A VIZINHANÇA DISTANTE
Há medo e desconfiança naquela calma rua daquele torto bairro.
Preocupações neurológicas, quase neurastênicas, e intranqüilidades desenvolvidas a base de notícias trágicas de terror, dadas repetitivamente e sem cessar, em formatos televisivos, radiofônicos e impressos, regem os modos de viver daquele logradouro. Ainda que fruto das desigualdades sociais, a paranóia dos avizinhados não se atém apenas à eterna luta de classes, que se espatifa em crimes vis veiculados através de meios jornalísticos venenosos. As grossas paredes das residências enfileira
das também protegem seus habitantes de quaisquer contatos, espirituais ou físicos, entre si próprios, e de todos os inconvenientes silenciosos que isso viria a ocasionar.
Proprietários habitam dócil e quietamente as casas do corredor público que se estende por toda uma distância, entrecortada por medos discretos e contenções que evitam dúvidas inerentes à condição humana. Pois há medo de conhecer ao próximo e medo de não ter medo naquela vizinhança. E também há medo de fazer barulho e medo de escutar, um terrível sentimento de auto preservação predomina, com um inefável calor humano alojado que, se libertado, traria união aos locados próximos. Então, seria a vida mais digna, no lajeado. Caso o frio da TV, agasalhado pelas moles almofadas dos sofás, não fosse mais confortável que o calor das portas e portões das casas. Se os recortes de entrada e saída das residências servissem para a comunicação real que, ao contrário da massiva, irreal, alentasse nas conversas parceiras os habitantes daquela via de solidões. Assim agissem os contidos dos cubículos, e a vida seria mais generosa, desprendida e solidária.
Porém, tudo segue em paz nos quadrantes disformes daquele paralelismo, onde coexistem indivíduos medrosos. As calçadas desniveladas e o asfalto esburacado dividem, entre baratas e automóveis, a passagem. Transeuntes sem rosto passam desatentos, sem enxergar os lares que os rodeiam, nos quais vivem seres à sua imagem e semelhança.
GRANDE COLETA TEM ÊXITO EM DIA ENSOLARADO
↓ Um Teto Para Meu País↓
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Organização arrecadou fundos para a próxima obra, que será realizada em novembro
O jovem paulistano foi às ruas no último sábado, dia 29 de agosto. Enquanto manifestantes do Greenpeace colhiam assinaturas para a próxima conferência internacional sobre mudanças climáticas e baterias universitárias ensaiavam para uma competição noturna, estudantes das mesmas universidades, entre outras, coletavam dinheiro nos faróis vestidos com a camisa da organização Um Teto Para Meu País.
Cerca de trezentos voluntários se espalharam por cinqüenta esquinas da capital paulista com cofres em forma de casinhas e cartazes bem humorados. Sob sol forte e céu limpo, das 8h às 17h, centenas de motoristas foram abordados e ouviram explicações breves – até o sinal ficar verde – de qual motivo levava aqueles jovens aos pedidos de contribuição.
Preparatória a mais uma construção de casas emergenciais, a iniciativa foi um sucesso. Para se levantar dez lares novos a famílias que necessitam de melhores condições de moradia, através das obras promovidas pelo projeto, é necessário um montante de 35 mil reais. Apenas no dia trabalhado, aproximadamente, 40 mil foram arrecadados.
Agora, duas comunidades carentes serão beneficiadas com o resultado da ação coletiva. Uma favela em Suzano, no interior de São Paulo, e outra em Guarulhos terão novas residências construídas a partir do montante creditado pela 1ª Grande Coleta feita pelo grupo de universitários. Em novembro, famílias inteiras passarão a viver substancialmente melhor graças a quilos de moedas e maços de notas pequenas doadas por transeuntes alegrados pelo calor solar, e ao esforço daqueles estudantes que levaram adiante a proposta de ocupar um dia de sábado com consciência social.
A CAFEÍNA AJUDA
A cafeína ajuda.
