‘ANTIAMERICANISMO’
Está fora de moda ser ‘antiamericanista’
Agora vale somente ser antichavista
(Se for ‘de esquerda’, merece uma crítica!)
Criticar a Bolívia, o povo, terroristas
De vez em quando, nas mesas de jantar
É bom tom maldizer Cuba, e seu militar
Até um eventual elogio à China comunista
[vai bem
Mas é feio contestar a América imperialista
AO SEMELHANTE
Talvez você já tenha me visto
No semblante de um arquiinimigo
Viu-me num relâmpago forte
Na criatura de seu próprio umbigo
Talvez em 60, e seus idos
Você tenha me visto dentre
Aqueles colegas bem vindos
Tão vivos pareciam sempre
No protesto violento, de 70
No marasmo calmo da infância
Ou na adolescência confusa
Em tempo de esperança
Talvez você tenha me visto
E eu disfarçado de Coelho
Da Alice, o vi como um cisto
Tudo através do espelho
TOC-TOC, O QUE É?
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é um genérico da ansiedade. Em tempos ansiosos, bom saber de que se trata essa doença simpaticamente apelidada.
Em seu Cortiço, Aluísio Azevedo colocou uma personagem que sofreria de uma excessiva, mas não rara, compulsão. “Mulata antiga”, Marciana por-se-ia a varrer febrilmente sua casa sempre que o mau humor lhe apanhasse. Se a raiva fosse muita, então, ela enxaguaria com fúria todo o assoalho. De características naturalistas, incomparáveis nos toques ao caráter humano, Azevedo representou em Marciana a mania de limpeza, que é apenas um dos tipos de manifestação ansiosa que acometem boa parte dos indivíduos.
Após mais de um século desde a publicação da obra, a ansiedade se tornara inerente à nossa época pós-moderna, tanto mais em centros urbanos. O que hoje chamam de Tra
nstorno Obsessivo-Compulsivo é uma soma das causas e efeitos contidos nas popularmente consideradas manias (em grego, loucuras). A doença consiste em um amálgama de obsessões e compulsões, que são demonstradas em inúmeros sintomas diferenciados, comportamentos que vão desde o colecionismo – na literatura psiquiátrica, é o ato de colecionar e organizar objetos – até o frenesi de lavar mãos em quantidade exagerada de vezes por dia. “É um transtorno da ansiedade”, simplifica Sérgio Pedro Baldassin, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC.
Os motivos do TOC ainda não foram esclarecidos pelo rigor científico. Entretanto, estudos indicam que podem surgir em conseqüência de fatores neurofisiológicos – suspeita-se que anormalidades na transmissão de serotonina provoquem a patologia –, genéticos ou de traumas sociais (como um divórcio, por exemplo). “As causas das doenças mentais, de uma forma geral, envolvem desde o comportamento aprendido, o ambiente familiar, até sua herança genética, o grau de violência que sofre e como lida com o estresse”, supõe o psiquiatra. As primeiras manifestações do transtorno surgem comumente durante a infância ou adolescência, mas não é impossível que apareçam em qualquer momento da vida adulta, gradual ou abruptamente.
O último censo realizado sobre TOC’s é de 1994. A quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais (DSM-IV), desenvolvido pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), constatou que, aproximadamente, 2,5% da população mundial passam a vida inteira com o problema. Além desses, entre 1,5% e 2,1% das pessoas sofrem menos, durante o período de um ano. É de se crer que os percentuais tenham aumentado ao longo do século 21, e que os números do DSM-IV sejam inexatos.
Obsessivo-Compulsivo
A obsessão pode ser caracterizada como um evento mental invasor, tal como uma idéia estranha que surja sem cessar, imagens repentinas, cenas que tamborilem no pensamento ou, ainda, medos e preocupações constantes e irracionais. É importante destacar que o paciente é cônscio do conteúdo absurdo e irracional de seus devaneios incômodos, e que se os eventos passam a ser pensados de maneira obrigatória, perturbando as idéias ao descontrole, são considerados patológicos.
Já a compulsão é, geralmente, uma conseqüência das manifestações obsessivas. São comportamentos intermitentemente repetitivos, como a limpeza excessiva, explorada por Aluísio Azevedo n’O Cortiço, hábitos de higiene metódicos e manias de contagem e arrumação – apesar de intencionais, essa ações são realizadas quase involuntariamente p
elo compulsivo, feitas necessidades.
