!”, encolhida entre a calçada e o asfalto, de porte físico magro, baixo e delicado. Olhos azuis.

Na cozinha e no banheiro, na TV durante mais um episódio de Fina Estampa, a vizinhança ouve os gritos e permanece num torpor que dura dez segundos. Dez segundos de gritos desesperados. Finalmente, um homem que passa de carro para e grita: “Ladrão! Ladrão!”, e estaciona de qualquer jeito. O alarme soa pesado. O bandido olha para ele, mas não atira. Logo surge mais um homem, da casa vizinha ao prédio, e o criminoso sai correndo com a arma em punho, ainda sem atirar. Quando o primeiro homem desce do carro e vai socorrer a vítima, ela tenta acertá-lo com murro e chute. Ele pede calma, mas se afasta. O segundo homem se aproxima e pensa em recolhê-la, mas atém-se porque há machucados demais no corpo dela, a nível de não se conseguir identificar os pontos feridos. A cabeça certamente está aberta. Será que o desgraçado atirou? Ninguém ouviu nada, mas vai que… Tortamente, a mulher se levanta com a ajuda do segundo homem, que a consola do jeito que pode — “você está em casa… está em casa agora…” —, indicando o caminho para dentro de sua própria residência, ao passo em que um aglomerado de vizinhos desconhecidos se forma na frente dela.

Miriam está em choque. O sangue recobre suas costas, mancha a camiseta branca, borra a tatuagem embaixo da nuca. O cabelo, ensopado e viscoso, esconde o rosto que chora sem controle, os cortes profundos no cocuruto nublam a mente, que trabalha para assimilar o ocorrido: “ele me espancou… ele me espancou muito…”, repete, soluçando. Diz que o sujeito tentou pegar seu celular. “O celular…” Preocupa-se com isso, pede para que alguém o limpe e confira se está funcionando. Trazem dois sacos de gelo e colocam na cabeça e no pulso machucado da vítima. Ela pede água com açúcar, bastante açúcar, e enquanto alguém segura o celular para ela, procura na agenda o número de uma amiga que mora perto. Há pelo menos duas contusões preocupantes no lado esquerdo de sua cabeça. É importante saber se ela consegue raciocinar. Parece que sim, pois faz questão de reconhecer: “Estou em estado de choque”. E, com um esforço, olha para as pessoas que a ajudam e dá um sorriso de compaixão.

— Obrigada, obrigada por me acolher…, diz. Sua amiga atende ao telefone. “Oi… eu tava chegando em casa… um homem me bateu…”. A voz do outro lado da linha faz com que Miriam volte a chorar, e ela fala tremulamente que está na casa do lado da sua. Desaba mais uma vez, recompõem-se. Sua amiga já vem. Parece não sentir dor nenhuma, a despeito da mão inchada e do escorrimento incessante, que enfrenta o gelo. As oscilações de humor, entre o autocontrole e o desespero, vão diminuindo, e Miriam chega a rir da própria desgraça. Aponta para o ombro esquerdo e comenta: “Essa mancha é porque o táxi me atropelou… Ele fugiu, ficou assustado…”. Há uma larga faixa cinza sobre parte do seu busto. Ela ri nervosa e longamente ao final da frase. Depois contorce o rosto e chora mais, um choro seco e curto.

Retomada a parte mais imediata da consciência, Miriam conta aos poucos o que presenciou, na seguinte ordem:

Voltava do Aeroporto de Guarulhos, recém-chegada de uma viagem de negócios. Voltaria para a Europa em dois dias. No instante que precedeu o assalto, suspeitou de um carro escuro parado na esquina, com gente dentro, mas recusou a sugestão do taxista para que desembarcasse na garagem do prédio. “Essa região é perigosa, dona”, ele disse, mas não adiantou. Do automóvel suspeito, saltou um homem de boné, enquanto a passageira descia do táxi. Era, mais precisamente, um moleque de 16 a 20 anos, com possíveis antecedentes criminais. A cidadã tentou resistir ao assalto, impedindo que o criminoso levasse suas propriedades. Ele reagiu brutalmente, acertando repetidas vezes a cabeça dela, o que provocou marcas profundas. Quando caiu, gritando muito, ela machucou o pulso — entre outros ferimentos que não conseguia identificar, embora soubesse que estavam ali, no dorso ou nas pernas. Potencial homicida, o criminoso continuou a violentá-la mesmo no chão, num estado de ira. Foi embora somente quando avistou dois homens, não levou nada consigo.