Há momentos em que a percepção sensorial fica bem apurada. Nestes instantes, a capacidade de escrever se torna incrível, fazendo com que nasçam textos belíssimos. Porém, bons textos são produtos finais de uma manufatura intelectual que exige um esforço ardiloso, como esculpir e pintar, com a vantagem de que as palavras representam a extensão dos pensamentos elaborados em suas formas mais explícitas e inusitadas
Coisa que complica o desenrolar da escrita é a confusão mental, pois fácil não é organizar os próprios pensamentos, principalmente quando a intenção de um texto é atemática e visa ao objetivo quimérico de esclarecer subjetivismos da vida contemporânea. Os grandes filósofos devem ter sido viciados inveterados em café, além de terem tido a incrível capacidade de botar em ordem todos os seus pensamentos através da escrita. A destreza de descrever e explicar os monstros e beldades da cabeça e realidade humanas é um talento reservado a poucos. Desta minoria, uma parcela menor ainda se faz reconhecida por meios acadêmicos e de comunicação. Filósofos e escritores são cérebros desesperados presos em corpos vagais que fazem um trabalho desgracioso. Escrever por hábito ou necessidade é pernicioso, mas alguém tem que fazê-lo.
Observar os acontecimentos de um mundo lotado de demônios, por si só, já é uma tarefa árdua. Refletir sobre a sociedade e suas características mais efêmeras, raciocinando isto em dias de distrações profanas, onde espetáculos vazios dominam a cabeça de massas desvinculadas e imensas, é um tipo de dedicação que exige a depredação da própria consciência e um esforço depressivamente ardil. Afinal, escrever é benção de amaldiçoados.
É tempo de luxúria, diga-se. A partir do momento em que um burguês decidiu arrancar fora a cabeça de um nobre para criar a nova nobreza, ideais de propriedade privada e o desejo de se obter uma consciência soberana sobre o globo completo têm assombrado a convivência dos mais humanos seres. A idéia de que os pertences individuais devam ser mais valorizados do que a própria existência de um ser semelhante acomete a Razão de pessoas que destroem o que tocam. Um sujeito deve enxergar em outro a veracidade suprema de sua criação, mas acaba por pisar em cima do que lhe é alheio, pisoteando e tapando as narinas. Alguém que vive em São Paulo sabe bem que há muitas pessoas por aí andando surdas de aparelhos musicais e vivendo sem consciência cooperativa alguma, desesperadas por satisfações momentâneas. Nos jornais, já se fala no risco de calamidades ambientais destroçarem as grandes sociedades humanas. Nas confabulações, ouvem-se alegorias forçadas.
Sempre haverá os que brindam às maravilhas pós-modernas. A tecnologia cheia de euforia, o entretenimento lotado de convencimento, a publicidade estúpida querendo ser comprada. Se existe uma palavra que defina a mor realidade de nosso tempo, esta é a embalagem.
Todas as concepções de valores foram envoltas por estética e interesses egoísticos. A percepção das coisas, enquanto reais e sólidas, foi abalada e desfez-se junto aos significados estabelecidos da existência humana, em quaisquer regiões ou eras. A realidade contemporânea é espetacular. Com maneira simplista e enigmática, pode-se dizer que as realidades humanas ocidentais – e, inclusive, todas as suas interpretações – se aglutinaram em uma imposição caótica e ilustrada.
DONA MARIA, 101 ANOS, 79 COMO MÃE
↓Perfil publicado na edição dos dias 9 e 10 de maio do Hoje Jornal↓
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Mãe de seis filhos conta sua trajetória maternal de longevidade incomum

Quando atende ao telefone, a dona Maria Spolariq Anannias teme não se expressar com clareza ou compreender mal as coisas que lhe são perguntadas. Sua lucidez é incontestável, mas mesmo assim, essa senhora de 101 anos prefere transferir a ligação à sua filha Heloísa Anannias.
A professora aposentada de 68 anos descreve a sua mãe como ativa, alegre e independente. “Ela gosta muito de viver”, afirma, antes de se aprofundar na história da matriarca, que vive em Santa Bárbara do Oeste, cidade próxima à Americana, na Região Metropolitana de Campinas. Heloísa conta que dona Maria passou a maior parte de sua vida trabalhando, mas que a labuta nunca a deixou ausente da união familiar.
“Minha mãe sempre trabalhou muito, dentro e fora de casa, mas não era ausente para nós, pois sempre ia verificar se estávamos bem”. Quando não podia ver seus seis filhos, entre eles, cinco mulheres, duas já falecidas, e um homem, era responsabilidade dos irmãos mais velhos tomarem conta das caçulas.
Na roça e na cidade, dona Maria sempre teve empregos relacionados ao algodão, o que mais tarde lhe causaria complicações pulmonares, devido ao pó liberado pela matéria prima, mas nada que tenha afetado de maneira crítica a sua saúde inabalável.