O TOC, que se define à incidência de um ou ambos os problemas, passa a ser considerado danoso, exigindo diagnóstico, quando ocupa mais de uma hora por dia se manifestando, ao ponto de atrapalhar a vida social, pessoal, profissional ou acadêmica do paciente. Numa proporção bastante clara, que ultrapasse o tempo dito saudável e maltrate a pessoa, é recomendada assistência médica.
“O tratamento é feito a partir de uma associação de terapias, da pessoa e da família, e o uso de medicamentos. Inclusive, em crianças. Essa coisa de ‘ou medicamento, ou terapia’ ficou no passado”, explica o doutor Badassin. Segundo ele, a Organização Mundial de Saúde exige, atualmente, a melhor solução para os transtornos mentais. O cérebro humano é visto, pela OMS, como algo a ser cuidado através da maneira mais eficiente que a Ciência possa oferecer.
Vale dizer que a residência de Marciana, mulata ansiosa da obra O Cortiço, viveria úmida. A causa: excessos cometidos por sua dona na limpeza.
A CRIANÇA
Murmurando palavras que não consigo distinguir, ela me olha. Delicada, ingênua e brincalhona. A menina tem dentes-de-leite brancos como o açúcar; faltam-lhe dois ou três, sob o lábio que ri alegre na luz forte do sol. É divertidíssima quando emana a voz para citar palavras de natureza singela. Sua pele é mais clara que o ébano e mais escura do que o marfim; o cabelo é crespo, tem cores de castanha e permite que a orelhinha fique exposta a qualquer puxão que sua mãe possa lhe dar.
Age com muita pureza a pequena criatura que me ganha amor. Notável é que ela me olha como se eu fosse um irmão. Sorrio também enquanto ela pula, ri, grita e me abraça, agradando-me a alma. Tento arrancar risadas, para manter em orquestração a música que sai de sua voz miúda. A fala, muitas vezes inaudível, é uma autêntica expressão melódica, das mais encantadoras dentre os sons possíveis em liberdade artística, sem instrumentos ou ferramentas musicais. Fico a ouvir e observar, enquanto ela faz incompreensíveis arranjos harmônicos com sua fala risonha.
Uma criança. Não há nada mais doce do que uma criança. Nenhuma realidade reluz tanta graça quanto faz a infância.
(Lembranças de uma construção de Um Teto Para Meu País, em meados de 2008)
TRAIÇÕES
A traição do amor, escandalosa,
deve dilacerar.
A traição da amizade, silenciosa,
é de perfurar.
URBANISMO E EXCLUSÃO
A cidade é espaço do corporativismo
Tomemos como exemplo a Região Metropolitana de São Paulo, foco industrial da política desenvolvimentista durante a década de 1950 e modelo supremo do crescimento econômico no Brasil dos anos 60. São Paulo é a maior expressão nacional da urbanização corporativa que se instalou no país, a partir de um panorama global.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, em acréscimo, disciplinaram o sistema financeiro do mundo, entre os anos 70 e 80, a custo da desregulamentação do setor agrário, que se tornara um espaço para verdadeiros empresários onde os pequenos e médios produtores foram postos à deriva. Daí, o extraordinário êxodo rural, que somou-se a um vertiginoso processo de urbanização.
As favelas paulistas continham 1,2% da população total em 1973. Quando 1993, já eram responsáveis pela habitação de 19,8%. O crescimento populacional médio da década de 1990 foi de 16,4%, ao ano, nas favelas do Estado de São Paulo.
Continuamente, a capital fora absorvendo a população que se favelizava, sendo produto da crise agrária e do imperativo industrial, mas a infra-estrutura medicinal, educacional e empregatícia não acompanhou o ritmo desenfreado.
Em um país no qual o poder decisório e o capital bruto centralizam-se nas mãos da União, as autonomias locais não têm força para atualizar efetivamente seu funcionamento e as grandes corporações, principalmente as internacionais, estabelecem uma cultura hegemônica (de consumo, a mais contemporânea) e afunilam o lucro.