No local do crime, vizinhos que nunca se viram no cotidiano falavam abertamente do desastre. O primeiro homem a socorrer a vítima desculpava-se porque tinha operado o joelho recentemente. Estava manco, portanto não pudera ajudar a moça com mais presteza. Uma senhora de cabelos brancos sugeria que os bandidos tinham seguido o táxi desde o aeroporto até a casa da passageira, no que seria um modus operandi comum; um guarda de moto, jovem e esguio, contratado pela vizinhança há poucos meses para cuidar da questão da segurança, tema recorrente na região, sorria amarelo e contava uma versão:

— Vi o moleque entrando num carro e segui o carro, mas essa moto é fraca —, ele explicou a alguns vizinhos, indicando as falhas de seu veículo, fornecido por uma empresa. Que carro era? “Um Vectra”. Anotou a placa? “Não deu”. “Ela tava vindo do aeroporto?”, questionou, sem saber que concordava com a tese da velha senhora. (Será o diabo que há uma modalidade de assalto assim em São Paulo? Perseguição calculista, do aeroporto internacional à casa da vítima, seguida de ataque violento, em busca de alguns euros não-trocados.)

Um dos vizinhos sugeriu uma medida radical: “Isso daqui”, exclamou, desenhando o quarteirão com os braços, “tem que ser um quadrado fechado! Com seguranças armados”, completou, apontando o que poderiam ser pontos estratégicos para uma vigília medieval. Os seguranças de moto, agentes terceiros de alguma firma de segurança, com veículos impotentes e desarmados, não bastavam para esse senhor. “Tem um quarteirão de polícia a quatro quadras daqui…”, lamentou outro vizinho, e deu um suspiro indignado o suficiente para representar toda a capital paulista. Os vereadores poderiam ser representantes de tipos específicos de sentimento social, de modo que haveria o candidato da indignação, o da vigilância extrema e o da raiva — e que este último existisse para ser solucionado na Assembleia, por um vereador da igualdade, ou executado em praça pública, pelo eleito da vingança social. O morador do joelho recém-operado culpou a presença de um shopping-metrô pela ameaça que hoje ronda sua casa. “Moro aqui desde os doze anos. Desde que instalaram esse shopping, a molecada começou a roubar”, determinou, referindo-se aos moleques que geralmente ficam do lado de fora das lojas.

Num momento de respiro, abatidos pela situação, os vizinhos todos se entreolharam. Esperavam a polícia chegar, e Miriam saiu da casa em que se recuperava para subir a seu apartamento, ao lado da amiga e muito sangrenta e encolhida. As pessoas olharam curiosas, perguntaram se estava tudo bem, disseram palavras de consolo, como “fica com Deus”. Ela insistiu que sim, estava bem, e foi ao sétimo andar, para limpar os ferimentos na cabeça e procurar outros machucados no espelho. A amiga seguiu junto, muito séria e inconformada. O pequeno aglomerado lamentou, lamentou sinceramente o estado da vítima, e alguns reclamaram da demora da polícia. A merda estava feita, era preciso registrá-la. Por sorte de Deus ou do Acaso estava tudo bem. “Essa aí nasceu de novo”, ouviu-se no meio do burburinho minguante, “ele tinha tudo pra atirar…”, cogitou-se. Com alívio.