Nos idos de 1930, após ter-se mudado de sua cidade natal, Piracicaba, com seus vinte e poucos anos, a senhora Anannias colhia a fibra esbranquiçada para um russo proprietário de terras em Santa Bárbara. Quando sobrava tempo, ocupava-se de cortar pés de cana-de-açúcar para abastecer à tal de uma Usina D Cillo, que já não existe mais. Era época de impulsão industrial na região, motorizada pela indústria usineira.
“Na roça, a vida era dura. Na cidade, melhorou. Eu trabalhava oito horas por dia em uma fábrica e tinha mais tempo para meus filhos”, explica a piracicabana sobre sua rotina no centro do município. Nesse período, a idosa manufaturava embalagens feitas de algodão para o açúcar que era produzido nos arredores da cidade. A esse ofício, realizado no estabelecimento Cervone, dona Maria dedicara-se por 33 anos.
Enquanto se ocupava com a atividade fabril, seus filhos estudavam ou repousavam em sua residência. O pai, outro funcionário industrial, voltava para o lar sempre à hora do almoço. Os tempos de ausência doméstica não eram problemáticos. “As crianças daquele tempo eram mais boazinhas., pois, na época, não havia a malandragem de agora. Eu deixava uma cadeira encostada na porta de casa e ficava tudo bem com elas”, descreve a senhora que, fora do serviço de fabricação, cuidava dos negócios familiares e de sua habitação.
“No domingo, a gente fazia um almocinho bom, tomava um cafezinho, um chá. A família foi sempre muito unida, só quando todos cresceram que fomos nos distanciando um pouco”, comenta. Seu marido, João de Deus Anannias, faleceu em 1986, após um casamento de 55 anos.
A casa para a qual dona Maria se mudou, durante o primeiro ano de vida de Heloísa, há 68 anos, é a mesma em que ainda vive. O jardim é cuidado por sua filha, os dois quartos, a sala, a copa e a cozinha que constituem o ambiente continuam no mesmo lugar. A aparência dos aposentos está diferente, mas o amor de sua proprietária pelo lar continua o mesmo, firme como a estrutura do local.
Hoje, não é sempre que Maria Spolariq Anannias se encontra em casa. Ela recebe o apoio das filhas para viver o cotidiano e passa alguns dias nas residências das parentas, quando não são estas que visitam a mãe na antiga propriedade. Bem humorada, a aposentada aprecia sua relação com as descendentes. “A gente bate bastante o papo, damos risadas, elas cuidam muito bem de mim. Eu gostaria de fazer os serviços domésticos, mas elas não deixam. Antes eu cozinhava, lavava roupa, passava. Agora, estou enxergando meio mal e elas não deixam que eu trabalhe, sabe, querem cuidar de mim”, elogia essa matriarca exemplar que colhe todo o amor que plantou.
“Ser mãe deu trabalho, mas no fim deu tudo certo”, diz enérgica, aparentando ter a voz de uma senhora de 70 anos. Pois não, tem 31 a mais.
PROJETOS VISAM COTAR 60% DAS VAGAS FEDERAIS
↓Reportagem publicada na edição do dia 16 de maio do Hoje Jornal↓
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Universitários protestam contra o sistema de cotas
Se aprovadas, as leis reservarão 50% das universidades federais a estudantes da rede pública e 10% a pessoas com deficiência física
Dois projetos de lei visam reduzir em 60% as vagas de entrada por mérito às universidades federais. Os documentos defendem a reserva de 50% do corpo discente a estudantes do ensino médio público, com divisão entre negros, indígenas e cidadãos de baixa renda, e 10% a pessoas portadoras de deficiência física.
Um deles, o que defende a cotização de metade do espaço estudantil universitário para colegiais de instituições públicas, segue a linha e extrapola os moldes de projetos já aprovados. Dois exemplos são os da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal do Norte Fluminense (UFNF), que separam um piso de 40% das vagas à população negra ou parda. Dentro do modelo em tramitação, 25% seriam segmentadas aos vestibulandos de baixa renda. As reservas étnicas seriam determinadas proporcionalmente às estatísticas populacionais regionais das instituições federais.
O segundo Projeto de Lei já foi aprovado pelos deputados da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Agora, está no Senado, aonde aguarda aprovação. Se votado, mais dez por cento do espaço estudantil das universidades estarão especificados a uma fatia social.