Segundo Milton Santos, esse lúcido, “de um ponto de vista político, as atividades centrais, isto é, programadas como condição de êxito para o projeto nacional, são as que interessam ao próprio Estado e às corporações”. E, logo, “as atividades não hegemônicas são deixadas à espontaneidade do mercado”.
Essa ascensão do capitalismo monopolista gera uma dicotomia fundamental para se estender o processo de exclusão social em tempos modernos: o acúmulo eufórico da riqueza no entanto de uma miséria cada vez mais esparsa. A idéia do utilitarismo, na qual o enriquecimento de uma partícula social favorece às outras partículas que a envolvem, cai seca nas grandes cidades – pouco se cumpre.
Talvez, um dos fatores que melhor explicam a exclusão do pobre pelo rico seja a própria distribuição espacial que se dá sobre o asfalto. O setor imobiliário sacaneia para que onde houver capital não haja o vulgo invasor, a pobreza. A especulação e o encarecimento de terras consolidadas para a produção capitalista afastam – periferizam – os que estão de fora do suposto progresso. Aliás, justamente os excluídos que participam da produção material e geração financeira, e das quais não extraem benefícios, ou direitos, substanciais.
Além do menos, para que cheguem ao local de trabalho, das periferias de onde saem, os afastados devem pagar taxas significativas para os meios de transporte que, quando não os privatizou, o Estado oferece. A distribuição dos transportes públicos obedece à lógica de centralização do capital, e toda sua conseqüente marginalização.
A conclusão que se tem é simples e conhecida, apesar de o tema se tratar de um dos mais complexos e problemáticos deste e, provavelmente, do próximo século de civilização humana. Há um direcionamento dos investimentos do capital, óleo das engrenagens sociais do mundo produtivo, voltado ao favorecimento econômico de corporativismos, que são grupos de domínio e poder.
O capitalismo monopolista permite e defende a supressão de classes por soberanias ricas e minoritárias. Resultado do modelo é quase um quarto da bilionária população mundial vivendo em extremos da pobreza, nos variados tipos de periferia que causam desconforto às cidades, tentando alcançar suas imagens e semelhanças.
A VIZINHANÇA DISTANTE
Há medo e desconfiança naquela calma rua daquele torto bairro.
Preocupações neurológicas, quase neurastênicas, e intranqüilidades desenvolvidas a base de notícias trágicas de terror, dadas repetitivamente e sem cessar, em formatos televisivos, radiofônicos e impressos, regem os modos de viver daquele logradouro. Ainda que fruto das desigualdades sociais, a paranóia dos avizinhados não se atém apenas à eterna luta de classes, que se espatifa em crimes vis veiculados através de meios jornalísticos venenosos. As grossas paredes das residências enfileira
das também protegem seus habitantes de quaisquer contatos, espirituais ou físicos, entre si próprios, e de todos os inconvenientes silenciosos que isso viria a ocasionar.
Proprietários habitam dócil e quietamente as casas do corredor público que se estende por toda uma distância, entrecortada por medos discretos e contenções que evitam dúvidas inerentes à condição humana. Pois há medo de conhecer ao próximo e medo de não ter medo naquela vizinhança. E também há medo de fazer barulho e medo de escutar, um terrível sentimento de auto preservação predomina, com um inefável calor humano alojado que, se libertado, traria união aos locados próximos. Então, seria a vida mais digna, no lajeado. Caso o frio da TV, agasalhado pelas moles almofadas dos sofás, não fosse mais confortável que o calor das portas e portões das casas. Se os recortes de entrada e saída das residências servissem para a comunicação real que, ao contrário da massiva, irreal, alentasse nas conversas parceiras os habitantes daquela via de solidões. Assim agissem os contidos dos cubículos, e a vida seria mais generosa, desprendida e solidária.
Porém, tudo segue em paz nos quadrantes disformes daquele paralelismo, onde coexistem indivíduos medrosos. As calçadas desniveladas e o asfalto esburacado dividem, entre baratas e automóveis, a passagem. Transeuntes sem rosto passam desatentos, sem enxergar os lares que os rodeiam, nos quais vivem seres à sua imagem e semelhança.
GRANDE COLETA TEM ÊXITO EM DIA ENSOLARADO
↓ Um Teto Para Meu País↓
_ _ _