A polícia finalmente veio em duas viaturas, no momento em que a vítima se arrumava em casa. Quatro policiais desembarcaram e fincaram posições diante da vizinhança, indiferentes à comoção pública e sem muitas palavras. Ouviram os relatos, apenas. Do interior de uma das viaturas, a rádio-patrulha falava de um carro suspeito visto numa adjacência próxima e que havia entrado na maior avenida das redondezas. O policial aumentou o volume de propósito. Dois vizinhos revezaram-se para contar suas versões —aquele que era da opinião do condomínio fechado e o outro que levantava suspeitas sobre os frequentadores do shopping-metrô. A maior parte das pessoas não fez questão de cumprimentar os homens da lei, exceto por um rapaz que chegou depois de todos dando as mãos aos fardados.

Vista da esquina, a presença da polícia era prática, quase técnica. A solução para as inseguranças do bairro — e essa era uma ideia que se formava, sem que ninguém prestasse atenção nisso — devia vir de cada um dos moradores. Cada um por si. Essa noção crescia na medida em que eles se dissipavam e retornavam sozinhos às televisões e aos afazeres domésticos, com a questão da segurança reavivada na cabeça. E agora, laminar os muros? Gradear as janelas? Fazer mais o quê, depois de já ter contratado os motoqueiros? Parecia que bastava, mas um deles foi incapaz de impedir a violência contra uma moradora e sequer anotou a placa do carro do fugitivo.

Com uma toalha amarrada em volta da cabeça e roupa nova, limpa do sangue, Miriam atravessou a portaria ao lado de sua amiga e elas entraram num carro, dirigido pelo marido da segunda mulher. Os três ainda ouviram as últimas considerações dos vizinhos preocupados. Uma dona de casa checou se a vítima carregava o cartão do plano de saúde. Ela disse que sim. O motorista fez um sinal positivo com a cabeça e ligou o automóvel, sem dizer nada. Estava obstinado para chegar ao hospital. Ninguém quis fazer um boletim de ocorrência, nem a polícia insistiu. O homem do joelho operado desculpou-se de novo, desta vez diretamente para a vítima. Disse que não tinha ajudado mais porque sua perna não estava boa.

¤ Foto por Olívia Fuchs

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LIÇÕES RODRIGUEANAS

outubro 5, 2011 at 2:50 (Filosofia, Jornalismo)

Pondé bate, mas elas gostam de apanhar

Em novembro passado, cinco alunos do curso de Publicidade & Propaganda apresentavam o último trabalho de Semiótica, numa universidade conhecida por cobrar altos preços, em São Paulo. A exibição de slides num painel branco os auxiliava na abordagem do tema, enquanto o professor da turma os avaliava de um assento na primeira fileira. Luiz Felipe Pondé tomava notas em alemão.

Vestindo roupas de grife, um estudante japonês inicia a palestra com jeito de quem decorou cada linha do pedaço de papel que aperta nas mãos. Ele se esforça para concatenar ideias sobre o assunto — a organização do crime em redes —, mas tropeça no nome do autor. “Segundo Manuel Cástells…”, pronuncia. A acentuação do “a”, em vez do “e”, chama a atenção do professor, que intervém de imediato: “Castells”, pontua.

Apesar do corretivo, pouco tempo depois, o estudante insiste no erro fonético: “Cástells acredita que…”. Novamente, com satisfação, Pondé o corrige. Um colega loiro, já inquieto, aproveita a brecha para colaborar: “castelos”, ele diz, criando um jogo de variações em cima do sobrenome do sociólogo espanhol. “O autor, Manuel Cástells…”, repete o aluno japonês; “Castells”, ajeita o professor; “castelos”, completa o colega loiro. E a ciranda vale nota.

Para encerrar a apresentação, depois de ouvir os cinco integrantes do grupo, o professor questiona dois deles sobre o tema. A avaliação falada é um dos seus métodos favoritos. Depois de anos dando aula, ele ainda se diverte com o desespero dos estudantes que não sabem o que responder. A intenção é provocar neles a sensação de medo e dificuldade, num exemplo prático do que é a vida cotidiana sob as amarras da condição humana. Para Pondé, “a prova oral é um instante formativo supremo”.