Os argumentos contra e a favor são diversos. Do lado oposicionista, alegam que as medidas são segregacionistas, racistas e que reprimem o mérito da vitória no processo seletivo. Em prol das modificações, simpatizantes declaram que o país viveu 400 anos de escravidão e vivencia fortes traços de desigualdade social, portanto, seria justa a inclusão dos desfavorecidos às instituições públicas do ensino superior brasileiro através do sistema cotista. No entanto, a Constituição define que todo civil é igual perante os direitos e deveres do cidadão. Será constitucional, então, estabelecer uma regra em que aspirantes a universitários serão discrepados e terão espaços desiguais?
Argumentação
O presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO) é contra as medidas, mas sugere um máximo de 30% de vagas reservadas aos beneficiados por questões sociais e financeiras, descartando a inclusão de deficientes físicos. Ele considera 60% um exagero que extermina o mérito pessoal de vencer a imposição dos vestibulares. O Senado adiou a decisão de aprovar ou não os projetos referentes, marcada para o último dia seis, alegando falta de acordo e consenso para a adoção dos modelos.
Para o sociólogo Oswaldo Fuchs, separar o número de vagas das universidades federais em cotas é uma espécie de perpetuação ao preconceito que acentuaria ainda mais as desigualdades sociais. Uma solução mais correta, segundo ele, seria a reforma das bases de ensino. “Os ensinos fundamental e médio públicos é que deveriam ser melhorados, para que os alunos pudessem concorrer com melhores chances no processo seletivo”, sugeriu. Quanto aos modelos cotistas já existentes, que diferem os candidatos por etnia, Fuchs os considera impróprios. “Nem o IBGE consegue estabelecer dados de quem é negro e de quem é branco por natureza”, alegou. Ele se referia aos casos reportados de pessoas que se declararam negras, para se aproveitarem do sistema de cotas, por terem antepassados desta etnia, embora fossem caucasianas.
Na criação da Universidade Federal do ABC, em 2006, um consenso de dirigentes instaurou o mesmo sistema de cotas a que visa o Projeto de Lei 3931/08, no qual a exata metade das vagas privilegiaria estudantes do ensino médio público. A UFABC estabelece que 50% de seu espaço discente é reservado a esse público e, dentro dele, proporciona maior ou menor espaço a negros, pardos e indígenas – algo que gira em torno de 22% a negros e 2% a indígenas, segundo o pró-reitor Hélio Waldman. A proporção se dá de acordo com a estatística étnica do IBGE sobre o Estado de São Paulo.
“O consenso da equipe dirigente da universidade foi bem aprovado pelo corpo docente e pelos alunos”, afirmou Waldman. Ele ainda dissertou que a porcentagem separada aos estudantes da educação pública é, proporcionalmente, menor do que o número por cento dessa segmentação estudantil da sociedade.
Para ele, cotar as vagas é inclusivo. “Nós da UFABC praticamos a cota de 50% desde a origem da instituição, há três anos. Acho que é uma tentativa válida de quebrar o processo de exclusão social e contribuir para a inclusão de desfavorecidos socialmente”, defendeu. Mas também considera que, no Brasil, a questão necessita de mais estudos. “Há problemas na aplicação deste conceito no país. Em outras nações, teve um bom resultado, mas aqui há muita discussão e pouco estudo sobre o tema. No entanto, na UFABC, até agora a experiência não apresentou problemas”, conclui Waldman, um dos diretores da reitoria da universidade.
Particular
Milena Previatti, 16 anos, estuda no Colégio Objetivo no centro de São Bernardo. A garota está se preparando para o vestibular, seu desejo é entrar no Centro Universitário São Camilo, no curso de Nutrição. Ela não acha justo impor cotas nas universidades federais, pois considera a dificuldade das provas de seleção a mesma para todos os tipos de gente. “As chances devem ser iguais para todo mundo. Quem estuda em colégio público tem menos oportunidades, mas mesmo assim, a disputa tem que ser igual”, declarou apaticamente.
Já o estudante não identificado, que acabou de sair de uma escola pública para o mesmo colégio de Milena, discorda. Conhecedor do ensino municipal e, agora, do particular, afirmou que a chance de quem estuda em instituições públicas de ingressar em universidades federais é pífia. “O ensino daqui é muito melhor do que o público. Com certeza, os estudantes do Objetivo têm mais chances do que os de meu antigo colégio. Não é justo reduzir tanto as vagas para quem teve oportunidades na vida, mas também é injusto pensar que o desafio deve ser igual para ambos”, disse o garoto de 16 anos, que pretende cursar Direito na Faculdade São Francisco da Universidade de São Paulo.