Numa manhã de segunda-feira, o filósofo chega da rua vestindo camisa social branca, calças jeans e tênis all stars verdes-musgo. Um grau de estrabismo marca o seu olhar, por trás de óculos que se assemelham, em forma e tamanho, às cavidades oculares. A sala do seu apartamento, num condomínio do Alto da Lapa, é decorada por imagens religiosas de todas as tradições. Símbolos judaicos, hinduístas e budistas ilustram as paredes e os móveis, exceto a mesa de centro, onde figura um livro-coletânea de capas da Folha de São Paulo. Num canto, uma vitrola embutida no móvel repleto de LP’s; noutro, uma cabeceira sobreposta por cinzeiro, cachimbo e dois isqueiros. O ar rescende a tabaco.

Da porta de entrada, uma figura alta, com cavanhaque aparado, indica: “À biblioteca”.

Nas prateleiras emparedadas do pequeno aposento, centenas de títulos dividem espaço com uns quadros de intelectuais famosos. Eles passam os dias observando a sala de leitura e de trabalho, com exceção de Platão, que vive admirando o mundo ideal. O perfume de tabaco exala mais intensamente na biblioteca de onde saem as colunas de Pondé. Neste momento, o primeiro texto de abril está em posse de aproximadamente 300 mil cidadãos, que ainda não terminaram o café da manhã e já se deparam com a afirmação de que o ser humano faz guerras porque, no fundo, gosta de matar. Com tais linhas, orgulhoso, o autor espera ver sua caixa de e-mails encher-se de comentários.

Atrás da escrivaninha, na qual repousa uma escultura em bronze de Dom Quixote, o colunista não separa o ato de se sentar com o de pegar no cachimbo. Tal vício, segundo diz, humaniza-o. “Desconfio muito de gente que não tem vício nenhum. O vício nos mostra como somos fracos”, afirma Pondé, que não também não confia em ninguém que se ache “do bem”. Salvar baleias e defender o vegetarianismo são práticas que o filósofo considera dignas de “inquisidores da Idade Moderna”.

Pondé chegou a estudar quatro anos de medicina, mas desistiu dos bisturis para se empenhar num tipo menos sangrento de autópsia. Em filosofia, a análise moralista cuida de dissecar a alma humana, como num estudo da anatomia do espírito. Nesse empreendimento pela compreensão do Homem — sem formular curas ou autoajuda —, o filósofo identificou-se com autores de linha cética e pessimista. Com a experiência de um emprego no necrotério e após horas infindas de terapia, Pondé atualmente se considera um homem trágico, medieval e “cada vez mais niilista”. Além disso, vive com três lhasa apso.

Entre uma cachimbada e outra, sempre a tragos calmos e pausados, o filósofo se delicia ao dizer que não existe respeito no amor. “Ninguém que ama respeita o parceiro, há sempre um grau de invasão”, vaticina. Para ele, que é casado há trinta anos com a mesma mulher, é puro marketing de comportamento o maridão contar aos amigos que respeita a esposa. Por outro lado, ele culpa a esquerda clássica dos anos ‘60 por ter contaminado a opinião das moças de hoje, levando-as a crer que o homem é sempre opressor, político e machista.

Entre as dezenas de livros empilhados na mesa da biblioteca, destacam-se dois títulos: “A vida como ela é” e “Mulheres gostam de apanhar”. Conterrâneos de Pernambuco, Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues dividem a opinião de que só as mulheres neuróticas reagem em face da brutalidade masculina.

Em colunas polêmicas, Pondé explora com linguagem afirmativa e enfática, às vezes em tom de confrontação, as conseqüências da emancipação feminina. Em outras palavras, explora como o ser fêmeo estragou tudo ao tomar alguns papéis que antes eram exclusivos do macho. Numa delas, “Restos à janela”, o colunista declara que está preocupado em ajudar o leitor (homem), alerta-o para mulheres peludas que desejam transformá-lo num eunuco e encerra dizendo que essas peludas, enganadas pela emancipação, “morrem à janela, contemplando o próprio reflexo”.

“Muitas mulheres investiram na carreira e ficaram sozinhas, com a cama vazia”, analisa Pondé, cavando o cachimbo numa boceta de couro (literalmente), onde guarda o tabaco. Para ele, não é um machista quem percebe que a conquista de direitos causou danos ao gênero oposto. “A emancipação feminina é um grande processo de desencaixe social”, diz. Seu argumento é conhecido: as meninas se tornaram excessivamente fálicas, enquanto os homens, diante do poder obtido pelo segundo sexo, ficaram demasiadamente inseguros.

“A minha fala é antes de tudo a fala de um cara que gosta de mulher. Só uma azeda não percebe isso”, afirma o filósofo, numa biblioteca enevoada. Leitoras azedas, contudo, não faltam para as colunas do filósofo. Nas palavras dele, a “maior parte” dos leitores que se manifestam são mulheres, e dessas remetentes a “maior parte” envia a Pondé e-mails “simpáticos e apaixonados”. Existe um coro crítico, no entanto, que eventualmente se rebela contra os textos do colunista. “O que move grande parte dessas feministas raivosas é o fato de elas serem mal amadas, e elas ficam putas comigo porque eu digo isso a elas”, justifica ele, assoprando uma nuvem.

O filósofo está para escrever uma coluna sobre o que ganharam os homens com a emancipação feminina. Não é sem pesar que ele relembra o tempo em que as universidades e empresas só tinham membros do sexo masculino. Felizmente, quando as mulheres decidiram colocar seu metafórico órgão fálico sobre a mesa da sociedade, a coisa mudou — e para melhor. “Elas são suaves, macias, cheirosas, gostosas, perfumadas. As mulheres no ambiente de trabalho são uma delícia”, elogia Pondé.

Suas “leitoras azedas” diriam que tal opinião é machista, porque considera apenas os aspectos estéticos das mulheres. Muito embora o filósofo acredite que tratá-las como objeto seja “uma das formas mais profundas de amor” — como deixou claro numa das mais recentes colunas —, Pondé sustenta a ideia de que a capacidade intelectual é a mesma entre os gêneros. Suas cachimbadas, apesar de densas, são sempre comedidas.

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ELIANE BRUM E SEU JORNALISMO

junho 1, 2011 at 2:07 (Crônica, Jornalismo)

As lições de uma repórter em ascensão literária

Gaúcha, lá de Ijuí, a moça morena e ansiosa que sobe ao palco tornara-se uma jornalista respeitável e muito respeitada, nas últimas duas décadas. Quem a vê em discurso não imagina que Eliane Brum já passou dos quarenta. A postura e o fôlego da escritora de não-ficção, convidada para falar do ofício num congresso, fazem-na parecer mais jovem.

Quando se entregou ao jornalismo, tinha 26. Trabalhava para o jornal Zero Hora, publicação conhecida no Brasil inteiro, mas circulante apenas no Rio Grande do Sul. Linguagem rica e diferenciada, principalmente nas capas — pelo que se diz em São Paulo —, a ousadia do jornal foi levada a cabo por Eliane B., que do diário partiu para a revista Época, onde escrevia histórias diversas, todas jornalísticas. Entretanto, histórias repletas de literatura, como se fossem de ficção, mas fieis à realidade: sem invenções, como se faz nas reportagens.

“Eu sou o que me chamarem”, diz ela, em resposta ao mediador do debate, que perguntou se Eliane B. se considera uma jornalista-escritora. O rótulo foi usado pelos organizadores do encontro para intitulá-lo. Os jornalistas(-escritores) Juca Kfouri e Moacir Japiassu completam a meia-lua no palco, sentados em poltronas giratórias. Certa Mega Brasil, que promoveu o evento, conseguiu atrair grandes nomes da profissão. Somente Ziraldo não viera, no primeiro dos dois dias de palestras. O auditório está meio cheio nesta manhã de quinta-feira, 26 de maio, e Eliane B. parece muito ansiosa. Ela finca o salto-alto no chão e faz movimentos repetitivos, com força. Sob o calcanhar dela, o chão deve ranger.