THE DOORS – RIDERS ON THE STORM
↓Resenha do show do dia 18 de abril de 2009, no Espaço Anchieta, em São Bernardo, publicada na edição do dia 22 de abril do Hoje Jornal↓
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Manzarek e Krieger são os únicos restantes da formação original
Novo nome é intragável, mas banda não perdeu o charme
Um tal de Russo in concert – como alguém o chamou – invade o palco e começa a arranhar acordes de clássicos do rock’n roll. Logo, o que parece ser uma legião de fãs do Grande ABC acompanha sua música e grita familiarizada com os cabelos longos, a voz entranhada e feminina do cantor. Eis a abertura do show. Entre Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, o que mais prende a atenção, vindo dessa figura que toca uma guitarra de dois braços com fúria, é quando o instrumento soa melodias de Janis Joplin. Na verdade, não são as cordas metálicas que mais atraem, apesar de todas as batidas de acorde serem tocadas com um agito mais frenético do que as das originais, mas, sim, as cordas vocais de Russo, que tentam se aproximar de Joplin e, às vezes, quase conseguem.
O homem começa a se vangloriar, entre dedilhadas nervosas, exagera em narcisismo, oferece sua página no site Orkut, faz propaganda de produtores, com voz quase incompreensível e mandíbula tensa, e finalmente se retira. Entram os integrantes do The Doors, ou melhor, do The Doors – Riders On The Storm, já que a gravadora estadunidense os proibiu de usar o nome original – estranho que a canção intitulada, que completara o nome da banda atual, não tenha sido tocada nesse empolgante show de sábado, dia 18 de abril de 2009, no Espaço Anchieta, em São Bernardo do Campo.
O grupo entra enérgico, com os velhos fazendo frente juntos ao novo cantor. Guitarrista e tecladista, Robby Krieger, 63, e Raymond Manzarek, 70, são os únicos que restaram da formação original. Jim Morrison morreu em 1971 e John Densmore, o primeiro baterista, deixou os Doors em 1973 – e entrou com um processo, vencido por ele, contra os dois integrantes restantes por uso indevido do nome da banda. Os caras não perderam a força. A fumaça branca que sai dos fundos do palco não esconde tamanha explosão que, reforçada pelo talento do vocalista Bret Scollin, empolga o público menor do que o esperado, mas não os faz dançar como se via nos anos 60 – talvez pela falta de um lunático como Jim foi, gritando profecias ofensivas e caindo bêbado do palco.
A primeira canção é Love Me Two Times, e demonstra toda a forma dos músicos, eles são performáticos e conversam com o público. Manzarek faz algumas piadas relacionadas à maconha, ao LSD e ao álcool, e o cantor completa: “São Bernardo do Campo, ou seja, lá onde estivermos, é um prazer estar aqui!” (traduzido). Todos parecem se divertir com a declaração sarcástica. E, de repente, começam a tocar We Love You Madly (Nós O Amamos Loucamente) acrescentando no refrão o nome Jim. A combinação se transforma em um mantra, seguido pela platéia. “We Love You Madly Jim!”, “We Love You Madly Jim!” é repetido com algumas variações sem nexo, como “We Love You Madly El Presidente!”, “We Love You Madly George Bush!”. Se faz sentido? Faz! O baterista realiza uma virada habilidosa e um clássico da banda é posto em sonoridade: Break on Trough (To The Other Side), no que parece ser o clímax dessa aventura nostálgica. O público não é grande, há espaços vazios espalhados por toda a enorme arena que é o local, mas é suficiente para dar mais animosidade à música, que é tocada com o fulgor de uma banda jovem. Excetuando a área VIP, que se manifesta com timidez, a pista se agita. O que mudou nos estereótipos? Não se vê personalidades puxadas ao estilo hippie, tão característico do público original do The Doors nos anos 60/70. Os tipos mais perceptíveis, e que estão em maioria, são adeptos do metal e motoqueiros com suas roupagens de couro preto.
Krieger e Manzarek apresentam a formação atual da banda – nada mais justo, sendo que são os antigos e originais integrantes – e declaram seu amor ao Brasil. Os caras brincam com mais alguns sons e deixam provado que puderam reviver o espírito do The Doors nessa noite barulhenta. A banda não perdera o charme, embora o nome – e o complemento: Riders On The Storm, principalmente – tenha se tornado uma chacota.
Acacio Moureira, 51, que vendia camisetas e bugigangas relacionadas ao show explica: “Só Jim Morrison é atitude”.