Entrementes na carreira, Eliane B. publicou três livros. O quarto deve sair no final de junho, se acontecer como ela diz. Chamar-se-á “Uma duas”, sobre a relação de uma mãe com sua filha — a autora não dá muitos detalhes. “A vida é caos. Minha busca é pelo entendimento de como as pessoas lidam com ela”, afirma. Quando entrevista alguém, a repórter não costuma fazer muitas perguntas. Tem prestado atenção nisso. Acha que fazer perguntas é “uma forma de controle”.

Eliane B. é do tipo de jornalista que atenta para o gestual das pessoas. Os gestos, para ela, valem tanto quanto as palavras. Em sessões de entrevista, a repórter usa dois gravadores e um bloco. “Eu sou uma ‘escutadeira’ do outro”, explica. E diz que sofre para escrever, mas não tanto quanto os outros dois convidados do evento afirmam sofrer.

Quem a ouve deduz que Eliane B., quando vai fazer uma entrevista, fica calada diante da pessoa, com muita atenção e silêncio. Deve falar somente quando é indispensável e economizar os próprios gestos. Certa vez, uma “fonte” achou que a vida da jornalista era ouvir suas histórias. Em boa parte, a vida de Eliane B. é escutar os outros, como ela mesma diz. Mas de modo severo, como se respondesse agora àquela “fonte”, a repórter pontua que tem família e vida pessoal.

Acostumada a fazer longas reportagens, em formato de revista ou livro, Eliane B. dedica semanas e meses às pessoas sobre quem escreve. Nesses períodos, “esvazia-se”, como diz, para ser preenchida pela realidade que observa. “Antes de ir para o papel, a reportagem se escreve dentro de mim”, afirma.

Filha de professores e pertencente à segunda geração alfabetizada da família, Eliane B. um dia quis escrever sobre as conseqüências de um movimento comunista, a Coluna Prestes. Fez um livro sobre o “povo do caminho”, gente que se interpôs à jornada de Luís Carlos Prestes, na década de ’20. Mais especificamente, trata-se de um livro-reportagem baseado em histórias de cidadãos que viram suas províncias serem invadidas pelo grupo nômade e ideológico de Prestes. Estupro e violência marcaram a caminhada daqueles soldados, como atesta Eliane B., que reportou os acontecimentos quando ainda trabalhava para o jornal Zero Hora. O editor chefe do diário, naquele tempo, era Augusto Nunes.

Parcialmente cheio, o auditório do Centro de Convenções Rebouças —onde estamos — dá risadas, quando Eliane B. conta: “Ele me pediu para escrever sobre a Família Real. Eu disse: Desculpe, Augusto, mas meu sonho é escrever sobre a Coluna Prestes”. O editor, presente na platéia, a encorajou. Daí resultou “Coluna Prestes – O avesso da lenda”, publicado em 1994.

Antes das 11h30, Eliane B. continua a pressionar e girar o salto-alto contra o chão. Por um momento, ela para. Deixa os pés suspensos enquanto relata seu primeiro sucesso na vida de repórter. Juca Kfouri, Moacir Japiassu e o resto dos presentes (estudantes, a maior parte) escutam-na com atenção.

Ainda na universidade, Eliane B. escrevera uma matéria sobre filas (assim, “filas”), que fora levada a um concurso. Na bancada de avaliação, havia jornalistas e publicitários. Os jornalistas julgavam que o texto era literário, enquanto os publicitários diziam que se tratava de uma reportagem. “Como tinham mais publicitários que jornalistas, eu venci”, concluiu a moça. Mais uma vez, igual acontece em jornais e revistas, a publicidade sustentou o jornalismo.

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POÉTICA

junho 1, 2011 at 1:41 (Poesia)

I

Por duas vezes na vida

Fiz poesia

Na primeira, era criança

Da última, já morria

II

Condenai-vos, irmãos

Aqueles que dentre nós

Pensam na vida como

Na fome pensa um cão

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A LUTA DE CLASSES NO SETOR FINANCEIRO

junho 1, 2011 at 1:34 (Jornalismo)

Reportagem especial dividida em três partes, na seguinte ordem:

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